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sexta-feira, 9 de setembro de 2022

VIDAS: “ Construção do Lar da Terceira Idade foi a obra que mais orgulho me deu” - Joaquim Maria da Costa – Provedor da Misericórdia de Montalvão

Tem 80 anos e mantém ainda uma energia que surpreende e contagia. Recorda a sua vida, realça o contacto com o país e a cidade de Portalegre, sua terra adoptiva, os amigos que fez, desde a escola e no calcorrear das suas andanças profissionais, na labuta diária pela modernização das redes de telecomunicações.
De permeio, foi sindicalista e político, como quem acredita que, não podendo transformar o mundo, pode melhorá-lo com a sua acção. Acabou por regressar às origens, a Montalvão, fez-se Provedor da Misericórdia um pouco a contragosto e quinze anos passados, olha para trás com um sorriso aberto e satisfeito pela obra realizada.
Caros leitores, apresento-vos Joaquim Maria da Costa, um montalvanense, na primeira pessoa.
Nasci em Montalvão no início de 1931. Andei na Escola Primária e fiz exame da 4ª classe na Escola do Rossio em Nisa. Depois fui estudar para Portalegre onde frequentei durante 5 anos o Curso Industrial de Mecânica e Desenho de Máquinas. Saia-se de lá com grandes conhecimentos técnicos e de projectos e muitos tiveram as bases para a vida de trabalho. Foi um erro muito grande acabar com as Escolas Industriais e Comerciais. Nós no 4º ano já tínhamos procura do mercado de trabalho. Fiquei a trabalhar em Portalegre numa oficina de mecânica até ir para a tropa para o Curso de Milicianos. Ainda na tropa concorri às Telecomunicações dos CTT e fui aceite. Frequentei um curso de seis meses e entrei para o sector das Telecomunicações. Mas surgiu um problema, pois fui mobilizado para ir para a Índia em 1952. No vai e vem entre Portalegre e Abrantes, o tempo foi decorrendo e acabaram por mobilizar outra Companhia.
Nos CTT fui colocado primeiro em Évora, onde estive 2 anos. Pedi a transferência para Portalegre e mandaram-me estagiar para Torres Vedras. Andei requisitado pelos Serviços Técnicos durante 12 anos e pouco vinha a Portalegre. Fiz trabalhos desde o Algarve ao Minho e na Madeira e praticamente só vinha passar umas curtas férias.
Estive 37 anos no sector das Telecomunicações dos CTT. Foi a minha equipa que automatizou o grupo de redes de Portalegre e lembro-me que a primeira estação a ser automatizada foi a de Castelo de Vide. Com algumas poucas excepções, fiz a automatização da maior parte das estações de telecomunicações do distrito.
O meu trabalho foi reconhecido e fui convidado pelo Director da Área de Telecomunicações de Évora, que abarcava todo o Alto Alentejo, para ser o SD Técnico (Chefe do Sector Automático). Estive 17 anos nesse cargo e do qual me reformei.”
Regresso às origens e o apelo da Misericórdia
O tempo da reforma, tantas vezes sonhada e aguardada. Para uns, o concretizar de alguns sonhos, o tempo para ter tempo, para a família, os amigos e o lazer.
Não para todos. Há apelos, fortes, da terra e das instituições, apelos que se aceitam ou recusam. Joaquim Costa aceitou o convite e de um momento para outro entrou na “reforma activa”.
Morei sempre em Portalegre, mesmo quando andava por fora e quando me reformei aos 61 anos, o meu irmão tinha falecido e com os meus pais estavam já com uma certa idade, entendi que devia olhar por eles e regressei a Montalvão.
A ideia inicial era tratar da horta, ir à pesca, fingir que caçava, ou seja, passar tranquilamente os anos de reforma. Mas o “tiro” saiu-me pela culatra.
Estava há pouco tempo em Montalvão quando o senhor Mourato, Provedor da Misericórdia veio ter comigo e pedir-me para eu o substituir. Disse-lhe que estava disponível para ajudar mas não para esse lugar, pois sabia que era um cargo muito trabalhoso. Fiquei como tesoureiro da Comissão da Senhora dos Remédios e durante cinco meses fui presidente da Assembleia-Geral.
Durante o mandato e por diversas vezes propus a compra de uma propriedade com casa, na Corredoura, já que tinha a garantia de entidades de comparticipação. Nessa altura já se fazia sentir a necessidade de novas instalações para o Centro de Dia, mas nunca aceitaram a proposta, o que me desiludiu um pouco.
Em Novembro de 1998 participei na reunião da Assembleia Geral, sem vontade de aceitar qualquer cargo, mas houve uma votação esmagadora que me fez pensar e acabei por aceitar ser Provedor.
Quando entrei para Provedor, a SC Misericórdia de Montalvão funcionava com 20 utentes e 4 funcionárias, sendo uma administrativa, 1 cozinheira e 2 auxiliares.
As condições não eram as melhores, pois o espaço era reduzido. Havia 50 pessoas em Montalvão e 20 na Salavessa em lista de espera, porque não havia condições para as admitir.
A primeira decisão que tomei foi conhecer a situação financeira e a regularização da contabilidade. Incomodava-me o facto de o Centro de Dia abrir às segundas e fechar às sextas-feiras. Durante o fim-de-semana os utentes ficavam entregues a si próprios. Era preciso inverter a situação e com a compreensão dos funcionários o Centro de Dia entrou em regime permanente, no dia 25 de Abril de 1999, o que obrigou a recrutar mais 5 trabalhadoras. Os utentes passaram a ter mais duas refeições quentes e a serem acompanhados mais duas vezes pelos funcionários.
A lista de espera não deixava de me preocupar, mas o pessoal dizia-me que não havia capacidade de resposta. Fui à Segurança Social falei com o Director fiz-lhe sentir a realidade de Montalvão e da sua parte houve sensibilidade para fazermos um protocolo que abrangeu 35 pessoas em centro de Dia e 60 em Apoio Domiciliário. Isso originou uma pequena “revolução”. Foi preciso adquirir novos equipamentos, utensílios de cozinha, remodelação de instalações, e aumentar o número de funcionários que passou de 9 para 17. Com esta “operação” ainda conseguimos manter mais 3 utentes fora do protocolo.
Fomos a primeira instituição a ter serviços médicos, porque o médico estava muito tempo sem ir a Montalvão e criámos um espaço para o Gabinete Médico, fazendo um protocolo com a ARS para que o mesmo fosse oficializado para os nossos utentes.”
Sonho e luta: a construção do Lar
Situada junto à fronteira, a freguesia de Montalvão sofreu como poucas o êxodo da população activa para o estrangeiro e para a Grande Lisboa. Os que ficaram, agarrados à ocupação do trabalho rural, envelheceram e necessitam de cuidados especiais. Os filhos e os familiares mais chegados estão longe, a solidão tomou conta das horas e dos dias.
O Centro de Dia preenchia um espaço, mas não chegava para todos. Joaquim Costa, também ele, idoso, pôs-se na “pele” dos seus conterrâneos e não parou de pensar e... agir.
“O primeiro passo estava dado, antes de mim. Havia um terreno adquirido pela Câmara presidida pelo Dr. José Manuel Basso e para o qual só faltava a escritura de doação. Foi assinada por mim e pelo presidente da Câmara e de imediato começámos a tratar do projecto do Lar. Quando as coisas pareciam encaminhadas para que o mesmo fosse apresentado como candidatura, verifiquei que, afinal, contemplava um Centro de Dia.
Deixámos passar o prazo para integrar o PIDDAC desse ano, mas no ano seguinte e com o projecto devidamente elaborado, “chateei” muitas pessoas que eu conhecia, bati a muitas portas e o certo é que entre 56 candidaturas, apenas duas foram aprovadas e uma delas era a do Lar de Montalvão.
Tinha a garantia da aprovação do projecto e em 29 de Agosto de 1999 a obra arrancou em força. Mesmo com alguns acidentes de percurso, que me escuso de referir, a obra nunca parou. Assim que tivemos oportunidade, antes da obra concluída, transferimos o Centro de Dia para as novas instalações. A construção do Lar e logradouros porque houve dificuldades, a partir de certa altura, na cedência de pedreiros da Câmara, optou-se por um empreiteiro (Armando Barrento), o que foi uma decisão acertada, tendo a obra sido concluída.”
Um sonho de muitos anos fora concretizado. Joaquim Costa podia, enfim, dormir descansado, mas o seu espírito activo “falou” mais alto.
“Inicialmente, estavam previstas 22 camas no piso de cima e pus-me a pensar porque não se aproveitava a parte de baixo. Falámos com a Câmara que aceitou a ideia e fez o projecto e conseguimos instalar mais 16 camas e dispensas. E ainda ponho a hipótese de arranjar mais camas, pois as necessidades são muitas.”
As condições modelares e de funcionamento do Lar da Santa Casa da Misericórdia de Montalvão tem recebido elogios de muitas entidades. Louros que Joaquim Costa diz serem fruto do trabalho de equipa.
“É certo que todos os dias vou ao lar e acompanho a par e passo o funcionamento da Instituição, mas temos que dar valor aos funcionários e à encarregada que é uma pessoa competente e zelosa. Por outro lado, temos uma boa situação e estabilidade financeira. Não damos o passo maior que a perna e com a responsabilidade de todos temos conseguido realizar todas as metas a que nos propusemos.”
No aspecto patrimonial tem um grande significado a obra levada a cabo, sob os auspícios do Provedor, a restauração e remodelação da Igreja da Misericórdia de Montalvão.
“A igreja serve como Casa Mortuária e eu sentia-me incomodado cada vez que ia a um funeral. Achava indecente o aspecto do edifício religioso. Metemos mãos à obra, falei com um restaurador que conhecia de Portalegre, o senhor Joaquim Martins, ele entendeu o que pretendíamos e fez uma trabalho de restauro de altares e arte sacra, a todos os títulos notável. Para além disso, o edifício foi todo reparado. Substituímos os bancos, colocámos um piso novo, rebocaram-se as paredes, recuperaram-se os sobrados, instalaram-se sanitários, enfim, a igreja ficou com a dignidade que merecia e hoje pode ser visitada por quem o desejar.”
Joaquim Costa fala da Misericórdia e do Lar como da “menina dos seus olhos”.
Na extensa vida de 80 anos, este homem, fumador inveterado e de longas barbas como imagem de marca, pisou os palcos do sindicalismo, sendo um dos fundadores do Sindicato das Telecomunicações (SINTEL), e da política. Foi vereador durante dois mandatos na Câmara de Portalegre, eleito na Assembleia Municipal em Portalegre e Nisa, membro das Comissões Concelhias do Partido Socialista em Portalegre e Nisa.
Na sua terra, Montalvão, recusou, sempre, ser candidato e hoje é notório, que a freguesia e o concelho só ficaram a ganhar com essa decisão.
“ Não se pode ser duas coisas ao mesmo tempo. Dediquei-me à Santa Casa da Misericórdia. Foram 15 anos de esforço e muita luta para conseguir que a obra nascesse e se consolidasse. Ser Provedor exige muita dedicação e trabalho. Sempre gostei de resolver os problemas e nunca tive nada que me metesse medo, embora a idade já seja um pouco avançada, nunca digo que é o último mandato, pois todos somos substituíveis. Eu gostava e desejo que apareça alguém que possa tomar conta deste empreendimento, com a mesma força e determinação que eu tenho tido.”
* Mário Mendes – Fonte Nova -14/6/2011

