terça-feira, 8 de novembro de 2016

MEMÓRIA: Petição à Câmara de Nisa em 1885

Dos moradores do Monte Cimeiro e do Pé da Serra
Usando da faculdade que a lei conferia, os moradores das aldeias ou povoações mais pequenas, faziam regularmente petições às entidades públicas, reivindicando a resolução de problemas. O arranjo das vias de comunicação é reivindicado nesta petição apresentada à Camara de Nisa em 1885 e que transcrevemos respeitando a ortografia da época:
" Os abaixo assignados moradores no Monte Cimeiro e Pé da Serra, freguezia de S. Simão d´este concelho, usando de um direito que a lei lhes confere, veem hoje representar a V. Exªs sobre a necessidade inaddiavel de se attender de prompto á reparação, na parte indispensavel, de um dos caminhos publicos que ligam aquellas povoações ruraes com a séde do mesmo concelho. É incontestavel que muito, relativamente, se tem feito para que a viação municipal possa satisfazer ao que o commercio, a industria e em summa as forças vivas do municipio, no seu progresso successivo, vão exigindo; mas não é menos incontestavel que não ha presentemente no concelho povoação alguma que esteja em peiores condições de viação do que o monte, aliás importante, do Pé da Serra, porque infelizmente até hoje nenhum beneficio tem recebido n´esse sentido. Bastará dizer que, para uma carreta chegar a este monte, tem que ir alcançar o Azinhal, suppondo que Niza é o ponto de partida, percorrendo assim uma distancia dupla da que teria de percorrer se seguisse pelo caminho chamado do Carqueijal em direcção ao Porto das Carretas.
Acresce ainda que, para a propria viação a pé ou a cavallo, o caminho ordinariamente seguido, o da Ponte em direcção a Portella dos Caldeireiros, está hoje já quasi intransitavel. Para remediar estes males, que são grandes, pois affectam interesses legítimos, os abaixo assignados veem pedir á Exma Camara Municipal a immediata reparação do caminho do Carqueijal, na parte comprehendida entre a Cancella da tapada dos herdeiros de José da Cruz Cebola e o Porto das Carretas, distancia que é pequena, e em seguida a reparação do dito porto, de forma que o seu pavimento seja de calçada e colloquem n´elle as competentes passadeiras.
D´esta arte com uma pequena despeza, o beneficio para o monte do Pé da Serra é tão grande que só em occasiões de grandes cheias será interrompida a viação pelo dito porto, convindo notar que esse beneficio se estende ainda aos habitantes do monte da Salavessa, visto que elles fazem escala pelo Pé da Serra.
Attendendo á justiça que assiste aos abaixo assignados e a que a reparação pedida importa apenas uma pequena despeza, que não se torna sensível na verba aprovvada para tal fim no respectivo orçamento, esperam, e attendendo a que aproveita ainda ao povo da Vinagra, onde residem alguns signatários.
Pedem a V. Exas deferimento."
Á frente dos signatários vinha o nome de João António da Silva, pároco de S. Simão. Nos mais de 30 nomes que integram a petição, muitos dos apelidos são-nos familiares (Corga, Pires, Anastácio), por serem comuns em Nisa, o que torna credível a ideia de que a formação do monte do Pé da Serra, se processou após a destruição de Nisa-a-Velha, sendo os povos de Nisa e daquela localidade, apenas um e o mesmo povo.

in "Jornal de Nisa" - Nº 36 - 23 de Junho de 1999

terça-feira, 1 de novembro de 2016

NISA: Ecos da Nossa História (1)

