sexta-feira, 21 de setembro de 2018

NISA - “Galinhas” e “Cigarrinhas” num salutar Encontro de Famílias - Maio 2017


Não, não se trata de uma fábula. Aconteceu mesmo, no passado sábado em Nisa, ou não fosse esta terra famosa, entre outras coisas, pelas suas originais alcunhas.
As famílias Galinha (descendentes de António de Oliveira Bizarro e Maria do Rosário da Cruz Carrasco) e Cigarrinha (descendentes de Joaquim da Graça Maurício – o popular Ti Coimbra – e Maria da Graça Dinis André) realizaram aquele que fica assinalado como o 1º Encontro-Convívio entre “Galinhas” e “Cigarrinhas”, alcunhas, bem populares, como todos os membros das duas famílias são conhecidos em Nisa e em todo lado. Trata-se de duas das mais numerosas famílias nisenses e não admira que o Encontro-Convívio tenha juntado cerca de oitenta pessoas, mesmo contando com algumas ausências.




Após a missa solene, na Igreja do Espírito Santo, em evocação dos entes queridos, o cortejo familiar rumou até à antiga escola do Convento, onde teve lugar a jornada gastronómica, sendo prestado um minuto de silêncio em memória dos familiares falecidos. Depois, foi a festa. Imaginem só: galinhas e cigarrinhas, “à solta” numa sala ampla, tinha que meter música, descantes e um convívio até às tantas, que deixou já a promessa de um próximo encontro.
Mário Mendes - "Alto Alentejo" - 31/5/2017




quarta-feira, 1 de agosto de 2018

TRADIÇÕES: Alpalhão com as fontes floridas


“A D. Rosa já chegou da estação”
Como é costume desde há alguns anos a esta parte, a vila de Alpalhão “acorda” no dia 3 de Maio com as suas fontes engalanadas, vestidas de mil flores e cores, num hino à vida e à Primavera que capta e desperta a curiosidade, não só dos visitantes, como dos próprios residentes.
São flores do campo e dos pequenos jardins e quintais que as crianças das escolas e os moradores de cada rua próxima das fontes se empenham em colher, juntar e transformar em colares, que depositam, logo pela manhã, junto de cada fonte. Aos colares de flores campestres, este ano colhidas sob chuva intensa, juntam-lhe outras das roseiras do quintal ou do jardim público, pois, os fins, para esta “sinfonia das flores”, justificam, plenamente, os meios.
Mas de onde vem esta tradição? A explicação, ouvimo-la a algumas das mulheres que junto à Fonte Nova mostravam, orgulhosamente, o fruto do seu trabalho: a fonte toda enfeitada, com esmero e alegria, não fosse a “sesta”, no rigor do trabalho do campo, uma preciosa conquista. O ritual da sesta, ou “ir buscar a D. Rosa à estação” está devidamente explicado na redacção, que reproduzimos, de um aluno da Escola de Alpalhão, sobre o dia 3 de Maio:
“Era costume neste dia enfeitarem-se as fontes. E porquê? Era para festejar o primeiro dia de sesta. Os alpalhoenses trabalhavam do nascer ao pôr do sol e comos os dias, nesta altura, já são maiores, havia necessidade de descansarem.
Então enfeitavam as carroças com rosas e flores campestres (malmequeres) e chegavam à vila, também enfeitavam os fontanários.