terça-feira, 9 de agosto de 2022

José Manuel Barreto: um desportista de eleição

Na sua carreira de vinte anos a jogar futebol, só por uma vez viu ser-lhe mostrada a “cartolina” vermelha, num jogo, em Portalegre, com o Desportivo, sendo expulso do campo. Este é o único episódio da sua vida desportiva que recorda com alguma sensação de incomodidade. De resto, o passado futebolístico de José Manuel Barreto, é um registo de memórias que se confundem com a própria história dos tempos áureos do Sport Nisa e Benfica. Deixemos que seja o próprio a contá-la.
Como tudo começou
Nasci em Nisa em 1958 e cresci como tantos outros miúdos. Naquele tempo não havia “escolinhas” como há hoje e as ruas eram os nossos campos de jogos. Lembro-me de jogar à bola no pátio do Nisa e Benfica (quintal), atrás do Celeiro, na Devesa, onde calhava. Disputávamos jogos bem renhidos com a malta da Fonte da Pipa e da Vila, alguns bem durinhos e que, por vezes, havia sempre umas pedradas.
E as “arrelias” não acabavam aqui, pois quando chegávamos a casa ainda ouvíamos ralhar os nossos pais: “ Ah! Malandro, que dás cabo dos sapatos!”
Quando tinha 15 anos, uma direcção do Nisa e Benfica apercebeu-se que havia muitos jovens com qualidade e resolveu inscrever uma equipa no “Distrital”.
Foi assim que comecei a jogar em provas oficiais e nos juvenis.
Ainda me lembro bem do primeiro jogo. Éramos uns “putos”, pouco desenvolvidos e no balneário olhávamos para os do Campomaiorense, nessa altura um clube já com nome e dissemos uns para os outros: “vamos levar três ou quatro, eles são só matulões!”.
Em campo, o que se passou foi o contrário e ganhámos por 7 – 0, com 4 golos do João Temudo e 3 que eu marquei. Como é que foi isso? O nosso jogo era um pouco “à inglesa”, pontapé para a frente, eu e o João corríamos muito e era praticamente uma questão de sprint e marcar.
Conseguimos o 2º lugar no campeonato, um êxito logo na estreia e fomos disputar a Taça Nacional de Juvenis. Depois, a equipa “desfez-se”, alguns colegas foram jogar para outros clubes da região, principalmente o Alter que apostava nos juniores.”
Um jovem entre os adultos
Eu não quis sair, fui ficando por aqui e com 17 anos estava a integrar a equipa de seniores que acabara de conquistar o título distrital e subira à 3ª divisão nacional (1975).
A primeira vez que joguei foi para a Taça de Portugal, em Portalegre, com o Sport Lisboa e Cartaxo. O prof. Moura saiu, faltavam aí uns 10 minutos para o jogo acabar, quando eu entrei e logo a seguir há um remate à baliza do Cartaxo, o guarda-redes defende, a bola foi ao poste e eu vinha em corrida, a acompanhar a jogada e marquei.
Ganhámos por 1-0 e foi uma loucura, pois tinha ido muita gente de Nisa.
Na eliminatória seguinte fomos jogar a Barcelos com o Gil Vicente, da 1ª Divisão. Eu também fui, como prémio por ter marcado o golo, mas não cheguei a equipar-me. Perdemos, como era natural, dada a diferença das equipas.
No ano seguinte, descemos ao distrital, mas houve alguns jogadores que regressaram como o Parreira, Vitorino, etc. e voltámos a subir à 3ª divisão e a passar à 2ª eliminatória da Taça, desta vez com uma deslocação ao Algarve. Fomos jogar com o Portimonense que tinha jogadores como o Damas, o Norton de Matos, Freitas, todos eles jogadores internacionais, para além de outros. Fomos eliminados e a nível de Taça de Portugal, que disputámos várias vezes, o Nisa e Benfica nunca teve sorte de jogar com um clube da 1ª divisão, já nem falo dos grandes, em “casa”.
Estivemos três épocas consecutivas na 3ª divisão, tínhamos uma equipa muito boa e constituída à base de jogadores de Nisa.”
Tudo isto embora não houvesse condições e infra-estruturas. Lembro que no primeiro ano da terceira divisão não havia luz no campo e para treinarmos à noite, quando todos tinham disponibilidade, era coma luz dos faróis dos carros dos dirigentes. Não havia água canalizada, tinha que ser fornecida em bidões, faltava um mínimo de condições, mas havia uma vontade de ferro, amor à camisola e não ganhávamos nada.
Também é verdade que não havia discotecas, bares, internetes, outros desportos e isso facilitava a que a malta se juntasse para jogar futebol.”
Mudanças no futebol distrital
As coisas mudaram com o reforço das equipas e o pagamento a jogadores, a nível distrital. Começou a ser mais difícil constituir equipas e subir de divisão.
Eu mantive-me em Nisa porque tive também a companhia do meu irmão (Toninho Barreto). Ele era defesa e eu avançado. Todo este percurso de dez anos (dos 16 aos 26) foi acompanhado por ele.
Depois de 10 anos consecutivos em Nisa, joguei uma época no Eléctrico (Ponte de Sor), mas era um pouco duro, já que trabalhava no Gavião e treinávamos quase todos os dias, pois o Eléctrico estava na 3ª divisão e tinha já alguns profissionais, o que elevava o grau de exigência. Em Ponte de Sor tive a sorte de defrontar um dos “grandes” do futebol português. Recebemos o Sporting para a Taça de Portugal, com o campo cheio e um espectáculo memorável. Perdemos por 1-2 e eu entrei na 2ª parte.
Depois do Eléctrico passei a representar os Gavionenses (trabalhava no Gavião) durante quatro épocas, uma na 3ª divisão e três no distrital. Tinha 31 anos, queria vir para Nisa e acabar aqui a carreira desportiva, mas os dirigentes do Castelo de Vide há muito que andavam atrás de mim e acabei por representar a AD de Castelo de Vide, uma época na 3ª divisão. Foi a altura, devo dizê-lo, em que ganhei algum dinheiro de jeito no futebol.
