sexta-feira, 10 de junho de 2016

JOSÉ LOPES CHAMBEL: Uma glória da Advocacia, viveu em Nisa

 JOSÉ CHAMBEL, nome profissional na OA: HONRA À SUA MEMÓRIA
Há poucos dias veio-me à memória a figura desse portento da advocacia, que viveu em Nisa, o Dr. José Lopes Chambel, ou Lopes Chambel para alguns, mas nome profissional na Ordem dos Advogados José Chambel, como era mais conhecido na barra.
Nasceu em 27 de Agosto de 1907 e faleceu após doença em 2 de Outubro de 1971.
Nomeado Delegado da Ordem dos Advogados na Comarca de Nisa em 10-1-1952.
Senhor de um saber profundo, de uma elegância e fino trato para todos, magistrados, funcionários, partes, testemunhas, Lopes Chambel ultrapassava com brilhantismo a figura normal de advogado, para se situar num plano superior dos deuses da advocacia, de uma simpatia, alegria e elegância no trato para com todos , mestre das instâncias... mas sempre preciso e inteligente e habilíssimo nas perguntas sabiamente dirigidas, sensato nos comentários , nas reclamações, com enorme delicadeza para com todos, devotando-lhe os magistrados o maior dos respeitos e admiração.
Detentor de forte simpatia pessoal quer em Nisa quer nas Comarcas onde fazia périplo com o Senhor Patrício, seu motorista na altura, Castelo Branco, Golegã, Castelo de Vide , e outras Comarcas para onde dera solicitado, por força do seu prestígio.
Foi por simpatia sua que nos transportou até Castelo Branco, teríamos 11 ou 12 anos, a uma consulta desse outro gigante em humanidade, e vulto da Medicina, o Senhor Dr. Afonso, oftalmologista, a bondade no atendimento, apesar já da sua doença, e depois o Senhor Campos, oculista Campos, outro homem de igual dimensão e igual bondade, pessoas que nos ficaram, e daí trouxemos o primeiro par de óculos, com o meu querido irmão António.
Lembro-me de ter prestado atenção ao estilo do Dr. Chambel, de certo modo deslumbrado com a sua natural empatia, como que expressando de forma natural a arte de bem conviver com todos, sendo o seu motorista , mais do que um trabalhador, um amigo pessoal.
Aliás meu irmão António refere que... em determinado julgamento, no Tribunal velho de Castelo Branco, o Colega da parte contrária se sentiu mal na barra, e o Dr. Chambel passou o dia em grande aflição que levou, transportou para o escritório, como se fosse, e era, um problema pessoal.
Esteve ligado segundo me dizem, e tenho isso impressivo na memória, a alguns grandes processos (por ex. creio que do sector das cortiças e outros) ombreando com outros vultos da advocacia, como Palma Carlos, sendo público o à vontade, domínio dos objectivos e liderança das situações e incidentes, com o público apreço mesmo das partes contrários e seus mandatários.
Igualmente interveniente na defesa das pessoas envolvidas na denominada greve do pão.
Um Distintíssimo Senhor igualmente em humanidade e grandeza de carácter.
Mais tarde, com a sua doença impressionava-me passar e ver na cadeira de rodas o Dr. Chambel, situação dolorosa para mim e que transmitia a minha mãe, ver assim um homem tão activo, e ele próprio nos via e gesticulava, o que era doloroso para nós.
Impôs-se-me assim recordar o nome e a memória desse gigante da advocacia portuguesa, era dado adquirido que se tratava de um profissional brilhante, mesmo fora de série, e ciente de que o auxílio imprescindível me viria de ti (apesar da dimensão em que estás, meu caro e bom Manuel - Manuel Sena, que o conheceste como poucos, meu grande e sincero amigo, e que essa informação me era indispensável, preciosa para homenagear com mais rigor e realce tal vulto tão brilhante de advogado, sob aspectos da vida forense e do escritório, que por certo com ele vivenciaste, e intimamente observaste nos teus anos no escritório, e de que falámos algumas vezes).
Mas logo se me aquietou o espírito, embora tenha consciência de não seja eu o mais digno e capaz para recordar tão elevada figura, mas que a tua bondade (... tão grande bondade que jamais esquecerei... meu bom Manuel ... me inspirará com a tua ajuda,... e o teu espírito transversal ao tempo me ajudará a “psicografar”, sem preconceitos, o dever deste testemunho, ou um texto minimamente digno da memória desse gigante dos Tribunais, da advocacia portuguesa, como jamais foi visto em poucos a esse tão elevado nível, e digno de repor a memória de alguém de plano superior na advocacia e no direito, como poucos alcançaram.
José Lopes Chambel ultrapassou, e esteve para além de um advogado comum , estava para além dos horizontes normais do dia a dia dos Tribunais do seu tempo, tecnicamente muito bom mas excepcional em processo, perfeito nas alegações, incisivo, porém educado e nobre nas instâncias em que era mestre e senhor, detentor do segredo da palavra certa e oportuna, ultrapassando com ligeireza patamares de alta exigência profissional e científica, apesar da elegância e simpatia que punha em tudo, sendo sua marca característica a anedota actualizada para descontrair , aliviar tensões, aproximar e convocar todos para um trabalho sereno e concentrado, advogados, partes contrárias, magistrados e funcionários, indispensável a boas e serenas decisões .