Como é Dia de Santa Cruz, faziam cruzes enfeitadas também com flores e colocavam-nas nos campos (para terem boas searas) e nas casas para terem sorte. Os alpalhoeiros para não dizerem que “iam dormir a sesta”, usavam a expressão: “Vamos buscar a D. Rosa à estação”.”
Costume bonito, uma belíssima reprodução etnográfica, num tempo em que o trabalho no campo, praticamente acabou e a estação ferroviária, seja a de Vale do Peso, sejam as outras do chamado Ramal de Cáceres, tal como o próprio caminho de ferro, já conheceram melhores dias e algumas vão resistindo à morte lenta anunciada, num estado de letargia e de quase abandono, que todos conhecemos.
A D. Rosa já chegou da estação e todos os anos, no dia de Santa Cruz (de Maio) as fontes de Alpalhão cobrem-se de flores e alegria enquanto um manto de saudade e nostalgia, invade, cada uma das ruas e casas, onde os moradores, sujeitos de um presente, que tem um passado, relembram histórias e vivências antigas.
As flores – não as de verde-pinho – são, afinal, lembranças de um tempo que viveram e do qual querem transmitir a memória aos presentes e vindouros.
Tempo de mocidade, alegria, de trabalho duro e mal pago, mas mesmo assim, recordado em quadras de fino recorte popular que as mulheres da Fonte Nova, foram decorando para o papel.
Bom dia D. Sebastiana, Maria José, Coleta, Francisca,Teodolinda, Maria Luísa, Maria José, Liberata, e também, Ana da Conceição! Gostei de vos encontrar, um ano depois, partilhar convosco a beleza e encanto, a magia, que puseram nessa tarefa tão simples e tão complexa que é transmitir, na poesia das flores, uma vida nova, à velha fonte que dá nome à rua da Fonte Nova.
 A Fonte Nova, as fontes de Alpalhão estão lindas! Mantenham-nas, sempre, assim e, enquanto viverem, não se esqueçam de “ir buscar a D. Rosa à estação!”.
Mário Mendes in “Jornal de Nisa” nº 231 - Maio 2007