Aos 32 anos regressei ao Nisa e Benfica que representei durante mais três épocas, no distrital, acumulando numa das épocas a função de treinador juntamente com o António Veludo. Aos 36 anos, achei que estava na altura de dar o lugar a outros e pôr ponto final numa carreira desportiva de vinte anos, a nível competitivo.”
Recordações do jogo da bola
Em tantos anos a jogar futebol há muitos momentos de que guardamos recordações. A do jogo com o Cartaxo para a Taça, talvez por ser o da estreia, ou os jogos emocionantes que tivemos em Nisa com o Bombarralense (vitória por 4-3 tendo marcado dois golos), o Rio Maior, que era o guia isolado e perdeu em Nisa pela primeira vez (3-2) ou ainda um célebre jogo com o Benfica de Castelo Branco que precisava de vencer para subir à 2ª divisão. O Campo do Sobreiro teve uma enchente nunca vista e o jogo foi empolgante. Eles tinham uma grande equipa, com jogadores muito experientes como eram o Camolas, o Malta da Silva e outros emprestados pelo SL e Benfica. Mas nós também tínhamos uma equipa muito aguerrida e unida, e “estragámos-lhes” a festa, não deixando que levassem a vitória (1-1).
O futebol e a formação do indivíduo
O desporto, o futebol, deu-me muita coisa, principalmente muitas amizades. Na minha vida profissional, retenho muitos dos princípios básicos do futebol, o espírito de equipa, o trabalho de grupo.
Dos primeiros anos de jogador ficou uma amizade muito forte e que ainda hoje se mantém com os elementos da equipa de veteranos.
Em muitas terras e locais aonde vou, aparecem pessoas que me falam, cumprimentam e eu não sei quem são. Mas eles lembram-se de mim, talvez por me terem visto jogar.”
Marcas” que o desporto deixa
Uma carreira desportiva de 20 anos tinha que deixar algumas marcas. Tive como todos algumas lesões e as mais graves obrigaram mesmo a intervenções cirúrgicas. Fiz duas operações, devido a uma fractura do braço e a uma fractura no joelho.
As pessoas que me viram jogar, podem falar melhor do que eu, mas acho que fui sempre um jogador disciplinado e só uma vez é que fui expulso.
Num jogo com o Desportivo, levei uma cotovelada no maxilar, que me doeu bastante e reagi instantaneamente ao pontapear o jogador que me tinha agredido. Fui expulso, senti-me revoltado, por ter sido agredido e por ter respondido daquela maneira, mas acho que não é nenhum exemplo de que me possa orgulhar.”
Conselhos para as novas gerações
Que conselhos daria aos mais jovens? Aqueles que tenho dado ao meu filho, incutindo-lhe o prazer de jogar futebol, os valores do espírito de grupo, da camaradagem e de uma vida saudável, sem esquecer o dever da disciplina e o respeito pelos outros, sejam companheiros ou adversários. Para aqueles que sonham em ter uma carreira futebolística, aconselho-os a terem humildade, a trabalhar e que encarem o futebol como uma possível profissão, mas sem nunca desprezarem o aspecto do convívio e da amizade. O futebol é um desporto muito importante, mas não devemos fazer dele um objectivo de “vida e ou de morte”. Pratiquem desporto, joguem com prazer, futebol ou outras modalidades, hoje, felizmente, há muitas mais ofertas do que aquelas que eu tive enquanto jovem.”
O desporto em Nisa, ontem e hoje
Acho que mudou muita coisa e nem sempre para melhor. Nos anos 70, todas as casas comerciais, consoante as suas possibilidades, ajudavam o clube. Não havia condições nem infra-estruturas, como referi, mas havia uma grande vontade, malta muito unida, uma mística no Nisa e Benfica que fazia com que fossemos respeitados em todo o distrito. Jogava-se por amor à camisola, pelo prazer de jogar e hoje há a expectativa de tirar algum rendimento. O campeonato distrital é reflexo desse mesmo paradoxo: há clubes que têm dinheiro e clubes que fazem das tripas coração para conseguirem chegar ao fim. Há um grande desequilíbrio e assim o futebol não progride.
Sinto que o projecto do futebol juvenil terminou de forma abrupta, sem se acautelarem algumas situações, como a dos jovens que estavam nesses escalões e a quem foram cortadas alguma expectativas.
A nível de infra-estruturas, Nisa continua sem um campo com piso sintético, capaz de cativar os mais jovens. Terras mais pequenas e sem o historial desportivo de Nisa têm esse problema resolvido.”
Se pudesse voltar atrás...
Todos nós temos um tempo para viver. Eu vivi o meu, enquanto desportista. Não me arrependo em nada por aquilo que fiz pelo Nisa e Benfica e pelo contributo que dei ao futebol e ao desporto. Poderia ter havido outro reconhecimento, mas sinto-me feliz e orgulhoso por tudo o que dei ao futebol e a Nisa e também por aquilo que o futebol me deu.”
Pelo amor à camisola
José Manuel Tremoço Barreto, bancário, 50 anos, casado, dois filhos, vinte anos de jogador de futebol. O resto da sua história de vida, fiel aos princípios por que se bateu ao longo de uma carreira desportiva, que atingiu grande brilhantismo, pouco mais teria que contar. Nasceu em Nisa e para o clube da sua terra contribuiu, não apenas com os golos que marcou, muitos golos, com os pés ou a cabeça, mas como um exemplo, notável, de humildade, disciplina, dedicação ao futebol.
Predicados que fizeram dele e o dos clubes que representou (o Nisa e Benfica em primeiríssimo plano) referências no desporto regional e nacional, numa época em que ser desportista significava, em primeiro lugar, ter amor à camisola, prazer de jogar e competir, arrojo e desafio perante as adversidades.
José Manuel Barreto e tantos outros, são os lídimos representantes dessa escola de desportistas que projectou e fez respeitar o nome de Nisa.
Se mais não fosse, só por isso mereceria, incontestavelmente, o reconhecimento que, aqui e agora, lhe prestamos.
* Mário Mendes in "Jornal de Nisa" nº 255 - 14 Maio de 2008

