quinta-feira, 21 de abril de 2016

MEMÓRIA: O Ciclone de 1941 em Nisa




Há 70 anos, no dia 15 de Fevereiro de 1941, o território português foi fustigado por um violento ciclone. Por todo o país e especialmente nas zonas costeiras, o temporal causou avultados prejuízos materiais e um numeroso rol de vítimas.
O distrito de Portalegre e o concelho de Nisa, em particular, não escaparam à fúria dos ventos ciclónicos, acompanhados de chuva torrencial que provocaram danos de grande monta, sobretudo em edificações e na perda de milhares de árvores, arrancadas num ápice pela força colossal dos ventos.
Na sessão da Câmara de 20 de Fevereiro, a vereação presidida por José Augusto Fraústo Basso e composta por Jorge Beato Caldeira Miguéns e José de Barros Gouveia aprovou um "voto de profundo sentimento pela tragédia que assolou todo o país no dia 15 do corrente mês e que tantas vítimas e estragos materiais causou de norte a sul."
De seguida, a vereação camarária tomou conhecimento dos avultados prejuízos causados pelo ciclone no concelho, enumerando os vários edifícios escolares, edifícios e bens municipais, inclusive no edifício dos Paços do Concelho, no cemitério e no jardim desta vila e em várias estradas, decidindo que deviam "prosseguir com a maior actividade as necessárias obras de reparação em todos os locais afectados, referindo que algumas das quais já se encontram iniciadas."
Não se ficaram por aqui as decisões quanto aos efeitos do ciclone e a Câmara tendo em consideração os grandes prejuízos causados em inúmeros prédios urbanos e em muitos muros e vedações e outras edificações do concelho, e tornando-se necessário auxiliar e activar, na medida do possível, a reparação de tais prejuízos, decidiu isentar do pagamento de quaisquer licenças municipais "todas as obras de reparação que forem efectuadas e concluídas até ao dia 15 de Abril próximo, desde que os interessados se limitem a repor as cousas no estado anterior ao do ciclone e isso mesmo seja verificado pela fiscalização municipal."
Ainda sobre o mesmo assunto, resolveu a edilidade "tomar as necessárias providências para que possam ser avaliados, com a possível aproximação, os prejuízos causados neste concelho pelo ciclone referido nas deliberações anteriores".
Na sessão de 3 de Abril, a Câmara tomou conhecimento de que o ciclone de 15 de Fevereiro causou no concelho e de acordo com os elementos obtidos até esta data, além de inúmeros pequenos prejuízos em edifícios urbanos que não foi possível avaliar e de muitos outros prejuízos de elevado valor que também não foi possível avaliar em árvores que ficaram com as pernadas partidas e derramadas, o arrancamento ou inutilização total de 42.475 árvores em prédios particulares, assim descriminadas em harmonia com o mapa que fica arquivado na secretaria:
Oliveiras: 16537; sobreiros: 4.802; azinheiras: 3.753; pinheiros: 10.560; figueiras: 1437; carvalhos:350; outras árvores de fruto: 85; árvores ornamentais: 30.
Na mesma sessão foi dado conhecimento de que "se encontram quase completamente reparados os estragos causados pelo dito ciclone em edifícios municipais e em edifícios cuja conservação está a cargo do Município, e de que tais prejuízos foram muito importantes, principalmente em várias escolas e nos Paços do Concelho."
Legendas das fotos (De cima para baixo)
1 - Capa do jornal "O Século" - 16/2/41
2 - Estragos na praia Vasco da Gama (Sines)
3 - Capa do "Século Ilustrado"
4- Memorial às Vítimas do Ciclone - Serra da Cabreira
* Texto publicado inicialmente em Fevereiro de 2011