O descanso semanal em 1930
Em 17 de Maio de 1930, em plena Dictadura Nacional, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Nisa, presidida pelo tenente António Falcão e tendo como vogais António Joaquim Fraústo e João da Cruz Carita (Canhoto) aprovava o Regulamento do Descanso Semanal, com as seguintes disposições:
Artº 1º : O descanso semanal no concelho de Nisa será observado nos termos do Dec.de 8 de Março de 1911, nº 5516 de 4 de Março de 1919, 10782 de 20 de Maio de 1925, 13788 de 9 de Junho de 1927 e do presente Regulamento;
Artº 2º : Têm direito ao descanso semanal de 24 horas seguidas, salvo os casos previstos neste Regulamento, todos os assalariados a que se refere o artº 1º do Decreto de 8 de Março de 1911.
Artº 3º: Não são abrangidos pelo artigo antecedente, os trabalhadores rurais, os pastores e tratadores de gado.
Artº 4º: O dia de descanso semanal será:
a) Às segundas-feiras para os sapateiros e barbeiros;
b) Às quartas-feiras para os estabelecimentos onde se façam transacções de carácter comercial;
c) Aos domingos para os pedreiros e carpinteiros.
Artº 5º: Nos dias de descanso semanal os estabelecimentos a que se refere a alínea b) do artº anterior encerrarão as suas portas.
& Único: Quando o encerramento dos estabelecimentos coincidir com os dias de mercados ou feiras, o encerramento far-se-á no dia imediato.
Artº 6º: Aos patrões e empregados que transgridam as disposições do presente Regulamento serão aplicadas as seguintes multas:
1) Pela primeira vez ---- 100$00
2) Pela segunda vez ---- 150$00
3) Pela terceira vez ----- 200$00
& Único: O produto das multas será assim dividido: 50% para o participante e o restante a favor do estabelecimento de beneficência da localidade onde se cometer a transgressão.
Artº 7º: As dúvidas que possam suscitar-se quanto à aplicação do presente Regulamento serão resolvidas pela Câmara Municipal.
NOTA: Como se vê pelo Regulamento, as classes mais pobres e sobre quem pesava o trabalho mais duro e mais mal pago (trabalhadores rurais, pastores e tratadores de gado) não tinham direito ao descanso semanal. Trabalhavam de sol a sol em condições duríssimas e nem assim, tanto os governos republicanos como os da Dictadura saída do 28 de Maio de 1926, lhes garantiam o mínimo direito a um dia de descanso semanal.
A jornada de 8 horas de trabalho nos campos só foi conquistada em 1962, após uma luta determinada, levada a cabo nos campos do Alentejo e Ribatejo.
Roubo de um chibato em Fevereiro de 1908
(Carta do Administrador do Concelho ao Delegado do Procurador Régio (12/2/1908)
"Cumpre-me levar ao conhecimento de Vª Exª que se veio queixar António da Graça Cigano, casado, lavrador, morador no Canto de Santo António d´esta villa, de que na noite de 10 para 11 do corrente lhe abriram com chave falsa a porta de um seu palheiro que está dentro de quintal murado e com portão, sito à Azinhaga da Fonte da Pipa, subúrbios d´esta mesma villa, roubando-lhe de lá um chibato branco de 3 annos, cujo valor reputa em cinco mil réis.
Que o portão do dito quintal foi encontrado fechado por elle queixoso, achando-se porem aberta a porta do palheiro onde estava o chibato, d ´onde se presume que o roubo foi feito por mais de uma pessoa passando-se o chibato por cima do muro. Que hontem pela manhã José Carita Caldeira, casado, lavrador, morador na Rua da Deveza, passando pela ruinha do Rossio, encontrou ali quatro patas de um chibato e dissera para Maria da Graça Guerra, casada, que occasião passava também: “ Tanta gente que compra patas de chibato... quem seria que deitou estas fora?” Que a mulher as apanhou e as levou para sua casa. Constando isso ao queixoso, mandou pedir as patas à mulher e reconheceu logo que eram as do chibato roubado, as quaes apresentou n´esta Administração e acompanham este mesmo officio.
Enquanto vou proceder as necessárias investigações, d´isto dou conhecimento a Vª Exª para que seja feito o competente exame no local do roubo e restos do chibato que acompanhou este meu officio.
O Administrador
(a) Paralta
Reforço policial na Semana Santa (1905)
O documento é de 1905 e retrata o fervor religioso por ocasião da Semana Santa, em Nisa. Um fervor religioso que, muitas vezes, extravasava o âmbito das celebrações e descambava em situações delicadas e pouco abonatórias do carácter solene de tais manifestações.
Temendo a repetição de actos verificados em anos anteriores - um deles ficou tristemente assinalado pela morte, por esmagamento, de uma mulher - em 19 de Abril de 1905, o presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Nisa, Subtil, expunha as suas preocupações ao Comandante da força do Regimento de Infantaria nº 22 (Portalegre) destacado para esta vila, ao mesmo tempo que lhe dava directrizes precisas sobre o desempenho da mesma.
Carta ao Commandante de Diligencia de Infantaria nº 22 d´esta villa
"Cumpre-me communicar a Vª Exª que a força militar do seu digno commando, que se encontra n´esta villa, foi por mim requisitada para policiar as procissões que aqui se realizam amanhã e no dia seguinte por 8 horas da noite, e que sahem da Egreja da Misericórdia, e não para fazer a guarda de honra às mesmas procissões.
Espero que Vª Exª se digne ordenar que a dita força seja postada na cauda das procissões afim de evitar atropellamentos durante o caminho, principalmente à entrada da Egreja, onde a multidão costuma entrar de tropel.
A mesma força militar vem tambem com o fim de policiar a Romaria de Nossa Senhora da Graça a 3 kilometros d´esta villa, no dia 24 do corrente, para onde deverá seguir às 8 horas da manhã.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

VIDAS: João Caixado - Ex-salsicheiro

"Não havia enchidos com a qualidade dos nossos"
João da Cruz Cebola Caixado, tem 77 anos, um terço dos quais dedicados à salsicharia tradicional. Foi alfaiate e merceeiro, mas os fracos proventos auferidos nestas actividades, levaram-no a enveredar pelo comércio de carnes frescas e de enchidos.
"Cessei a minha actividade há oito anos. Estive à frente de uma salsicharia durante vinte e cinco anos. Era um negócio "caseiro", familiar, como quase todos os deste ramo na vila de Nisa. Comprava os porcos, levava-os ao matadouro, ajudava a matá-los e depois era eu que os desmanchava, em casa. A minha mulher, ajudada por outra, a "enchideira", encarregavam-se de migar a carne e proceder ao enchimento das tripas. Os enchidos eram, depois, colocados, em varas, no fumeiro, para o processo de "cura", com lenha de azinho. Era assim que, em minha casa e em mais de uma dúzia de salsicharias de Nisa, se trabalhava."
João Caixado, recorda esses tempos de azáfama, com um brilho nos olhos e fala dos enchidos de Nisa com indisfarçado orgulho:
" Naquele tempo quase todas as pessoas tinham o seu bacorinho para engordar. A furda, no quintal, ou a pocilga, no chão (tapada) serviam para aproveitar as viandas, e a engorda do porco representava uma grande ajuda para os magros proventos das famílias."
Os salsicheiros adquiriam a maior parte desses suínos, avaliados e pagos "à arroba", que conduziam ao matadouro municipal onde eram abatidos.
"No meu comércio, havia duas "matanças" por semana, às quartas e sextas-feiras, dois ou três porcos, às vezes menos, conforme a época, a oferta e a procura".
Os enchidos tradicionais de Nisa, como o chouriço, a cacholeira, a linguiça, a moura, a morcela e a farinheira, tinham grande procura, consoante o tipo de consumidores e de "bolsas". A lavoura tinha, ainda, um grande peso na actividade económica de Nisa e os trabalhadores rurais aviavam as suas "fatadas" onde não faltava o bocadinho de conduto: os enchidos. 
Foi assim até à década de 70. Depois, ao progressivo abandono dos campos e à imposição de novas regras e restrições no abate e comércio de gado suíno e ovino, juntou-se a avançada idade de grande parte dos salsicheiros de Nisa, que se viram remetidos para uma situação "entre a espada e a parede".
Prosseguir a actividade significava vultuosos investimentos em instalações e equipamentos, projectos, processos burocráticos para os quais faltava paciência, informação e ajuda.
O sector atravessava uma grande indefinição. À entrada na CEE, seguiu-se o encerramento dos matadouros municipais, uma das medidas que, aos olhos de Cavaco Silva, nos transformava em "bons alunos" da realidade europeia. Tal decisão significou, a nível local e regional, um profundo golpe numa economia de subsistência: o matadouro municipal foi, directa e indirectamente, a base de sustento de muitas famílias.
João Caixado, seguiu o caminho de outros salsicheiros nisenses: fechou as portas e acabou com o negócio. Uma decisão que não foi fácil e que ainda hoje recorda com algum pesar.
"Começou a haver concorrência, vinda de fora. O abate de gado fazia-se nos matadouros industriais, com grandes armazéns frigoríficos e estes vendiam aos comerciantes as partes dos porco que lhes pediam. Por um lado, era mais fácil e vantajoso adquirir só o que nos interessava, pois os ossos e os toucinhos, às vezes, eram para mandar fora. Fui mantendo, enquanto pude, a actividade. O pior foi a imposição de construir ou remodelar as instalações e com a idade que tinha pensei que o melhor era encerrar o comércio."
Hoje, olha para trás com alguma nostalgia. Tem saudades do matadouro, dos clientes, do movimento da casa, da procura dos bons enchidos de Nisa e revela-nos as razões de serem tão apreciados.
"A qualidade começava, em primeiro lugar, nos animais. A carne dos porcos de montado, alimentados a lande e a bolota, tinham, logo, outro sabor. Depois, era a escolha e preparação das carnes, de acordo com o tipo de enchidos. Os chouriços e as linguiças, eram de uma qualidade, as cacholeiras e as mouras, de outra, e por aí fora. Aspecto importante eram os temperos. O pimento de horta, o saber migar e "adubar", uma arte, centenária, das mulheres-enchideiras de Nisa, o tempo da carne em repouso, para tomar os temperos, enfim, parecem coisas sem importância, mas são aquelas que davam valor, qualidade e fama, aos enchidos de Nisa. Havia lá havia enchidos como os nossos...". 
Mário Mendes - in "Jornal de Nisa" - 2003