sexta-feira, 16 de junho de 2017

VIDAS: Caetano Tomás São Pedro

Uma das (últimas) figuras populares de Nisa
É um homem de expressão fácil e olhar atento, nos seus 86 anos de uma vida cheia de mil episódios e peripécias. No relato que nos fez, de algumas dessas "passagens da vida", há sempre um motivo hilariante, alegre, divertido, a rematar e a concluir de forma prazenteira, o capítulo da conversa.
Caros leitores, fiquem com Caetano Tomás S. Pedro, uma das figuras populares de Nisa e vejam, por ele  mesmo que, face às desgraças que por aí vão, rir (ainda) é o melhor remédio...
Este homem, se tem sido aproveitado, dava um actor de primeira água. Os tiques, as expressões, os gestos, repentinos, ou as respostas desconcertantes, fizeram dele uma das figuras típicas e populares mais conhecidas de Nisa.
De origem modesta, não menos modesta e humilde tem sido a sua vida de mais de oitenta anos. Simples, sim, mas sem perder o sentido da alegria e do divertimento.
Caetano Tomás S. Pedro foi aprendiz de sapateiro, padeiro, pintor, caiador, homem de mil ofícios, malabarista das palavras, humorista nas horas vagas e sempre que a oportunidade se lhe deparou. Apesar da idade avançada, mantém um sorriso permanente, aberto e malandro,de orelha a orelha, a que junta um olhar vivo, penetrante, que o coloca em alerta e pronto para a resposta ou para um trejeito humorístico capaz de fazer rir as pedras da calçada.
A princípio, receoso e desconfiado, começou por declinar a conversa. Mas, espicaçado nos seus brios, para alguns dos episódios por si vividos  e intencionalmente, desvirtuados, logo ripostou deitando fora as hesitações iniciais, numa conversa de mais de duas horas, em que sintetizou o "filme " da sua vida.
A “Praça” lugar de nascimento
"Nasci na Praça, numa casa onde está hoje a Fonte do Frade. Andei à escola até à quarta classe, na escola do Rossio, mas não cheguei a fazer o exame. O professor era o senhor José Dinis Paralta e no dia do exame, não me agradou aquilo e vim-me embora. Saltei pela janela e, oh! patas!..."
Esta é uma das muitas peripécias que Caetano Tomás recorda. Já sem o ouvido e o olhar arguto de outrora, refugia-se na falta de audição para fugir a alguma pergunta mais incómoda para, logo que a oportunidade aparece, se apressar a dizer que "só não ouve o que não lhe agrada". De idade avançada, a memória já lhe vai pregando algumas partidas. Ainda assim lembra-se de ter andado como aprendiz de sapateiro na oficina do ti Lourenço Pação, na rua Direita, a dois passos da casa onde nasceu. Por pouco tempo. O estar sentado, o dia inteiro, entre solas e sapatos não ligava muito com o seu feitio, mais virado para o ar livre e por isso, a etapa seguinte levou-o até à fábrica do pão, na Devesa.
"Trabalhei na fábrica do senhor Ribeirinho uns quatro anos. Ia com uma carroça vender o pão a Alpalhão, Pé da Serra, Arez, Velada, Amieira. Numa carroça com um macho branco, lembro-me bem. Andei a vender pão cá em Nisa com um carrinho, mais o pai do senhor Corrente, o Papo-seco sem pão. Levámos o pão à senhora Isabel da Fábrica e à senhora Etelvina do José Januário. O carrinho levava 90 ou 100 pães, de quilo, que era obrigatório. Custava um bocado a esta fraca figura, empurrar o carro pelas ruas cheias de buracos. De modo que eu guardava sempre dois papo-secos do dia anterior e partia-os aos bocados e dava-os à gaitagem que em troca ajudava a empurrar o carro.  Nunca faltavam ajudas."
Depois da experiência como ajudante de padeiro, Caetano S. Pedro decidiu dar novo rumo à sua vida e criar o seu próprio emprego.
"Com a experiência que tinha adquirido, não é verdade, estabeleci-me por conta própria e criei a minha própria firma de pinturas e caiações."
Considera-se pioneiro neste género de trabalho em Nisa e no concelho. Nesta arte trabalhou com o ti Manuel Bólinhas e o ti Manel do Benfica, para além do próprio filho.
Tudo isto, numa época em que um novo trabalho artístico fazia a sua aparição: a publicidade nas paredes. Os cartazes, anunciando produtos alimentares, de limpeza para o lar, automóveis e outros, despertaram a curiosidade da "firma familiar" de Caetano S. Pedro e de um momento para o outro converteu-se em "agente publicitário". Tudo feito a rigor, como tem o cuidado de reforçar.
"Os cartazes vinham do Porto e de Lisboa, especialmente dirigidos ao Caetano Tomás S. Pedro, ou seja, a minha pessoa. Não se pense que se ganhava alguma coisa de jeito. Não senhor. Os cartazes vinham em rolos de 20 ou 30, tínhamos que colá-los segundo o desenho que os rolos traziam e em sítios certos, pois não podiam ser colados em qualquer sítio. Era uma tarefa  que fazíamos quase sempre à noite, depois do trabalho e o que se ganhava dava para beber uns copos. Só recebíamos depois de mandarmos uma carta a dizer quantos tínhamos colado e em que locais."
Não havia televisão e era a publicidade, afixada, na parede, a maior forma de divulgação de produtos de grande consumo e foi esse trabalho, assim como as pinturas e caiações que fizeram de Caetano S. Pedro uma das pessoas mais conhecidas e carismáticas de todo o concelho de Nisa.
Os fiscais das farinhas
Numa época difícil, deitou mão às tarefas e ocupações que lhe podiam garantir algum dinheiro para o sustento dos três filhos.
"Cheguei a ir ao Pé da Serra com um pneu às costas, para ganhar 25 tostões. Era um tempo custoso, mas cá o Caetano desenrascava-se sempre. Um dia ia trabalhar para as pinturas em Arez e quando cheguei à Porta da Vila estava lá o senhor Joaquim Polícia e diz para mim: "mostra-me lá a licença da bicicleta!". Como não a mostrei, não a tinha, disse-me que "não abalas daqui sem tirares a licença". Ficou-me com a bicicleta e tive que ir à Câmara tirar a licença que custava 10$50, mais do que eu ganhava por dia. Só depois é que me deixou abalar para Arez, onde cheguei quase às 11 horas".
Nota-se-lhe que não tem boas recordações da autoridade, pelo menos de alguns elementos que serviram nesse tempo.
"Uma vez vinha da taberna do ti Raposinho, vinha a cantar - eu sempre gostei muito de cantar - apareceu a Guarda e levou-me para o posto. Passei lá a noite. Dantes a  Guarda castigava muito o pessoal de trabalho. Eram mandados..."
Uma das peripécias mais conhecidas e protagonizada pelo nosso entrevistado passou-se no Pé da Serra, quando este e um amigo resolveram fazer-se passar por fiscais dos vinhos. A rir, o senhor Caetano não resiste a contar o episódio.
"Eu e o José Quintino ( o Pelota) fomos ao Pé da Serra "armados" em fiscais de vinhos. Vestidos com camisa de meia manga, azul, calça de cotim, também azul, feitas pelo Manuel Caxamela, ninguém era capaz de dizer que não éramos fiscais. O Pelota levava uma pasta que era do senhor Aníbal Vieira para fazer melhor o papel de fiscal. Chegámos à taberna do Reizinho (primo da minha mulher) e ele não estava. Apresentámo-nos como fiscais, comemos e bebemos, um pão de trigo e um queijo mole, estava tudo a correr pelo melhor e nisto chega o dono do estabelecimento. Bem, é melhor não contar mais... Tivemos que bater a "butes", corridos à pedrada, do Pé da Serra para Nisa. Não sei em quanto tempo fizemos o caminho..."
Muitos outros episódios, hilariantes, tem para contar. Um há, especial, em que a "vítima" foi a própria mãe e que considera tratar-se, apenas, de uma brincadeira.
Caetano S. Pedro era, nessa altura, um jovem e a quem algum dinheirito fazia sempre jeito, para o tabaquito. Um dia, como a mãe não se dispusesse a dar-lhe algum dinheiro - se calhar, não tinha - mostrou-lhe um papel, que ele mesmo assinara, dizendo-lhe que era  uma multa, por ter deitado água para a rua. A mãe, coitada, não teve outro remédio senão arranjar-lhe o dinheiro que antes lhe tinha negado.
Quebrado o gelo inicial, a conversa toma o caminho das festas populares, dos bailes, dos divertimentos e do tempo da juventude. Caetano S. Pedro eleva-se na cadeira, faz apelo à memória e dita para o papel, entusiasmado, quadras populares que eram cantadas e bailadas ao som do harmónio ou das castanholas. Aqui registamos algumas:
Eu um dia para te ver
Dava voltinhas à rua
Hoje já dou dinheiro
Para não ver tal figura