sexta-feira, 27 de julho de 2018

NISA: No 75º Aniversário do Sport Nisa e Benfica

UM CLUBE EM FESTA
O Sport Nisa e Benfica está a comemorar 75 anos de existência. O programa das comemorações teve início no dia 26 de Setembro com a realização de um passeio a cavalo e prosseguiu neste fim-de-semana (1 e 2 de Outubro) com um conjunto de iniciativas destinadas a evocar a vida da mais popular colectividade desportiva do concelho de Nisa. As rivalidades com o Sporting
A história do Sport Nisa e Benfica remonta ao longínquo ano de 1935, quando um grupo de jovens, no auge das rivalidades locais com a filial nisense do Sporting, tomou a iniciativa de “romper” com as estruturas existentes e de criar uma nova colectividade.
A fundação do clube, com o nome inicial de Sport Lisboa e Nisa, data de 1 de Outubro de 1935, dando corpo ao sonho dos nisenses Isaac Araújo Baptista, José da Piedade Pires, Esteves da Anunciada Cebola e António Maria Carolo.
Em 13 de Janeiro de 1936, é eleita a primeira direcção, dela fazendo parte: o médico António Granja, José da Piedade Pires, Vicente Fernandes Nogueira, Eduardo Dinis Filipe, Esteves da Anunciada Cebola, José da Graça Sena, José Carita Serralha, João da Cruz Charrinho, Virgílio Pinheiro, João da Cruz Charrinho e António Semedo da Piedade.
A primeira sede instalou-se numa casa alugada na Rua da Fonte; anos mais tarde e também por arrendamento, transferiu-se para instalações muito mais amplas, na Estrada de Alpalhão (rua 25 de Abril), onde tinham lugar, em datas certas, grandes bailes populares, iniciativas destinadas a obter de receitas para o clube e principal razão de angariação de sócios.
Em 1946 e por força da determinação do Sport Lisboa e Benfica, o clube passou a designar-se com o nome que tem hoje, Sport Nisa e Benfica, tornando-se na 39ª filial do clube lisboeta.
Os jogos da bola e os bailes no “Galocha”
No início eram os jogos de futebol com o rival Sporting, sem qualquer espírito de competição oficial. Os bailes populares, já referidos, constituíam as mais importantes manifestações colectivas num tempo em que na vila (e no país) as colectividades espelhavam a divisão inter-classista existente e por isso os bailes no Benfica eram conhecidos como os bailes do “Galocha”, para vincar o seu carácter profundamente popular e rural (dos trabalhadores do campo) em compita com outras agremiações como a Sociedade Artística (dos "artistas" e que incluía todos os artesãos, a excepção dos trabalhadores rurais) ou o Clube Nisense, “poiso” de uma burguesia local e regional, que não admitia “misturas”.
Com este quadro, fácil é perceber que o Nisa e Benfica fosse a associação com maior número de sócios e também de actividades, e profundamente enraizada entre a população.
O atletismo praticou-se durante alguns anos, bem como o ciclismo, uma modalidade muito popular durante os anos cinquenta e sessenta do século passado.
É no início da década de 60 que o Sport Nisa e Benfica participa pela primeira vez em provas oficiais de futebol. Aos “distritais” de seniores, seguiram-se os juniores, os principiantes, e todas as demais categorias do futebol jovem, não só a nível distrital, mas também nacional, em seniores (3.ª Divisão) e juniores (campeonato nacional) numa caminhada que não mais parou e que todos os anos se renova, tanto a nível de novos atletas, como nas provas e objectivos com que se participa. Entre estes e num concelho que sofre os problemas da interioridade e da desertificação, assume relevo a ocupação salutar das crianças e dos jovens, a educação no espírito e respeito pelo “fair play”, valores alternativos aos mundos subterrâneos da droga e do vício e que, geralmente, constituem becos sem saída.