Com interesse ...” em 14 de Fevereiro de 1960: Dr.Manuel Flamino F.Martins, na passada segunda feira, realizou-se perante o Sr. Dr. José do Carmo, Conservador do Registo Civil de Castelo Branco, devido a encontrar-se doente o Sr.Dr. Alberto Franco Falcão, juiz substituto, o acto de posse do novo Juiz da nossa Comarca, Sr. Dr. Manuel Flamino Martins, que tem desempenhado as funções de Juiz Ajudante do Círculo Judicial de Castelo Branco.
Encontravam-se presentes no acto de posse, entre outras individualidades, os Srs. Dr. José Lopes Chambel, advogado, Moisés dos Santos Martins, estudante de Direito e irmão do empossado. (Creio que foi escrivão em Nisa e se terá formado ainda durante a sua actividade aí em Nisa, pelo menos é essa ideia que tenho).
No seu brilhante discurso o Sr. Dr. Juiz Flamino Martins referiu-se ao conceito de justiça e à dificuldade que muitas vezes surge na sua aplicação...
Ao novo Juiz da nossa Comarca, cujo valor intelectual e profissional há muito se impôs a todos que o conhecem, endereça o “Beira Baixa” as suas felicitações dom o desejo das maiores prosperidades no desempenho do seu novo cargo.”
Passava pois e muito por Castelo Branco, onde tinha escritório, o labutar deste senhor da advocacia, e seria certamente fácil colher testemunhos escritos sobre este Distinto Advogado, dos mais ilustres de Portugal, a quem nos cumpre rememorar tão Ilustre Memória.
Não recordar e honrar a memória de tal valor altíssimo e glória da advocacia portuguesa seria grave omissão do dever de respeito pela sua ilustríssima memória que aqui fica humilde, mas veneradamente respeitada, por um aliás humilde nisense.
Reproduz-se a seguir parte de decisão judicial (sentença) de um outro brilhante Juiz de direito na Comarca de Nisa, José dos Santos Silveira, e em que possivelmente o Exm.º Senhor Dr. José Chambel poderá ter intervindo: “Na presente acção ordinária, intentada pela Junta de Freguesia da Comenda contra a Firma Barreira e Companhia (Irmãos ) com sede em Lisboa, intervindo, por chamamento à autoria a sociedade inglesa, Henry Bucknall and Sons, Limited, com sede em Londres, as rés nas suas contestações, levantaram as seguintes questões:
1.º A nulidade da petição inicial, por ineptidão;----2.º A excepção da ilegitimidade da Autora;....3.º A excepção da ilegitimidade da Ré Barreiros ;...4.º A nulidade , quanto à petição inicial , por inobservância.........no que concerne ao pedido secundário; 5.º A excepção do caso julgado...6.º-A excepção peremptória de prescrição aquisitiva ou usucapião...............................
Entremos na apreciação das questões postas: 1.ª questão.... sabe-se o que pretende e porque pretende. Logo, não existe ineptidão. Pelo exposto se desatende arguida nulidade;2.ª questão, a questão deixou de subsistir, desde que a A. na sua réplica veio reduzir o pedido secundário, em virtude da excepção apresentada; 3.ª questão...Não tem razão a ré ... Entendemos que o domínio sobre os baldios pertence às entidades a que na lei se atribui a sua administração, pelas razões....; 4.ª questão...Sabe-se qual é o pedido e a causa de pedir....Não houve inobservância...e, por isso, se desatende a arguida nulidade; 5.ª questão...Entre a relação jurídica apreciada nas anteriores acções e a que é objecto da presente causa não há qualquer vínculo de dependência...Por tudo o que fica dito, se desatende a excepção do caso julgado;6.ª questão...A ré Bucknall exercia sobre as malhadas das Costas posse, não só por virtude do registo, mas ainda pela prática de actos de uso e fruição, pelo menos durante os meses de Outubro, Novembro e Dezembro, usufruindo o povo da Comenda os pastos e lande nos restantes meses do ano...Pelo exposto, se desatende a excepção de prescrição alegada pelas rés.....O direito de compáscuo do povo da Comenda, em relação às malhadas das Costas, a existir no momento em que o Código Civil entrou em vigor, teria sido abolido pelos mencionados artigos 2264.º e 2265.º. Atento o que foi resolvido no que concerne ao pedido principal, encontra-se prejudicada a questão relativa ao pedido acessório ou secundário dos frutos. Pelo exposto, improcedendo a acção, absolvem-se os réus dos pedidos.
Nisa , 9 de Julho de 1957 (a) José dos Santos Silveira).
E com esta luz resplandecente fecho a homenagem a tão brilhantíssimo senhor da advocacia portuguesa.
João Castanho - 25/11/2010