Ó laranja e tangerina
Eu de ti desejava um gomo
Tua mãe está julgando
Qu´eu com a boca te como.

Não te encostes à parreira
Que a parreira deita pó
Encosta-te à minha cama
Estou sozinho, durmo só.

Chamastes ao meu bigode
O poleiro dos passarinhos
Eu chamei às tuas faces
O cofre dos meus beijinhos.

Vai de carta, vai de carta
Meu raminho d´oliveira
Desculpa ir mal escrita
De amores é a primeira.

Ó minha Santa Maria
Ó minha Maria Santa
Tua casa tens no monte
Onde o passarinho canta.

O passarinho quando canta
A sua linda canção
Traz rouxinóis na garganta
E guitarradas no coração.

Ó triste da minha vida
Ó triste do meu viver
Para que quero eu a vida
Eu não sirvo para morrer.
Mário Mendes in “Jornal de Nisa” nº 253 - 2008 

quinta-feira, 8 de junho de 2017

GENTE DE ALPALHÃO: Henrique Fortunato

"A minha vida dava um filme"
Jogou à bola, lembra os jogos entre Nisa e Alpalhão e as antigas rivalidades entre as duas vilas do concelho. Os bons ou maus momentos futebolísticos do "seu" Sporting dá-lhe pano para mangas para as conversas com os clientes, entre o vai e vem do pente e da tesoura. No corte da barba, é melhor esse tipo de conversas ficar de fora, "não vá o diabo tecê-las". É a gente a falar. Barbeiro há 56 anos, conversador nato e com uma risada a terminar cada frase, é assim Henrique Martins Fortunato, um homem pacífico e uma das figuras populares de Alpalhão. Com um sorriso de orelha a orelha, contou-nos um pouco da sua vida e profissão.
"Não tenho muito para contar, ou, então, se fosse a contar todas as peripécias da minha vida, dava para fazer um grande filme. Sou barbeiro há 56 anos e estou aqui nesta casa desde 1955, há 50 anos. A taberna abriu um pouco mais tarde, há 43 anos, tem sido esta a minha vida, vai dando para me governar".
Dado o mote para a conversa, Henrique Fortunato conta-nos como foi o começo da sua actividade como barbeiro.
"Aprendi a arte de barbeiro com o ti Fernando Bate-Certo e tinha que bater certo, não é verdade? Comecei a aprender com 13 anos e assim andei até ir tirar sortes, sem ganhar um tostão. Depois de acabada a tropa é que abri o estabelecimento aqui na rua do Castelo."
Clientela é coisa que parece não faltar a este barbeiro alpalhoense, que nos diz ter muitos clientes que "vêm de Nisa, Tolosa, Gáfete, Alagoa, Castelo de Vide, Póvoa e Meadas e até de Portalegre, sem contar com as pessoas de Alpalhão".
São clientes de muitos anos, "a maioria com mais de 40 anos de idade, mas também aparecem alguns jovens, porque há poucos barbeiros".
Henrique Fortunato diz gostar da sua profissão e daquilo que faz. Já foi presidente da Junta de Freguesia, mas durante pouco tempo.
"É um cargo que só dá chatices e eu não tinha feitio para me indispôr com ninguém. Assim resolvi pedir a demissão e dedicar-me àquilo que tenho feito sempre. Sempre gostei disto e de aprender, quando vou a algum lado reparo sempre como fazem as coisas. Numa ocasião, em Lisboa, vi uma senhora a cortar cabelo e que bem que ela cortava. Desde que se aprenda e queira fazer as coisas com perfeição, é uma profissão como outra qualquer. Só não percebo porque é que há cada vez menos gente a querer ser barbeiro".
Para além da barbearia e do atendimento na taberna, Henrique Fortunato tem outras "ocupações", uma delas, a da caça, que já não pratica com a intensidade de outros tempos.
"Fui caçador durante muitos anos. Agora, as pernas já não puxam muito. Sou o sócio mais velho da reserva de Alpalhão. Sempre gostei de actividade física, para além do futebol, gostava muito de jogar chinquilho".
Sportinguista dos quatro costados, o futebol é tema recorrente de muitas conversas, seja a nível nacional ou no plano local.
"Foi uma pena acabarem com o futebol em Alpalhão. As pessoas daqui gostam muito de desporto. Noutros tempos não "havia pai" para o ciclismo e tínhamos aí bons corredores. Aos domingos o povo gostava de ir ver a bola, divertíamo-nos um bocadinho e o Alpalhão chegou a estar na 3ª divisão. Agora parece que há aí uma malta que vai pôr o futebol outra vez em funcionamento".
Henrique não é só adepto do futebol. Foi jogador e não esquece os jogos intensos, vibrantes, nas décadas de 50 e 60. Com um sorriso rasgado, põe a memória a viajar e lembra a rivalidade com os vizinhos de Nisa.
"Eram grandes jogos, com muita gente a assistir. Jogava-se por amor à camisola, não havia prémios de jogo nem nada disso. Ainda joguei contra o Fatan. Uma vez estávamos a ganhar 2 - 0 e fomos perder 2 - 8. Joguei também contra o Vilela e lembro-me bem, o Vilela não me ganhava uma bola".
Recordações de quem deixou para trás mais de cinquenta anos entre barbas e cabelos, pentes e tesouras, sucessos e desilusões do "seu" Sporting e que agora só pensa em manter a saúde, sem dúvida a maior riqueza para um Henrique que, para além de barbeiro, tem uma Fortuna(to). Apenas no nome e na alegria que espalha, tá bom de ver.
Mário Mendes in “Jornal de Nisa” – Março de 2008