A par do futebol, o Sport Nisa Benfica manteve em actividade, secções de Cicloturismo, andebol e futsal, funcionando como secções autónomas e sem encargos para o clube. No futsal, conquistou o primeiro campeonato distrital organizado pela AFP tendo sido, aliás, um dos precursores desta modalidade, hoje tão popular no distrito. Outro tanto se passa com a equipa de futebol de veteranos (Velhas Guardas) que percorrem país, com total autonomia e auto financiando-se.
Além destas actividades e num espírito recreativo, o Sport Nisa e Benfica organiza regularmente torneios de pesca desportiva ou de futebol de salão e outros visando quer a obtenção de fundos, quer, acima de tudo, a dinamização desportiva e o convívio entre associados. Valorização do património
O Sport Nisa e Benfica dispõe de sede própria na Rua 25 de Abril, e de Campo de Jogos, com o nome de D. Maria Gabriela Vieira, a benemérita nisenses que doou ao clube, sem qualquer contrapartida, uma extensa propriedade, na qual está implantado o campo de futebol (105x65 m) balneários e anexos de ampla dimensão.
A reconstrução do imóvel na Rua 25 de Abril propriedade do clube e onde este se instalou há mais de 50 anos é hoje uma realidade, passando a dispor de melhores condições para os sócios e para a população que utiliza o salão para a realização de diversas festas de convívio ou familiares. A valorização do património é objectivo que não tem sido esquecido pelos diversos elencos directivos que têm gerido o clube.
Em 5 de Outubro de 1998 foi inaugurada pelo então Secretário de Estado do Desporto, Miranda Calha, a primeira fase da bancada (lateral).
No Verão de 2000 foi dado início à construção da bancada central no Campo de Jogos, incluindo a mesma uma cabine para a comunicação social. Estes melhoramentos que transformaram de modo significativo o conjunto de estruturas e equipamentos do Nisa e Benfica que, entretanto, passou a ser a 9ª filial do SLB, foram conseguidos por força de uma enorme dedicação e determinação.
Falta, porém, num clube com um brilhante historial de 75 anos de existência e que tantos atletas deu ao futebol distrital e nacional, aquela que seria a prenda maior: a implantação de um campo relvado ou sintético, a exemplo do que existe em todos os concelhos dos distrito.
Nisa, por ser um dos pioneiros e mais destacados, a nível do futebol, bem merece esta infra-estrutura.
Um rico historial
1975/76 – Campeão Distrital de Futebol (seniores)
1976/77 – Participação no Campeonato Nacional da 3ª Divisão
1977/78 – Campeão Distrital de Futebol (seniores)
1978/79 – Participação no Campeonato Nacional da 3ª Divisão
1979/80 – Campeão Distrital de Futebol (seniores)
1980/81 – Participação no Campeonato Nacional da 3ª Divisão
1981/82 – Campeão Distrital de Futebol (seniores)
1982/85 – Participação no Campeonato Nacional da 3ª Divisão
1986/87 - Campeão Distrital de Futebol (seniores)
1987/88 – Participação no Campeonato Nacional da 3ª Divisão
1998/99 - Campeão Distrital de Futebol (seniores) – 2ª Divisão
1998/99 – Vencedor da Taça AFP (seniores)
1999/00 - Campeão Distrital de Futsal (seniores)
2000/01 – Participação no Campeonato Nacional de Futsal (3ª Divisão)
2002/03 – Campeão Distrital Infantis
2003/04 – Vencedor da Taça AFP (Infantis)
2003/04/05/06 – Vencedor da Taça AFP Iniciados
2004/2005 – Vencedor da Taça AFP Juvenis
2008 – Ricardo Mateus em representação do Sport Nisa e Benfica é campeão nacional de corta-mato (juniores).
Comemoração dos 75 Anos do Sport Nisa e Benfica - PROGRAMA
Sexta-Feira, dia 1 – Cine Teatro de Nisa
18h – Missa em Memória de todos os sócios falecidos
22h – Espectáculo com a banda da Soceidade Musical Nisense
23h – Actuação de fadistas do concelho de Nisa
Sábado – Dia 2 Out. – Cine Teatro de Nisa
* 10 h Inauguração da Exposição dos 75 anos do Sport Nisa e Benfica
* 11h – Sessão solene com entrega de lembranças
* 13 h – Almoço convívio (garagens da CM Nisa) com a presença de 2 glórias do Sport Lisboa e Benfica
* 18,30h – Porco no espeto na sede do SNB para todos os sócios.
Actuação do grupo de música popular “Domingos & Dias Santos”
Mário Mendes in "Fonte Nova" - 2 Out. 2010