sábado, 1 de outubro de 2016

NISA: Poetas Populares

Vou à Senhora da Graça
Antiga vila de Nisa
É recordação de quem passa
Estás no coração
Nossa Senhora da Graça

Nossa Senhora da Graça
Que estás à nossa beira
Estás no coração de todos
Nossa bela padroeira

Nossa bela padroeira
Que está no cabecinho
Nem que lá esteja calor
Sempre lá corre o ventinho

Sempre lá corre o ventinho
E nós com muita alegria
No dia 4 de Abril
Vamos todos à Romaria

Vamos todos à Romaria
É dia de procissão
Haja festa e foguetes
E lá vamos com devoção

Senhora tu és velhinha
Como tu não há igual
Estás no coração de todos
Neste velho Portugal
Maria da Graça Cortiçada

MEMÓRIA: Dr. Francisco Miguéns, nisense ilustre

O doutor Francisco da Graça Miguéns, médico notável e bondoso, nasceu em Nisa, a 2 de Abril de 1854, filho de Brás Miguéns Beato e de Maria da Cruz. Exerceu durante 34 anos com grande amor, sentido profissional e exemplar dedicação à sua terra e às populações do concelho, o cargo de médico municipal.
Frequentou o Liceu de Santarém onde se revelou como um aluno brilhante. Formou-se em Medicina e Filosofia na Universidade de Coimbra, tendo conquistado diversos prémios e distinções. Após a obtenção do seu diploma universitário, foi convidado pelo Corpo Docente da Universidade para prosseguir como professor de Medicina naquele prestigiado estabelecimento de ensino, convite que declinou, tendo preferido voltar à sua terra, sendo nomeado médico municipal a 11 de Agosto de 1880, tomando posse do cargo nesse mesmo dia.
Desde Agosto de 1880 e durante 34 anos, o doutor Francisco da Graça Miguéns, trabalhou com desvelo, bondade e abnegação, mostrando sempre a mesma disponibilidade para tratar dos seus conterrâneos e acudindo a todas as situações para que fosse solicitado, tanto de dia como de noite.
Tendo em conta os serviços relevantes prestados ao concelho, a Câmara Municipal decidiu, em 24 de Julho de 1919, atribuir o nome do ilustre médico e benemérito à antiga Rua Direita e colocar o seu retrato no salão nobre dos Paços do Concelho, de onde foi retirado por expressa solicitação do próprio clínico.
Vítima de doença, faleceu a 10 de Outubro de 1933.
Nisa- Rua Dr. Francisco Miguéns (antiga Rua Direita)
Foi homenageado a 29 de Maio de 1945 com a inauguração de um busto, belo e simples, no Jardim Municipal de Nisa, que fica a recordar às gerações de nisenses, a figura humilde e bondosa do Dr. Francisco Miguéns.
Dr. Francisco da Graça Miguéns
Viveu a sua vida sossegada,
Entregue ao bem e ao culto da ciência,
E quando a morte veio - a consciência
Tinha a pureza e a luz duma alvorada.

Sua alma foi, na terra, a enamorada
De tudo o que há de belo na existência,
Do Ideal atinge a região imaculada.

E sempre em torno dele, suavemente,
Um murmúrio de prece esvoaçou:
- Era o coro de bênçãos, puro e ardente,

De tantas criancinhas que afagou,
De tanto pobrezinho e tanto doente
Que o seu coração de oiro consolou.
Dias Loução (12/10/1933)

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Cruz Malpique, um pedagogo nisense