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Amável Silva, um montalvanense ilustre

Em 20 de Janeiro de 1909 nascia em Montalvão este ilustre Homem de Letras que, se fosse vivo, completaria agora 100 anos de idade. Trata-se da figura que todos os anos pelo 5 de Outubro é homenageada na Escola Garcia d’ Orta de Castelo de Vide, através da atribuição de prémios, com o seu nome, destinados aos alunos que mais se distinguiram neste estabelecimento de ensino.
Apesar de ter nascido naquela localidade do Concelho de Nisa, Amável Silva veio morar para Castelo de Vide com apenas um mês de vida, daí que se considerasse um genuíno castelovidense. Era filho do casal de professores Primários, de seus nomes Severiana e António Silva, ambos de Castelo de Vide. Aliás ambos exerceram na vila e muita gente ainda se recorda destas duas figuras que ensinaram tantos e tantos castelovidenses e não só.
Depois de ter estudado em Portalegre, Amável Silva foi para Lisboa onde, na Faculdade de Letras, se licenciou em Germânicas. Ainda na capital portuguesa foi professor de Liceu e posteriormente no Instituto Comercial. Sabemos também que esteve em Inglaterra a especializar-se na sua profissão.
As férias passava-as em Castelo de Vide na casa de família situada na Rua 5 de Outubro (ou dos Escudeiros). Aliás Amável Silva era uma pessoa muito ligada a esta vila, onde tinha muitos amigos, entre eles elementos da família Laranjo e Canário.
Esta notável figura faleceu, depois de prolongada doença, em Castelo de Vide a 5 de Outubro de 1976. Contava pois apenas 66 anos de idade.
O Prémio Escolar Dr. Amável Soares da Silva foi instituído pela viúva, num gesto de sentida homenagem, aquando da morte do professor. Este Prémio tem os seus estatutos publicados em Diário da Republica e é em valor pecuniário, sendo que parte da verba tem de ser investida na aquisição de livros.
Como curiosidade refira-se que Amável Silva foi um destacado professor que sempre se norteou pela competência e também exigência, sendo ainda hoje recordado pela sua pose muito gentleman, no bom sentido do termo. Ao que nos informaram, em Lisboa chegou mesmo a ser Professor do actual Presidente da Republica Portuguesa, quando este frequentou Instituto Comercial de Lisboa.
Aqui fica pois registada, em jeito de Homenagem, um percurso da vida deste notável castelovidense que nasceu há 100 anos. Agradecemos a amabilidade das pessoas que nos forneceram informações sobre o Dr. Amável Silva, sendo certo que este se resume apenas a um singelo e despreocupado artigo que pensámos ser de todo o interesse registar aqui e agora.
Entretanto conseguimos apurar que o espólio literário e documental do Dr. Amável Soares da Silva vai reverter a favor do Município de Castelo de Vide e da sua Biblioteca Laranjo Coelho.
Notícias de Castelo de Vide (blog)

quarta-feira, 13 de julho de 2016

VIDAS: José de Jesus Pires Louro

 Um nisense na presidência da mais importante freguesia de Arronches
José de Jesus Pires Louro, 59 anos, mecânico, é o novo presidente da Junta de Freguesia de Assunção, a mais importante, pelo número de eleitores, do concelho de Arronches.
José de Jesus Pires Louro, o "Mestre Zé", há muitos anos radicado naquela vila onde tem uma pequena oficina de mecânica de automóveis, junto à ponte de Santa Maria, é um cidadão muito considerado naquele concelho, um dos que nas eleições autárquicas de 11 de Outubro, teve mudanças ao nível dos órgãos autárquicos, perdendo o PS em favor do PSD, a hegemonia que detinha deste há 33 anos na Câmara e Assembleia Municipal.
As Juntas de Freguesia e Assembleias de Freguesia do concelho de Arronches tomaram posse no dia 29 ao início da noite, com a cerimónia de posse na Junta de Freguesia de Assunção, a ter lugar pelas 18 horas, sendo a mesma presidida por José de Jesus Pires Louro (PSD), acompanhado por Maria João Silva Fernandes e Nuno José Andrade Amaral, (PSD).
Ao amigo José de Jesus, um abraço e votos de um bom desempenho nestas novas funções, com a mesma humildade, simpatia e dedicação com que, diariamente, recebe e ajuda os clientes da sua oficina.
Fotos retiradas de  http://arronchesemnoticias.blogspot.com 1/11/2009