sexta-feira, 16 de junho de 2017

VIDAS: Caetano Tomás São Pedro

Uma das (últimas) figuras populares de Nisa
É um homem de expressão fácil e olhar atento, nos seus 86 anos de uma vida cheia de mil episódios e peripécias. No relato que nos fez, de algumas dessas "passagens da vida", há sempre um motivo hilariante, alegre, divertido, a rematar e a concluir de forma prazenteira, o capítulo da conversa.
Caros leitores, fiquem com Caetano Tomás S. Pedro, uma das figuras populares de Nisa e vejam, por ele  mesmo que, face às desgraças que por aí vão, rir (ainda) é o melhor remédio...
Este homem, se tem sido aproveitado, dava um actor de primeira água. Os tiques, as expressões, os gestos, repentinos, ou as respostas desconcertantes, fizeram dele uma das figuras típicas e populares mais conhecidas de Nisa.
De origem modesta, não menos modesta e humilde tem sido a sua vida de mais de oitenta anos. Simples, sim, mas sem perder o sentido da alegria e do divertimento.
Caetano Tomás S. Pedro foi aprendiz de sapateiro, padeiro, pintor, caiador, homem de mil ofícios, malabarista das palavras, humorista nas horas vagas e sempre que a oportunidade se lhe deparou. Apesar da idade avançada, mantém um sorriso permanente, aberto e malandro,de orelha a orelha, a que junta um olhar vivo, penetrante, que o coloca em alerta e pronto para a resposta ou para um trejeito humorístico capaz de fazer rir as pedras da calçada.
A princípio, receoso e desconfiado, começou por declinar a conversa. Mas, espicaçado nos seus brios, para alguns dos episódios por si vividos  e intencionalmente, desvirtuados, logo ripostou deitando fora as hesitações iniciais, numa conversa de mais de duas horas, em que sintetizou o "filme " da sua vida.
A “Praça” lugar de nascimento
"Nasci na Praça, numa casa onde está hoje a Fonte do Frade. Andei à escola até à quarta classe, na escola do Rossio, mas não cheguei a fazer o exame. O professor era o senhor José Dinis Paralta e no dia do exame, não me agradou aquilo e vim-me embora. Saltei pela janela e, oh! patas!..."
Esta é uma das muitas peripécias que Caetano Tomás recorda. Já sem o ouvido e o olhar arguto de outrora, refugia-se na falta de audição para fugir a alguma pergunta mais incómoda para, logo que a oportunidade aparece, se apressar a dizer que "só não ouve o que não lhe agrada". De idade avançada, a memória já lhe vai pregando algumas partidas. Ainda assim lembra-se de ter andado como aprendiz de sapateiro na oficina do ti Lourenço Pação, na rua Direita, a dois passos da casa onde nasceu. Por pouco tempo. O estar sentado, o dia inteiro, entre solas e sapatos não ligava muito com o seu feitio, mais virado para o ar livre e por isso, a etapa seguinte levou-o até à fábrica do pão, na Devesa.
"Trabalhei na fábrica do senhor Ribeirinho uns quatro anos. Ia com uma carroça vender o pão a Alpalhão, Pé da Serra, Arez, Velada, Amieira. Numa carroça com um macho branco, lembro-me bem. Andei a vender pão cá em Nisa com um carrinho, mais o pai do senhor Corrente, o Papo-seco sem pão. Levámos o pão à senhora Isabel da Fábrica e à senhora Etelvina do José Januário. O carrinho levava 90 ou 100 pães, de quilo, que era obrigatório. Custava um bocado a esta fraca figura, empurrar o carro pelas ruas cheias de buracos. De modo que eu guardava sempre dois papo-secos do dia anterior e partia-os aos bocados e dava-os à gaitagem que em troca ajudava a empurrar o carro.  Nunca faltavam ajudas."
Depois da experiência como ajudante de padeiro, Caetano S. Pedro decidiu dar novo rumo à sua vida e criar o seu próprio emprego.
"Com a experiência que tinha adquirido, não é verdade, estabeleci-me por conta própria e criei a minha própria firma de pinturas e caiações."
Considera-se pioneiro neste género de trabalho em Nisa e no concelho. Nesta arte trabalhou com o ti Manuel Bólinhas e o ti Manel do Benfica, para além do próprio filho.