Em louvor dos trabalhos manuais
1 - A criança não se contenta com imaginar teoricamente. Acha isso muito pouco. Do imaginar ao realizar, quase não deixa espaço. O dito e feito, o imaginado e realizado, assumem, nela, o efeito de uma irresistível pressão. Quer ver logo tudo concretizado. Quer seja ela própria, ou em colaboração com outras crianças, a executora dos planos sonhadores. Se imaginou aspectos da vida selvagem - e a televisão hoje lhe dá abundantes sugestões -, logo os quer viver com outras crianças. E se, acaso, fantasia alguma máquina, alguma casa, algum artefacto, logo reclama martelo, madeira, pregos, tesouras, facas, argila, areia, e ó mãos para que vos quero! Como disse Stanley Hall, padre mestre nas coisas da psicologia infantil, nunca a mão esteve mais perto do cérebro do que nessas idades.
O manualizar, o fazer concretamente, o transitar da imaginação à prática é uma das mais patentes dimensões espirituais da criança.
2 - A criança é uma forma abreviada da evolução da humanidade. O homem, antes de ser homo sapiens, foi homo faber, homo manualis. Antes de teorizar, comprovou-se em fazer (1). Assim o homem nos seus primórdios, e assim também a criança nos dias de agora. O sábio dizia: dêem-me um ponto de apoio, e eu levantarei o mundo. A criança é como dissesse: dêem-me possibilidades e oportunidades de eu fazer, pelas minhas próprias mãos, com ferramentas mais ou menos improvisadas, este mundo e o outro, e eu serei feliz, não saberei o que é um momento de tédio, não darei pela passagem do tempo. A inteligência da criança não se processa no mundo do abstracto, mas no mundo do concreto. Para vir a dar, com eficiência, o salto ao mundo, puramente intelectivo, precisa do trampolim dos trabalhos manuais.
(1) - Saber é fazer, no que respeita a trabalhos manuais. E estes não se fazem por correspondência. E preciso sujar as mãos, em flagrante exercício. Já Herculano dava prioridade ao ensino técnico sobre o meramente literário. E que o primeiro era o do aprender fazendo, ao passo que o se­gundo era o dos flatus vocis, o do palavreado, constituído por cheques sem cobertura no banco da experiência.
Cruz Malpique - Em louvor dos Trabalhos Manuais. Labor, Revista do Ensino Liceal, N.º 301, Aveiro, Abril de 1972.

Amável Silva, um montalvanense ilustre

Em 20 de Janeiro de 1909 nascia em Montalvão este ilustre Homem de Letras que, se fosse vivo, completaria agora 100 anos de idade. Trata-se da figura que todos os anos pelo 5 de Outubro é homenageada na Escola Garcia d’ Orta de Castelo de Vide, através da atribuição de prémios, com o seu nome, destinados aos alunos que mais se distinguiram neste estabelecimento de ensino.
Apesar de ter nascido naquela localidade do Concelho de Nisa, Amável Silva veio morar para Castelo de Vide com apenas um mês de vida, daí que se considerasse um genuíno castelovidense. Era filho do casal de professores Primários, de seus nomes Severiana e António Silva, ambos de Castelo de Vide. Aliás ambos exerceram na vila e muita gente ainda se recorda destas duas figuras que ensinaram tantos e tantos castelovidenses e não só.
Depois de ter estudado em Portalegre, Amável Silva foi para Lisboa onde, na Faculdade de Letras, se licenciou em Germânicas. Ainda na capital portuguesa foi professor de Liceu e posteriormente no Instituto Comercial. Sabemos também que esteve em Inglaterra a especializar-se na sua profissão.
As férias passava-as em Castelo de Vide na casa de família situada na Rua 5 de Outubro (ou dos Escudeiros). Aliás Amável Silva era uma pessoa muito ligada a esta vila, onde tinha muitos amigos, entre eles elementos da família Laranjo e Canário.
Esta notável figura faleceu, depois de prolongada doença, em Castelo de Vide a 5 de Outubro de 1976. Contava pois apenas 66 anos de idade.
O Prémio Escolar Dr. Amável Soares da Silva foi instituído pela viúva, num gesto de sentida homenagem, aquando da morte do professor. Este Prémio tem os seus estatutos publicados em Diário da Republica e é em valor pecuniário, sendo que parte da verba tem de ser investida na aquisição de livros.
Como curiosidade refira-se que Amável Silva foi um destacado professor que sempre se norteou pela competência e também exigência, sendo ainda hoje recordado pela sua pose muito gentleman, no bom sentido do termo. Ao que nos informaram, em Lisboa chegou mesmo a ser Professor do actual Presidente da Republica Portuguesa, quando este frequentou Instituto Comercial de Lisboa.
Aqui fica pois registada, em jeito de Homenagem, um percurso da vida deste notável castelovidense que nasceu há 100 anos. Agradecemos a amabilidade das pessoas que nos forneceram informações sobre o Dr. Amável Silva, sendo certo que este se resume apenas a um singelo e despreocupado artigo que pensámos ser de todo o interesse registar aqui e agora.
Entretanto conseguimos apurar que o espólio literário e documental do Dr. Amável Soares da Silva vai reverter a favor do Município de Castelo de Vide e da sua Biblioteca Laranjo Coelho.
Notícias de Castelo de Vide (blog)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