segunda-feira, 27 de junho de 2016

VIDAS: António Eustáquio, 80 anos, um exemplo

Discurso na Homenagem realizada em em 12/11/2005" *
"Hoje é um dia, particularmente, feliz, por estarmos aqui reunidos e podermos, de viva voz e publicamente, enaltecer as virtudes morais, sociais e humanitárias de um filho desta terra: o senhor António Joaquim Eustáquio. António Eustáquio, nasceu ali na Rua da Carreira, numa casa, pequenina, de que hoje resta, apenas o local. Uma casa pequenina, como tantas que conheci na "Vila" (em Nisa) e que albergavam famílias com dez, doze, catorze e mais pessoas. Eram casas pequeninas, com dois ou três compartimentos acanhados e onde, tantas vezes, ainda cabia o macho, o burrito, a cabrinha e o porco.Eram casas pequeninas, cheias de gente (o concelho, desculpem-me, chegou a ter nessas décadas de 40, 50 e 60, do século passado, quase 20 mil habitantes), cheias de miséria, mas transbordantes de amor, de carinho e afectos. A história da sardinha, dividida por não sei quantos, não é, não foi - infelizmente - uma fábula, mas sim uma realidade nua e crua, sentida por muitas famílias. Relembro o passado, para que possam perceber que, nascido no seio de uma família de dez irmãos, a António Joaquim Eustáquio não restava outra alternativa senão fazer-se à vida, bem cedo, na idade de todos os sonhos e brincadeiras. O seu tempo de menino foi passado a trabalhar no campo, nos "barros" do Cano e do Ervedal, até ir para a vida militar. E, pela vida militar se deixou ficar até à ao posto de sargento-ajudante e a passagem à situação de reforma, com as idas e vindas do Ultramar, nos tempos de brasa da guerra colonial, de permeio.Aqui começa, verdadeiramente, a "segunda vida" de António Eustáquio. Não esqueceu a casa na Rua da Carreira, a família numerosa, as dificuldades que enfrentou e no remanso do lar, encaminhados os filhos, engendrou uma forma de ser útil à sociedade e ao mesmo tempo de combater o ócio que, não raras vezes, é o caminho mais curto e directo para o vício.
Há uns bons anos, chamei-lhe, numa entrevista, "alpalhoeiro de sangue na guelra". O título, a meu ver, sugestivo, pretendia associar a sua origem, que nunca renegou e de que conserva os traços identitários inconfundíveis, como o sotaque e a vontade, granítica, de remover montanhas, com o espírito de iniciativa, pouco comum num jovem com mais de setenta anos. O sangue, ou, mais propriamente, a falta dele, fez despertar em António Eustáquio, um dador de muitos anos, o desejo, irreprimível, de constituir uma Associação, a nível distrital, que dinamizasse, de forma organizada, não só as recolhas benévolas de sangue, mas, sobretudo, pudesse agir num trabalho de sensibilização para cativar novos dadores e fazer ruir alguns dos mitos e tabús que ainda imperavam sobre as dádivas de sangue.Nascia, assim, em 1990, e por acção directa, decidida e voluntária de António Joaquim Eustáquio, a Associação de Dadores Benévolos de Sangue do Distrito de Portalegre.Ao longo destes 15 anos, a Associação tem desenvolvido um trabalho notável; percorreu um caminho não isento de escolhos e afirmou-se, ao serviço da comunidade, principalmente, pela força, vontade e determinação deste homem.Fazendo recolhas, regularmente, em 12 dos 15 concelhos que integram o distrito (as excepções são Campo Maior, Elvas e Gavião) a Associação de Dadores de Sangue do Distrito de Portalegre, recolheu neste espaço de tempo e sem contar com as dádivas feitas, directamente, nos serviços próprios do Hospital Distrital, cerca de dez mil dádivas benévolas de sangue, contribuindo para a satisfação das necessidades do Hospital Dr. José Maria Grande e dando um contributo relevante para suprir carências a nível de outras unidades de saúde da região e do país.A estas acções de recolha de sangue, programadas e descentralizadas por todos os concelhos ao longo do ano, e realizadas por uma equipa especializada, acresce o trabalho que vem sendo, ultimamente, desenvolvido na sensibilização para as dádivas de medula óssea, com a constituição de um banco de dados de possíveis dadores.Toda esta acção, pioneira, humanitária e humanista, de que beneficia toda a comunidade, não teria sido possível sem a dedicação, sem a vontade inabalável, e sem o empenhamento cívico deste cidadão da nossa terra.Apesar de não possuir uma grande preparação técnica na área da saúde, o programa que António Eustáquio mantém, desde há anos, às quartas-feiras na Rádio Portalegre - que julgamos, a este nível, pioneiro - não deixa de constituir uma original forma de comunicação, não só com o universo dos dadores de sangue, mas com o comum dos cidadãos, pela espontaneidade, pelos exemplos, pela força apelativa das mensagens. Muitos dadores, estou certo, foram "ganhos" desta forma. Outro aspecto saliente do programa é a "desmontagem", a clarificação, o esclarecimento de dúvidas, que Eustáquio faz de um modo muito directo, com exemplos práticos e sem artifícios de linguagem, supostamente técnica ou intelectual.(Abro aqui um parêntesis para convidar/sugerir às entidades responsáveis na Saúde para seguirem, também, idêntico caminho.).Para além de fundador e presidente da Associação de Dadores Benévolos de Sangue do Distrito de Portalegre, António Joaquim Eustáquio pôs de pé e dirigiu, até à passada segunda- feira, a delegação distrital da Liga dos Combatentes.Também aqui o seu trabalho foi bem visível, empenhado e fez ressurgir, com benefícios para todos os ex-combatentes, uma associação quase moribunda.O levantamento feito dos talhões dos ex-combatentes nos cemitérios do distrito; o arranjo, embelezamento e dignificação destes espaços, em colaboração com as Câmaras Municipais, como aquele que foi feito em Nisa; a organização das comemorações do Dia dos Combatentes e a representação e defesa dos interesses dos ex-militares perante as instituições governamentais, têm sido possíveis graças à organização e combatividade do Núcleo.Mas é, sobretudo, através do trabalho desenvolvido à frente e com a Associação de Dadores, que queremos assinalar o mérito exemplar deste cidadão do concelho, do distrito, da região e do país, porque os benefícios resultantes das dádivas de sangue, não conhecem fronteiras nem extractos sociais: são de todos, de quem, voluntariamente, dá e de quem, no infortúnio da doença, recebe.O labor altamente meritório da Associação de Dadores, tendo à frente e principal dinamizador, António Joaquim Eustáquio, permitiu suprir carências do preciso líquido e contribuir como poderoso lenitivo para atenuar a dor física e psicológica de muitos doentes e das suas famílias.A homenagem que aqui lhe prestamos, mais não é do que o reconhecimento público e devido, a um cidadão que recusou o conforto da situação de reforma e se empenhou, de forma voluntária, decidida e abnegada na criação e desenvolvimento de uma associação, dirigida para proporcionar ao seu semelhante um pouco mais de esperança e, quantas vezes, um novo sentido para a vida.Em vez de se limitar aos bancos do jardim, a "matar o tempo morto" que antecede a morte, Eustáquio preferiu transformar a experiência de vida acumulada, numa causa social ao serviço do seu semelhante, mostrando-nos que ainda há exemplos, despojados, que ajudam a acreditar que é possível um mundo melhor. António Eustáquio, com a força da sua determinação, do seu carisma e da sua entrega, merece que lhe tributemos, publicamente, o mais sincero e respeitoso agradecimento. Obrigado, António Eustáquio!"
Mário Mendes - Director do "Jornal de Nisa"