Tudo isto, numa época em que um novo trabalho artístico fazia a sua aparição: a publicidade nas paredes. Os cartazes, anunciando produtos alimentares, de limpeza para o lar, automóveis e outros, despertaram a curiosidade da "firma familiar" de Caetano S. Pedro e de um momento para o outro converteu-se em "agente publicitário". Tudo feito a rigor, como tem o cuidado de reforçar.
"Os cartazes vinham do Porto e de Lisboa, especialmente dirigidos ao Caetano Tomás S. Pedro, ou seja, a minha pessoa. Não se pense que se ganhava alguma coisa de jeito. Não senhor. Os cartazes vinham em rolos de 20 ou 30, tínhamos que colá-los segundo o desenho que os rolos traziam e em sítios certos, pois não podiam ser colados em qualquer sítio. Era uma tarefa  que fazíamos quase sempre à noite, depois do trabalho e o que se ganhava dava para beber uns copos. Só recebíamos depois de mandarmos uma carta a dizer quantos tínhamos colado e em que locais."
Não havia televisão e era a publicidade, afixada, na parede, a maior forma de divulgação de produtos de grande consumo e foi esse trabalho, assim como as pinturas e caiações que fizeram de Caetano S. Pedro uma das pessoas mais conhecidas e carismáticas de todo o concelho de Nisa.
Os fiscais das farinhas
Numa época difícil, deitou mão às tarefas e ocupações que lhe podiam garantir algum dinheiro para o sustento dos três filhos.
"Cheguei a ir ao Pé da Serra com um pneu às costas, para ganhar 25 tostões. Era um tempo custoso, mas cá o Caetano desenrascava-se sempre. Um dia ia trabalhar para as pinturas em Arez e quando cheguei à Porta da Vila estava lá o senhor Joaquim Polícia e diz para mim: "mostra-me lá a licença da bicicleta!". Como não a mostrei, não a tinha, disse-me que "não abalas daqui sem tirares a licença". Ficou-me com a bicicleta e tive que ir à Câmara tirar a licença que custava 10$50, mais do que eu ganhava por dia. Só depois é que me deixou abalar para Arez, onde cheguei quase às 11 horas".
Nota-se-lhe que não tem boas recordações da autoridade, pelo menos de alguns elementos que serviram nesse tempo.
"Uma vez vinha da taberna do ti Raposinho, vinha a cantar - eu sempre gostei muito de cantar - apareceu a Guarda e levou-me para o posto. Passei lá a noite. Dantes a  Guarda castigava muito o pessoal de trabalho. Eram mandados..."
Uma das peripécias mais conhecidas e protagonizada pelo nosso entrevistado passou-se no Pé da Serra, quando este e um amigo resolveram fazer-se passar por fiscais dos vinhos. A rir, o senhor Caetano não resiste a contar o episódio.
"Eu e o José Quintino ( o Pelota) fomos ao Pé da Serra "armados" em fiscais de vinhos. Vestidos com camisa de meia manga, azul, calça de cotim, também azul, feitas pelo Manuel Caxamela, ninguém era capaz de dizer que não éramos fiscais. O Pelota levava uma pasta que era do senhor Aníbal Vieira para fazer melhor o papel de fiscal. Chegámos à taberna do Reizinho (primo da minha mulher) e ele não estava. Apresentámo-nos como fiscais, comemos e bebemos, um pão de trigo e um queijo mole, estava tudo a correr pelo melhor e nisto chega o dono do estabelecimento. Bem, é melhor não contar mais... Tivemos que bater a "butes", corridos à pedrada, do Pé da Serra para Nisa. Não sei em quanto tempo fizemos o caminho..."
Muitos outros episódios, hilariantes, tem para contar. Um há, especial, em que a "vítima" foi a própria mãe e que considera tratar-se, apenas, de uma brincadeira.
Caetano S. Pedro era, nessa altura, um jovem e a quem algum dinheirito fazia sempre jeito, para o tabaquito. Um dia, como a mãe não se dispusesse a dar-lhe algum dinheiro - se calhar, não tinha - mostrou-lhe um papel, que ele mesmo assinara, dizendo-lhe que era  uma multa, por ter deitado água para a rua. A mãe, coitada, não teve outro remédio senão arranjar-lhe o dinheiro que antes lhe tinha negado.
Quebrado o gelo inicial, a conversa toma o caminho das festas populares, dos bailes, dos divertimentos e do tempo da juventude. Caetano S. Pedro eleva-se na cadeira, faz apelo à memória e dita para o papel, entusiasmado, quadras populares que eram cantadas e bailadas ao som do harmónio ou das castanholas. Aqui registamos algumas:
Eu um dia para te ver
Dava voltinhas à rua
Hoje já dou dinheiro
Para não ver tal figura