NISA - GENTE DA MINHA TERRA - José Casimiro

“ Corri meio mundo pela música e pelo futebol”
José Casimiro da Piedade Bicho, nasceu em Nisa, há 77 anos.
Andou na Escola do Rossio, aprendeu as primeiras letras com o professor Camilo, pisou, descalço, os caminhos e azinhagas que o levavam à brincadeira e à aventura, quando não havia bola de trapos para pontapear. A rua era, na década de 30, o espaço natural de convívio, experiências e crescimento. Com o pai, aprendeu a arte de carpinteiro e tomou o gosto pela música. Uma paixão que durante a vida lhe garantiu uma parte do sustento, mas que teve que dividir com outra: o futebol. Em “Gente da Minha Terra”, José Casimiro, começa por nos lembrar alguns dos tempos da sua infância
“Nasci na rua Direita e frequentei a Escola Primária do Rossio, tendo como mestre o professor Camilo.
O jogo da bola era a nossa principal brincadeira. Jogávamos à bola nos Postigos, ao lado do Cinema, no largo da Escola, onde calhava e não implicassem connosco. As bolas eram as famosas “trapeiras”. Eu roubava meias velhas à minha mãe e enchíamos-las de trapos. Era assim naquele tempo, não havia dinheiro para o essencial, quanto mais para bolas.”
Paixão pelo futebol e pela... música
José Casimiro teve sempre a música como companheira de infância. O pai e a vizinhança não deixavam passar, um dia que fosse sem que os acordes musicais da trompete, do saxofone, do banjo ou da concertina alegrassem as ruas próximas da Praça do Município.
“Posso dizer que nasci num ambiente “musical” e este acabou por me influenciar e dar um rumo à minha vida. O meu pai era o homem dos sete instrumentos e tocava desde o saxofone ao banjo e acordeão.
O meu grande sonho era jogar à bola. Tinha jeito, jogava a avançado e marcava muitos golos, mas o meu pai teimava comigo pois queria que eu fosse músico. Ainda aprendi clarinete na banda de música com o mestre Franco, mas foi a tocar acordeão que me tornei conhecido e ganhei alguns tostões ainda na minha juventude. Foi o meu pai que me ensinou e ainda me lembro do primeiro serviço que fiz, com 13 ou 14 anos, o casamento do ti Laquim. Dois dias de festa, a tocar no acompanhamento e nos bailes.
Assim que acabei a instrução primária comecei a aprender a arte de carpinteiro e marceneiro com o meu pai. Aos sábados e domingos havia bola e bailes à noite.
Percorri o concelho de Nisa e outras terras vizinhas a tocar em bailaricos, casamentos, e acompanhamento dos rapazes que iam tirar “sortes”
No princípio dos anos 40 formou-se um clube popular, os Canários, e eu fui um dos fundadores. Não tínhamos sede nem nada, juntávamos-nos só para jogar futebol. Pagávamos uma quota simbólica, para podermos comprar uma bola e sempre que havia jogo, lá ia eu pedir umas pontas de sapateiro e uma sovela ao ti Augusto Calhabré para podermos dar uns pontos na bola se ela rebentasse.
Com 17 ou 18 anos comecei a jogar no Nisa e Benfica e posso dizer que tínhamos uma grande equipa. Naquela altura não havia provas oficiais nem as “camadas jovens”. Foi pena porque havia muita rapaziada com jeito e vontade de jogar futebol. Jogávamos em muitas terras do distrito, desde Arronches, Gáfete, Portalegre e tantas outras, e íamos a Espanha, a Valência de Alcântara, disputar um torneio nas festas de Verão. Uma das vezes em que ganhámos o torneio marquei dois golos.
No futebol e em competições oficiais joguei na Casa do Povo da Urra e fomos campeões regionais da FNAT, sendo eliminados pela Companhia dos Telefones (Lisboa) que era uma autêntica selecção de jogadores veteranos e que passaram pela 1ª Divisão nacional.
Eu gostava muito de futebol e chegava a vir de Lisboa, de propósito só para jogar.”
Como muitos jovens do seu tempo, José Casimiro teve de sair da sua terra e procurar novos horizontes para o futuro que começara a construir.
“Estive em Nisa a trabalhar até 1960, ano em que entrei para a Carris, como motorista.
Em Nisa, tinha o ofício de carpinteiro e tocava em bailes, festas e “sortes” por todo o distrito.
A par do futebol, acabei por agarrar a concertina com as duas mãos. O meu pai ensinou-me e durante a vida fui sempre um autodidacta. Na tropa, durante 29 meses, também aprendi muito, pois tinha uma grande facilidade em fazer a leitura musical.
A ida para Lisboa facilitou o contacto com outros músicos e com empresários do ramo.
Durante as décadas de 60, 70 e parte da de 80, fiz o acompanhamento musical de muitos artistas conhecidos, como Lenita Gentil, Fernanda Batista, Anita Guerreiro, Vitória Maria, Tristão da Silva Jr., Rosita Afonso, hoje mais conhecida como Rosa do Canto, Joaquim Cordeiro, Francisco Jorge e tantos outros.
Foi uma época de trabalho muito preenchida e esgotante, com espectáculos todos os fins-de-semana, na zona de Lisboa, no Ribatejo ou no Alto Alentejo. Posso dizer que, praticamente, actuei em todas as localidades do nosso distrito.
Em 1982, percorri todas as localidades do concelho de Loures e muitas outras do país, com a revista “ A Pata que os Pôs” com o José Viana, Dora Leal, Carlos Miguel, Lia Sena e outros actores.
Participei, a título gracioso, em muitos espectáculos de beneficência, tanto em Lisboa, como em Nisa e Vila Velha de Ródão, terra da minha esposa.”
Sinfonia na Rua Direita
A Rua Direita, onde nasceu José Casimiro, chegou a ser conhecida como a rua dos músicos, tal a quantidade (e qualidade) dos executantes que ali residiam e que a horas certas ou incertas faziam ouvir os seus instrumentos.
“É verdade. A Rua Direita, a certas horas, mais parecia uma orquestra sinfónica, tal a quantidade de músicos que se ouviam na rua a ensaiarem. No princípio da rua estava o ti Xirra. Em frente, a nossa casa e três músicos (o meu pai, eu e o meu irmão António que também tocava acordeão). Mais acima, o ti Abílio Porto, o ti Luís Félix e a família Calhabré, pai e filhos, onde ensaiava o grupo “Os Fixes”
Na casa do meu pai ensaiou durante algum tempo o grupo “Os Unidos”. Enfim, nesses tempos, Nisa tinha muitos e bons músicos, havia um grande gosto pela música, um gosto que felizmente não se perdeu.
Eu ainda fiz parte de um conjunto musical, “Alegria e Ritmo” que além de mim, integrava o meu irmão António (tocávamos os dois acordeão), Carlos Pequito (clarinete) Vítor Bonito (vocalista e bateria) e Manuel Filipe (vocalista e bateria).
Actuámos várias vezes em Portalegre, nos santos populares, no bairro junto ao campo da Fontedeira. Na altura, Portalegre tinha boas orquestras, como a “Ideal”, Ferrugem”, “Alentejanos”, mas nós conseguíamos atrair mais gente porque tínhamos um melhor repertório, principalmente de músicas espanholas que o meu pai arranjava.”
Aos 77 anos, com duas filhas e três netos, José Casimiro continua a adorar a sua terra, a ser presença nos convívios dos Zés, dos “artilheiros” e noutras festas populares, como a da romaria da Senhora da Graça, onde a sua concertina já faz parte da paisagem “musical”. Foi lá que o encontrámos e nos desfiou o seu registo de memórias.
“Venho a Nisa sempre que me convidam. Gosto de conviver com os meus amigos, lembrar a minha infância e juventude, os tempos que cá passei.
Era bom que voltassem a fazer umas festas como as Festas do Povo, em 1975 e 1976, nas quais colaborei com muito prazer, com actuações e ajudando a escolher muitos artistas.”
Mário Mendes in "Fonte Nova" - 3/5/2011