quarta-feira, 27 de abril de 2016

VIDAS - João Augusto Cebola: um músico versátil

Histórias de Vida para a História da Banda de Nisa
A Sociedade Phylarmonica Nizense, percursora da Banda Municipal de Nisa e da Sociedade Musical Nisense, nasceu em Outubro de 1844. Neste Outubro de outras efemérides (25 anos do Ressurgimento da Banda de Nisa e 10 anos da re-inauguração do Cine Teatro) recordamos aqui um homem que, se fosse vivo, completaria, em 7 de Outubro, 100 anos de vida.
João Augusto da Piedade Cebola, falecido a 17 de Agosto de 1996, teve uma vida dedicada à música, fosse como executante da Banda, nos agrupamentos de Jazz-Band ou contribuindo, com o seu virtuosismo musical no acompanhamento do Rancho Típico das Cantarinhas de Nisa, fundado em 1964, ali bem próximo do largo onde morava. A sua história de vida, dedicada à música, merece ser contada e acrescentar o património histórico e memorial da Banda e da cultura de Nisa.
“Retribuindo uma iniciativa do “Jornal de Nisa” que muito agradeço, é com satisfação que testemunho a vivência musical de meu pai, expressa na série de instrumentos de que foi intérprete: clarinete, banjo, violino e acordeão.
Feito o exame da 4ª classe, João Augusto passa a aprendiz de sapateiro na loja do pai, Dionísio da Piedade Cebola.
Ouvidos os acordes tangidos pela viola-banjo do pai (que até na oficina não se fazia rogado em tocar para amigos e fregueses), é natural que este ambiente de música tivesse despertado, no jovem João Augusto, uma vocação musical.
Assim, ei-lo a solfejar por uma brochura editada em 1909 e a ingressar na Banda de Nisa, após a aprendizagem de clarinete.
Simultaneamente, aprende a tocar banjo e compra, a um senhor de apelido Figueiredo, um violino que viria a ser o seu talismã.
Em 1935, surge a oportunidade de fundar com o pai, o irmão José Dinis, o Carlos Pação, o Joaquim Bicho e o José Macedo, o primeiro troupe-jazz de Nisa com o nome “Os Fixes” e com hino próprio (memórias já divulgadas no “ Jornal de Nisa” em 3.Out.2001 e 12.Dez.2003, respectivamente).
Estavam encontrados dois amores – Banda e Jazz – que perduraram em toda a vida de meu pai.
A sua ligação ao Jazz foi mais arreigada pelo facto de ser seu coordenador.
Correspondia-se com as casas musicais de Custódio Cardoso Pereira, Sassetti e Valentim de Carvalho, em Lisboa, e Casa Medina, em Coimbra, onde adquiria os textos musicais dos compositores da época.
O seu conhecimento pela música era tal que, com raro autodidactismo, servindo-se da caneta e do aparo próprios, procedia à paciente transposição do texto de violino para os restantes instrumentos do conjunto, aplicando a labiríntica tabela dos intervalos.
O reportório do Jazz era o de música ligeira: corridinho, fox-trote, marcha, paso-doble, rumba, samba, swing e valsa.
Raro era o dia, sobretudo à hora do almoço, que meu pai não dispusesse de algum tempo para ensaiar – só se aprende a tocar, tocando.
Lembro que, a essa mesma hora, quem passasse à Rua Direita, igualmente ouvia o saxofone-soprano de Luís (Félix), o barítono de Abílio Porto, o saxofone-tenor de José Esteves, a viola-banjo de Dionísio Cebola, o contrabaixo de Manuel Filipe, o acordeão de Joaquim Bicho e a trompete de José Amaro.
Tal o viveiro de músicos que residiam na Rua Direita.
Nisa teve no Jazz “Os Fixes” um peculiar embaixador, num sem número de terras de que ouvia falar: aldeias do concelho de Vila Velha de Ródão (Alvaiade, Foz do Cobrão, Gavião, Perdigão e Vilas Ruivas), Castelo Branco (Assembleia, Cebolais de Cima e Maxiais), Póvoa e Meadas (Castelo de Vide), Atalaia (Gavião), Envendos e S. José das Matas (Mação), Portalegre (Banco de Portugal) e Cano (Sousel).
Em Nisa, são lembrados o abrilhantar de bailes no Benfica, Clube e Sociedade, nos salões da Senhora Viscondessa, na Quinta no Termo de Arez, o colaborar nas representações teatrais e récitas escolares no Cine-Teatro e na inauguração do Café Restauração (rés-do-chão da Casa Carmona, no Largo da Porta da Vila, n.º 23).
Nos anos quarenta, durante meses, o Jazz abrilhantou o Teatro Desmontável da Companhia Rafael de Oliveira, instalado junto à Fonte do Rossio, onde pontificavam as famílias de Eunice Munhoz e do Tony de Matos.
Os jornais “Brados do Alentejo” de Estremoz e “Correio de Nisa” referenciavam notícias sobre “ Os Fixes”.
Para meu pai, a música era uma devoção e só uma doença o poderia afastar tanto da Banda como do Jazz.
Na Banda Municipal, em Nisa, actuou em cerimónias públicas e religiosas, em arraiais e romarias, em concertos no Coreto e no Cine-Teatro, em homenagens (Dr. Joaquim Carita Grave, Dr. José Beato Caldeira Miguéns, Dr. José Gomes Correia e Tenente José dos Santos Marques de Macedo), no descerramento da lápide a Nossa Senhora da Conceição, na frontaria dos Paços do Concelho e na inauguração do busto ao Dr. Francisco da Graça Miguéns, no Jardim.
Fora de Nisa, que me lembre, actuou em Amieira do Tejo, Arez, Montalvão, Monte Claro, Pé da Serra,  Alcobaça, Coimbra e Valência de Alcântara.
No concelho, as carroças asseguravam o transporte, sobretudo as dos moleiros, donos dos melhores exemplares de gado muar da região. Pelas estradas de macadame disputavam-se corridas, até com ultrapassagens ao som das trompetes.
Para a festa de S. Simão no Pé da Serra, a deslocação fazia-se a pé. No sábado pela tardinha, saía-se de Nisa e, após arruado na aldeia, tinha início o arraial. Comia-se e dormia-se em casa dos festeiros. Manhãzinha cedo, tocava-se a alvorada e depois da celebração da missa, seguia-se a procissão. De tarde, o arraial continuava até às tantas da noite. Madrugada alta, os músicos palmilhavam o regresso a Nisa onde, na Fonte Frade, dessedentados, respiravam o raiar da aurora e, ao bater das oito horas na Torre do Relógio, retomavam o serviço nas oficinas.
Carpinteiros, pedreiros e sapateiros formavam uma típica corporação na Banda  a arte dos sons sublima-se na arte dos artífices.
Os proventos auferidos com a Banda eram irrisórios. Com os bailes da Carnaval, meu pai ganhava para comprar um porco que, em Janeiro seguinte, era o fumeiro da casa, após festiva matança ao som da viola de meu avô.
Ainda nos anos quarenta, para dinamizar o Jazz, meu pai compra e aprende a tocar acordeão de teclas.
Nesta modalidade, esperava-o a participação nos casamentos e nas sortes.
Nos casamentos, servido um frugal copo d’água, o noivo deixava a noiva na casa da festa e saía ladeado dos padrinhos e seguido dos acompanhantes. Então o acordeonista abrilhantava o grupo que percorria as ruas de Nisa visitando os lugares de bebidas, sobretudo aqueles cujos donos tivessem dado “serviço” e seguia-se até ao quintal da festa; aí, bebia-se o vinho por latões e uma fatia de pão de trigo servia de suporte à suculenta posta de afogado. Só que o contrato com o tocador ainda não terminara. Havia o baile do segundo dia do casamento.
Quanto às sortes, formava-se um cortejo na Praça do Município. Os mancebos, alguns com pandeiretas, ostentavam uma fita no chapéu ou na lapela do casaco, indicativa do resultado da inspecção militar – encarnada (apurado) e branca (livre). Com o acordeonista a atacar a primeira marcha, o grupo percorria as principais ruas de Nisa, cantando e bebendo nos lugares do costume. Em data posterior, realizava-se o baile das sortes ao som do acordeão.
Com o dealbar da idade, em meu pai, o gosto pela música jamais se desvaneceu.
A comprová-lo está a chamada ao Rancho Típico das Cantarinhas de Nisa.
Por gentileza de ex-elementos do Rancho, foi-me dito que meu pai foi um dos fundadores do Rancho e a casa de meu avô na rua Direita n.º 12 (uma divisão do rés-do-chão, outrora a sede do Jazz) foi o primeiro palco de encenação do Rancho, sob a direcção do ensaiador Rodrigues Correia, com os músicos António Charrinho (acordeão), Florindo Bugalho (saxofone), João Augusto (violino) e José Macedo (clarinete). Segundo a mesma fonte de informação, meu pai, com o Rancho, actuou vezes sem conto em Nisa e teve digressões, entre outras, por Lisboa, à Casa do Alentejo e ao Pavilhão dos Desportos, por Évora, ao II Cortejo “O Trajo no Mundo e no Tempo”, por Alvega (Abrantes), Arronches, Cabeção (Mora), Castanheira de Pera, Instituto de Vila Fernando e Santa Eulália (Elvas), Vale do Arco (Ponte de Sor) e Alegrete e Besteiros de Cima (Portalegre).
Meu pai vibrava com toda esta diversidade de manifestações sociopopulares.
A música tonificava-lhe a sua simples maneira de viver e transmitia-lhe um alegre espírito de colaborar.
Há anos, do espólio musical de meu pai, fiz oferta de todas as melodias, à Sociedade Musical Nisense.
João Augusto nasceu em Nisa e foi músico.
Dionísio Cebola in "Jornal de Nisa"