Ó laranja e tangerina
Eu de ti desejava um gomo
Tua mãe está julgando
Qu´eu com a boca te como.

Não te encostes à parreira
Que a parreira deita pó
Encosta-te à minha cama
Estou sozinho, durmo só.

Chamastes ao meu bigode
O poleiro dos passarinhos
Eu chamei às tuas faces
O cofre dos meus beijinhos.

Vai de carta, vai de carta
Meu raminho d´oliveira
Desculpa ir mal escrita
De amores é a primeira.

Ó minha Santa Maria
Ó minha Maria Santa
Tua casa tens no monte
Onde o passarinho canta.

O passarinho quando canta
A sua linda canção
Traz rouxinóis na garganta
E guitarradas no coração.

Ó triste da minha vida
Ó triste do meu viver
Para que quero eu a vida
Eu não sirvo para morrer.
Mário Mendes in “Jornal de Nisa” nº 253 - 2008 

quinta-feira, 8 de junho de 2017

GENTE DE ALPALHÃO: Henrique Fortunato

"A minha vida dava um filme"
Jogou à bola, lembra os jogos entre Nisa e Alpalhão e as antigas rivalidades entre as duas vilas do concelho. Os bons ou maus momentos futebolísticos do "seu" Sporting dá-lhe pano para mangas para as conversas com os clientes, entre o vai e vem do pente e da tesoura. No corte da barba, é melhor esse tipo de conversas ficar de fora, "não vá o diabo tecê-las". É a gente a falar. Barbeiro há 56 anos, conversador nato e com uma risada a terminar cada frase, é assim Henrique Martins Fortunato, um homem pacífico e uma das figuras populares de Alpalhão. Com um sorriso de orelha a orelha, contou-nos um pouco da sua vida e profissão.
"Não tenho muito para contar, ou, então, se fosse a contar todas as peripécias da minha vida, dava para fazer um grande filme. Sou barbeiro há 56 anos e estou aqui nesta casa desde 1955, há 50 anos. A taberna abriu um pouco mais tarde, há 43 anos, tem sido esta a minha vida, vai dando para me governar".
Dado o mote para a conversa, Henrique Fortunato conta-nos como foi o começo da sua actividade como barbeiro.
"Aprendi a arte de barbeiro com o ti Fernando Bate-Certo e tinha que bater certo, não é verdade? Comecei a aprender com 13 anos e assim andei até ir tirar sortes, sem ganhar um tostão. Depois de acabada a tropa é que abri o estabelecimento aqui na rua do Castelo."
Clientela é coisa que parece não faltar a este barbeiro alpalhoense, que nos diz ter muitos clientes que "vêm de Nisa, Tolosa, Gáfete, Alagoa, Castelo de Vide, Póvoa e Meadas e até de Portalegre, sem contar com as pessoas de Alpalhão".
São clientes de muitos anos, "a maioria com mais de 40 anos de idade, mas também aparecem alguns jovens, porque há poucos barbeiros".
Henrique Fortunato diz gostar da sua profissão e daquilo que faz. Já foi presidente da Junta de Freguesia, mas durante pouco tempo.
"É um cargo que só dá chatices e eu não tinha feitio para me indispôr com ninguém. Assim resolvi pedir a demissão e dedicar-me àquilo que tenho feito sempre. Sempre gostei disto e de aprender, quando vou a algum lado reparo sempre como fazem as coisas. Numa ocasião, em Lisboa, vi uma senhora a cortar cabelo e que bem que ela cortava. Desde que se aprenda e queira fazer as coisas com perfeição, é uma profissão como outra qualquer. Só não percebo porque é que há cada vez menos gente a querer ser barbeiro".
Para além da barbearia e do atendimento na taberna, Henrique Fortunato tem outras "ocupações", uma delas, a da caça, que já não pratica com a intensidade de outros tempos.
"Fui caçador durante muitos anos. Agora, as pernas já não puxam muito. Sou o sócio mais velho da reserva de Alpalhão. Sempre gostei de actividade física, para além do futebol, gostava muito de jogar chinquilho".
Sportinguista dos quatro costados, o futebol é tema recorrente de muitas conversas, seja a nível nacional ou no plano local.
"Foi uma pena acabarem com o futebol em Alpalhão. As pessoas daqui gostam muito de desporto. Noutros tempos não "havia pai" para o ciclismo e tínhamos aí bons corredores. Aos domingos o povo gostava de ir ver a bola, divertíamo-nos um bocadinho e o Alpalhão chegou a estar na 3ª divisão. Agora parece que há aí uma malta que vai pôr o futebol outra vez em funcionamento".
Henrique não é só adepto do futebol. Foi jogador e não esquece os jogos intensos, vibrantes, nas décadas de 50 e 60. Com um sorriso rasgado, põe a memória a viajar e lembra a rivalidade com os vizinhos de Nisa.
"Eram grandes jogos, com muita gente a assistir. Jogava-se por amor à camisola, não havia prémios de jogo nem nada disso. Ainda joguei contra o Fatan. Uma vez estávamos a ganhar 2 - 0 e fomos perder 2 - 8. Joguei também contra o Vilela e lembro-me bem, o Vilela não me ganhava uma bola".
Recordações de quem deixou para trás mais de cinquenta anos entre barbas e cabelos, pentes e tesouras, sucessos e desilusões do "seu" Sporting e que agora só pensa em manter a saúde, sem dúvida a maior riqueza para um Henrique que, para além de barbeiro, tem uma Fortuna(to). Apenas no nome e na alegria que espalha, tá bom de ver.
Mário Mendes in “Jornal de Nisa” – Março de 2008