domingo, 7 de agosto de 2016

MEMÓRIA: Evocação de Diogo Pires Mimoso

DIOGO PIRES,..HONRA E GLÓRIA PARA NISA,... UM NISENSE BEATIFICADO SANTO E MÁRTIR, santificado seja para sempre o seu nome; da necessidade de celebrar e venerar a sua memória a 17 de Julho de cada ano.... "A oração. é o modo do ser humano franquear as fronteiras da sua humanidade para entrar, de algum modo no domínio do divino”, cfr frei Herculano Alves in "Bíblica", ano 57, Julho/Agosto, nº 335, pg. 26.)
A evangelização do Brasil levou os Jesuítas em 1570 a organizar um grupo de missionação e evangelização.
Compunham um grupo de 40 jesuítas (jovens entre 20 e 30 anos), 32 portugueses e oito espanhóis, destinados à missão, 2 eram sacerdotes, dois diáconos, 23 estudantes e catorze irmãos, sob a liderança do padre Inácio de Azevedo.
A preparação dos missionários, padres, irmãos e estudantes para a missão de evangelização realizou-se na Costa da Caparica (Portugal), na Quinta do Vale do Rosal., hoje Quinta dos Quarenta Mártires (...e porque não aproveitar a estada na Costa da Caparica para uma romagem de homenagem e veneração emocionante à memória deste santo mártir de Nisa ,e ajoelhar perante tanta luz profunda, mesmo sem entender).
Roçando a ilha da Madeira , a 12 de Junho de 1570, para consertar as embarcações, descansar e recolher mantimentos, seguiram na nau Santiago 39 companheiros com Inácio de Azevedo.
Ao cabo de alguns dias de viagem, era o dia 15 de Julho de 1570, faz agora precisamente 441 anos, “davam já a volta para a cidade da Palma, de que distavam duas ou três léguas”.
A pouca distância de Tazacorte ( La Palma) avistaram a vela de uma grande nau e depois mais três, de modo que, inicialmente, chegaram a pensar tratar-se da armada de D. Luís de Vasconcellos, mas tal não se veio a confirmar.
Foram surpreendidos por um navio francês comandado pelo calvinista Jacques Sourie.
Os calvinistas abordaram a nau com enorme alarido, praguejando e ameaçando de morte os missionários.
Como referido tratava-se de Jacques de Sória, corsário calvinista francês, conhecido pelo seu ódio de morte aos católicos e entre estes, muito especialmente, aos jesuítas.
Acompanhavam Sória perto de meio milhar de soldados, todos eles animados pelo mesmo furor contra a igreja e fé católicas.
Seguiu-se grande carnificina e ordens para lançar ao mar os sagrados mártires.
Cumpre pois divulgar a vida e história desses mártires, e nomeadamente do nisense Diogo Pires, convidando-se os jovens das áreas científicas competentes a embrenharem-se na respectiva investigação histórica e correlatas, elegendo em concreto a história do percurso pessoal deste jovem e projectando a imagem do santo mártir.
Beatificados pelo Papa Pio XI, em 11 de Maio de 1854, as actividades desenvolvidas na causa da canonização não deixarão de trazer grande contributo a trabalho rigoroso sobre o nosso santo conterrâneo, sujeito a tão grande martírio.
A festa litúrgica destes mártires é celebrada em 17 de Julho , como acima.
Honra e glória pois para Nisa ao ter no seu universo e seio espiritual ,moral ,social e ,religioso, quem tão generosamente partira para afinal tão grande martírio, mas para lograr chegar ainda jovem...tão alto ...à glória dos altares, patamar que acolhe e confirma a aquisição do glorioso e definitivo título de Filho de Deus.
Santificado seja pois para sempre o seu nome.
Todos foram ali mortos e feridos, à excepção do irmão João Sanches, que os calvinistas aproveitaram para cozinheiro.
Todos foram lançados ao mar, uns já mortos, outros em agonia e outros ainda vivos.


Lista dos mártires:1. Inácio de Azevedo, padre português e líder da missão (n. Porto, Portugal),2. Diogo de Andrade, padre, (n. Pedrógão Grande, Portugal),3. Bento de Castro, irmão, estudante (n. Chacim, Macedo de Cavaleiros, Portugal),4. António Soares, irmão, estudante (n. Trancoso da Beira, Portugal),5. Manuel Álvares, irmão, coadjutor (n. Estremoz, Portugal),6. Francisco Álvares, irmão, coadjutor (n. Covilhã, Portugal),7. Domingos Fernandes , irmão, estudante (n. Borba, Portugal),8. João Fernandes, irmão, estudante (n. Braga, Portugal).9. João Fernandes, irmão, estudante (n. Lisboa, Portugal),10. António Correia, irmão, estudante (n. Porto, Portugal),11. Francisco de Magalhães, irmão, estudante (n. Alcácer do Sal, Portugal),12. Marcos Caldeira, irmão, (n. Vila da Feira, Portugal),13. Amaro Vaz, irmão, coadjutor (n. Benviver, Marco de Canavezes, Portugal),14. Juan de Mayorga, irmão, coadjutor (n. Saint-Jean-Pied-de-Port, Navarra, hoje França),15. Alonso de Baena, irmão, coadjutor (n. Villatobas, Toledo, Espanha),16. Esteban de Zuraire, irmão, coadjutor (n. Amescoa, Biscaia, Espanha),17. Juan de San Martín, irmão, estudante (n. Yuncos, Toledo, Espanha),18. Juan de Zafra, irmão, coadjutor (n. Jerez de Badajoz, Espanha),19. Francisco Pérez Godói, irmão, estudante (n. Torrijos, Toledo, Espanha),20. Gregório Escribano, irmão, coadjutor (n. Viguera, Logroño, Espanha),21. Fernán Sanchez, irmão, estudante (n.Castela a Velha, Espanha),22. Gonçalo Henriques, irmão, estudante (n. Porto, Portugal),23. Álvaro Mendes Borralho, irmão, estudante (N. Elvas, Portugal),24. Pero Nunes, irmão, estudante (n. Fronteira, Portugal),25. Manuel Rodrigues, irmão, estudante (n. Alcochete, Portugal),26. Nicolau Diniz, irmão, estudante (n. Bragança, Portugal),27. Luís Correia, irmão, estudante (n. Évora, Portugal),28. Diogo Pires (Mimoso), irmão, estudante (n. Nisa, Portugal),29. Aleixo Delgado, irmão, estudante (n. Elvas, Portugal),30. Brás Ribeiro, irmão, coadjutor (n. Braga, Portugal),31. Luís Rodrigues, irmão, estudante (n. Évora, Portugal),32. André Gonçalves, irmão, estudante (n. Viana do Alentejo, Portugal),33. Gaspar Álvares, irmão, estudante (n. Porto, Portugal),34. Manuel Fernandes, irmão, estudante (n. Celorico da Beira, Portugal),35. Manuel Pacheco, irmão, estudante (n. Ceuta, Espanha),36. Pedro Fontoura, irmão, coadjutor (n. Chaves, Portugal),37. António Fernandes, irmão, coadjutor (n. Montemor-o-Novo, Portugal),38. Simão da Costa, irmão, coadjutor (n. Porto, Portugal),39. Simão Lopes, irmão, estudante (n. Ourém, Portugal),40. João Adaucto, acompanhante (n. Entre Douro e Minho, Portugal),Não possui Nisa infelizmente qualquer imagem deste santo mártir.
Refere-se-lhe respeitosamente um nosso ilustre e piedoso conterrâneo, e santo pároco ,que o foi da Costa da Caparica , Padre Baltasar Dinis, tido por aquela comunidade como saudoso pároco, em carta escrita em
25 de Julho de 1939 ,um nome também a fixar desse rico universo cultural e espiritual e moral de Nisa.
Não tenho dados para por ex. bordar a ouro o retrato de D. Ana uma vez que pouco privei pessoalmente com a Senhora ( embora a adorasse), mas sei que num encontro de viúvas minha mãe, a minha querida, no seu sentido de justiça que lhe era peculiar, ao cumprimentá-la nesse encontro, lhe terá dito...não sou nada comparando-me com a senhora... a senhora é da Acção Católica, mas da Autêntica,.. da Verdadeira, e a D. Ana ( Machado ) na sua simpática e serena simplicidade ter-lhe-à dito...D. Maria Augusta não é bem assim,..... abraçaram-se e choraram naquela solene reunião).
E ainda há quem pense que não?
Não digas não, diz sim...porque estamos em Nisa (e a Nisa ...”eu iria arrancar estrelas/ delas fazia um colar/ para te por ao pescoço...Se num perfeito segundo/ o sol fosse apenas meu/ eu dava-Te o sol também/ arrefeceria o mundo /mas o sol seria Teu/ Teu e de mais ninguém. “ in Omnipotência, Manuel de Almeida , Fado) e Alto Alentejo, terra sagrada.
João Castanho - 11 de dezembro de 2013

Grupo musical nisense “rompe” com inactividade

Tributo aos UHF querem soltar "os cavalos de corrida"
O grupo musical nisense "Tributo aos UHF" quer voltar aos palcos, após um período de inactividade, devido a falta de espaço para ensaios, um problema que por ora parece resolvido, ainda que a título provisório.
Contrariamente ao que chegou a ser propalado, a banda não acabou e está de volta para prosseguir as actuações, quer no concelho, quer noutras regiões do país para onde seja convidada.
Joaquim Galhardo, baterista dos "Tributo aos UHF", que obteve um feito assinalável, em Maio do ano passado, tocando bateria durante 24 horas, revela-nos que "estamos de volta e com as malas feitas, prontos a recomeçar a nossa actividade musical, que foi interrompida por falta de um espaço adequado para ensaios."
Galhardo garante que "vamos começar o nosso trabalho brevemente, tivemos que improvisar um espaço em casa de um dos elementos da banda, um pouco acanhado, mas vamos ultrapassar esta situação, com muita vontade de mostrar que estamos cá e queremos continuar as nossas actuações, prestigiando a nossa terra e o grupo a que fazemos referência".
Para já, os "Tributo aos UHF" têm em mãos alguns contactos para possíveis actuações, não tendo sido convidados para actuar na Nisartes. A grande aposta, contudo, está na preparação e fortalecimento da banda, com vista ao desempenho no próximo ano.
" As actuações que fizemos e o entusiasmo que gerámos à nossa volta, dão-nos força para acreditar que este projecto tem "pernas para andar" e substância para se desenvolver. É preciso é que as instituições e pessoas do concelho acreditem em nós e nos dêem a oportunidade de mostrarmos o nosso valor".
Notícia publicada em 28/7/2009

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

NISA: A Festa de Santo Isidro em 1959

Em memória de Ilídio Nogueira Leitão
O Santo Isidro era o padroeiro dos lavradores e em Nisa era prestada uma grande festa anual, em Maio, na Senhora da Graça.
Para o cabecinho, em coloridas e enfeitadas carrroças de flores, erva, urze, giestas, seguiam os romeiros e devotos agradecendo as preces pela boas searas, a harmonia do tempo, a perspectiva do celeiro cheio e sem prejuízos.
Há 50 anos, a 24 de Maio de de 1959, foi realizado um Concurso de Quadras, assinalando a Festa de Santo Isidro e tendo como temas a Lavoura, as Actividades Agrícolas, as Alfaias e os Instrumentos de Trabalho. Subtemas que não se esgotavam e que iriam até à imaginação de cada um dos romeiros.
As quadras que aqui deixamos como registo foram da autoria de Ilídio Nogueira Leitão e obtiveram o 1º prémio na categoria A.
Ilídio Nogueira Leitão, nasceu em Nisa, em 1924 e viria a falecer em Paris, no popular Bairro de Saint Dennis, nos anos 90 do século passado.
A poesia popular que nesta espaço lhe dedicamos são também uma forma de recordar, enaltecer, o homem, o amigo e o nizorro, alegre e bem disposto que nunca deixou de ser, mesmo no auge da vida.
I
É dia de procissão,
Santo Isidro o protector.
É dia de grande festa,
A festa do Lavrador.
II
É terra de lavradores,
Criada por D. Dinis.
É decerto a mais fecunda
Porque Deus assim o quis.
III
Santo Isidro meu protector,
Meu santinho padroeiro.
Ajuda a minha seara,
De que sou o seu obreiro.
IV
Nossa Senhora da Graça,
Santo Isidro vai visitar.
Há festa no cabecinho,
Muitas graças lhe vou dar.
V
Já rompeu a madrugada,
Minha terra vou lavrar.
P´ra nascer a loira espiga,
Que no v´rão hei-de ceifar.
VI
Há canções de alegria,
Há a labuta no prado.
É a ceifeira quem canta,
A orquestra, é o arado.
VII
Há no prado verdejante,
Uma poesia d´amor.
O trabalho, a honra, a vida,
A Louvar Nosso Senhor.
VIII
Saúda, respeita e ama
O bondoso lavrador.
É o pão da tua boca
A lenha do teu calor.
IX
Minha mãe é lavradeira,
O meu pai é lavrador.
A minha mãe é ceifeira
E eu sou o lenhador.
X
A ceifar ganhei a vida,
A lavrar me vi crescer.
Enamorei-me da terra
E nela me vi morrer.

Os 25 Anos da Reactivação da Banda de Nisa

Sede própria é fundamental para encarar o futuro
Para comemorar os 25 Anos do Ressurgimento da Banda de Nisa, acontecimento que teve lugar em Outubro de 1982, a Sociedade Musical Nisense, promoveu um conjunto de iniciativas de carácter musical e cultural, evocando 25 anos de actividade e também a criação da própria colectividade, fundada em 1988, na esteira e preservação do património da antiga Sociedade Phylarmonica Nizense, fundada no distante ano de 1844.Assim, no dia 29 de Setembro, decorreu em Nisa, um encontro de bandas, com a participação da banda anfitriã (Sociedade Musical Nisense) e as convidadas Sociedade Filarmónica do Crato e Banda Musical Alterense, uma iniciativa de grande brilhantismo e que trouxe animação e colorido às ruas da vila e ao seu largo principal, a Praça da República, onde teve lugar o concerto final que juntou as três bandas.
Estava dado o mote para as comemorações dos 25 anos do ressurgimento da Banda de Nisa, por ocasião da Feira de S. Miguel, em 1982, no Cine Teatro, com a primeira apresentação pública da “nova” banda que incluiu muitas crianças e jovens, formadas a partir do início desse ano e a que se juntaram músicos mais velhos e experientes, vindos de outras formações da Banda Municipal de Nisa.
O ressurgimento da banda em 1982, após um período, de certo modo longo, de inactividade, culminou um trabalho desencadeado anos antes e que contou com o apoio da Câmara Municipal de Nisa, presidida pelo dr. Carlos Bento Correia e tendo como vereador do pelouro da Cultura, o dr. José Manuel Basso.
A abertura de concurso externo como canalizador dos Serviços Municipalizados, do músico nisense António Maria Charrinho, a residir na Grande Lisboa, possibilitou a criação de uma escola de música, com a regência a cargo deste mestre, primeiro nas instalações da Sociedade Artística Nisense, colectividade a que nos primeiros tempos, a Banda esteve agregada e mais tarde num espaço cedido nas instalações do Cine Teatro de Nisa, que tem funcionado também como a sede provisória da SMN. Pelo meio, a renovada Banda de Nisa ainda utilizou para ensaios e para a guarda de material, o espaço da JAC (Juventude Agrária Católica) na capela de S. Francisco, anexa à Igreja Matriz e uma casa particular, na Urbanização da Fonte Nova.
Os 25 anos do ressurgimento da Banda de Nisa são, também, a história de uma associação que tem andado “com a casa ás costas”, ensaiando e programando actividades em espaços acanhados e sem um mínimo de condições, obstáculos que só com a boa vontade dos seus dirigentes e principalmente dos seus músicos têm sido ultrapassados.
Natural, pois, que os discursos na sessão solene realizada no passado sábado, no Cine Teatro de Nisa, antes da apresentação de um CD gravado pelos actuais grupos da Sociedade Musical Nisense (Banda, Orquestra Ligeira e Filarmonisa) tivessem incidido no desejo de realização do sonho maior que comanda a vida desta associação: a construção de uma sede social, com condições que permitam quer o crescimento da colectividade, quer, sobretudo, uma maior qualidade e afirmação no trabalho que vêm desenvolvendo na promoção da música e da cultura do concelho.
Na mesa da sessão estiveram o Governador Civil, Jaime Estorninho, a presidente da Câmara de Nisa, Gabriela Tsukamoto, o anterior e actual presidente da direcção da SMN, José Hilário e João Maia, respectivamente.
Todos foram unânimes em reconhecer, por um lado, o papel insubstituível das bandas filarmónicas e das colectividades que lhes dão vida, na educação musical de crianças, jovens e adultos e na ocupação dos tempos livres, para além da importância atribuída às bandas como detentoras de um vasto património cultural e na animação das festividades locais, aos mais diversos níveis.
Gabriela Tsukamoto prometeu empenhar-se na concretização do grande objectivo da Sociedade Musical Nisense, a construção da sede social, na Urbanização das Amoreiras e para a qual a associação dispõe de projecto já aprovado.
Com a sala do Cine Teatro de Nisa bem composta, a sessão prosseguiu tendo sido feita uma retrospectiva da vida da SMN nestes últimos 25 anos e presenteados os músicos que encetaram a caminhada em 1982 e que ainda integram os diversos agrupamentos musicais da associação.
Seguiu-se a apresentação pública do CD gravado em Agosto, durante três dias, no Cine Teatro, tendo para o efeito actuado a Banda, a Orquestra Ligeira, e grupo de metais, Filarmonisa.
Mais tarde, na Igreja Matriz foi celebrada uma missa por intenção dos antigos músicos e dirigentes já falecidos.
Um jantar convívio que juntou cerca de 200 pessoas no salão de festas do Sport Nisa e Benfica encerrou a festa evocativa da reactivação da Banda de Nisa há 25 anos, período de actividade bem documentado numa exposição que pode ser vista no átrio do Cine Teatro.
Mário Mendes - in "Jornal de Nisa" -Nº 241- 17/10/2007