segunda-feira, 18 de abril de 2016

OPINIÃO: Da guerra, dos combatentes e do esquecimento

 Há 50 anos, ainda adolescente, olhava com curiosidade e alguma estranheza, para os homens que se reuniam, periodicamente, e celebravam (ou reviviam) as memórias da 1ª Grande Guerra de 1914 a 1918.
Uma das datas em que se reuniam e recordo com maior clareza era a de 9 de Abril, na qual havia sempre uma romagem ao ossário (monumento funerário) dos combatentes da Grande Guerra, promovida pelo senhor João Cabim, avô do actual presidente da Junta da União das Juntas de Freguesia de Nisa e S. Simão, João Cabim Malpique Rufino.
Os ex-combatentes do concelho de Nisa naquele primeiro grande confronto bélico, dispunham de uma filial da Liga do Combatentes, na travessa Marechal Gomes da Costa, junto à ourivesaria Pina, uma casa pequena, ainda assim suficiente para poderem reunir-se e desenvolver algumas actividades, iniciativas que os jovens e menos jovens de hoje rotulariam, certamente, como saudosistas e outros epípetos.
O que não seria (nem será) de estranhar se nos lembrarmos que, entrementes, este país que se chama Portugal, onde nascemos e vivemos, participou com milhares de jovens na denominada Guerra do Ultramar, em quatro frentes militares ou operacionais (Índia, Moçambique, Angola e Guiné) de 1961 a 1974, guerra de que nos libertámos há 40 anos com a Revolução do 25 de Abril.
Se, no primeiro caso, a participação portuguesa foi desastrosa e desastrada, lembrando que só na Batalha de La Lys, na região da Flandres (Bélgica) entre 9 e 29 de Abril de 1918, as tropas portuguesas, em apenas quatro horas de batalha, perderam cerca de 7500 homens entre mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros, ou seja, mais de um terço dos efectivos, no segundo, a Guerra Colonial deixou um cortejo infindável de mortos, feridos, estropiados, física e psicologicamente, cujas sequelas ainda hoje se fazem sentir de forma dramática.
Os combatentes da Grande Guerra têm, a lembrá-los, uma rua com o seu nome em Nisa, além do referido monumento funerário.
As centenas de ex-combatentes do concelho de Nisa que lutaram na Guerra Colonial, pelo “dever de servir a Pátria”, dos quais dezanove tombaram em terras africanas no cumprimento desse mesmo dever, mais do que a homenagem e reconhecimento, público, em forma de monumento e na toponímia da vila, de que são merecedores, gostariam que essa página da nossa história recente não fosse, pura e simplesmente, rasgada e escondida da memória das actuais e futuras gerações.
Os poderes públicos locais – Câmara e Juntas de Freguesia – bem como as escolas, têm essa dívida de gratidão e reconhecimento, por saldar.
E, reconhecer esse facto, quando se completam 100 anos sobre o início da 1ª Grande Guerra e 40 anos sobre o final da “Guerra do Ultramar” é, não só um imperativo de consciência como um dever indeclinável que urge resolver.
Para que os ex-combatentes e famílias possam dizer, orgulhosamente - quando falarem nos seus entes queridos – que, mesmo vítimas de uma guerra injusta (e todas as guerras são injustas, pelo sofrimento que provocam) o seu exemplo não foi esquecido.
Mário Mendes – 9/4/2014

OS CASAMENTOS EM NISA (1) : O Quintal da Festa

A propósito da exposição "Objectos utilizados no quintal da festa", que durante o mês de Novembro foi mostrada ao público na Biblioteca Municipal de Nisa, organizada pela Associação Nisa Viva, julgo oportuno transcrever (e recordar) a mais antiga descrição que se conhece sobre este tradicional costume tipicamente nisorro e que foi mantido ao longo de várias gerações, constituindo um modo verdadeiramente sui generis de celebrar o casamento, em terras alentejanas.
José Diniz da Graça Motta e Moura na sua "Memória Histórica da Notável Vila de Niza" faz uma abundante e pormenorizada descrição dos casamentos em Nisa, abordagem que faremos noutros artigos, interessando por ora, a parte respeitante ao quintal da festa.
Como curiosidade e atestando a genuinidade e tradição desta iguaria gastronómica nisense, encontramos na descrição (o livro é de meados do séc. XIX) referência aos Maranhos...
Avancemos com a Descripção das bôdas e casamentos das classes inferiores d´esta villa, que apresentam certas originalidades dignas de se memorarem por sua singularidade e velhice.
(...) "Na véspera do noivado pela tarde vão-se juntando no quintal da festa as donzellas convidadas para escolherem a carne, onde estão os rapazes matando e esfolando as badanas e cabras, que os pastores deram para se immolarem e comerem na festa; concluída a operação, e mettidas as postas em grandes cassarollas, que se arrimam symetricamente em roda das paredes, e entregues aos cuidados e perícia de cinco ou seis cosinheiros, volta o alegre rancho para a casa da festa, onde a alegria e a satisfação os esperam, porque, assim que elle chega, tocam as violas, e começam os bailes, as rodinhas, os cantares e os folguedos de uma mocidade ébria de prazer e de goso: no fim da tarde e principio da noite chegam os noivos e tomam parte no divertimento rindo e brincando também, e ali se conservam até à meia-noite separando-se para se prepararem para o augusto sacramento, que hão de celebrar no dia seguinte.
Com a entrada dos noivos começam a entrar também os serviços, que cada um dos convidados leva ou manda, e que á proporção, que se recebem, se relacionam em um caderno, que um escrevente improvisado tem sobre uma mesa collocada á porta da casa, onde se recolhem: providencia muito salutar, que os livra de muitos apuros e logros!
Consistem os serviços em pão cosido ou em grão; os da primeira espécie constam de doze pães de trigo levados em um taboleiro com sua toalha de folhos de renda; os da segunda em um alqueire de trigo ou centeio; e os dos padrinhos e madrinhas no dobro d´estas quantidades, e alguns mais generosos e abastados mandam o quadruplo; os que dão este serviço ficam com o direito incontestável de serem admittidos ao almoço e jantar da festa, levando consigo a sua família e domésticos; e não indo, a esperarem em casa por um grande prato de carne refogada com azeite, salsa, cebola e pimenta, e outro mais pequeno de arroz amarello com tanta pimenta, que mal pode ás vezes mastigar-se, e engulir-se.
Os padrinhos além d´esta substancial refeição, são ainda agraciados com um prato de sangue e fígado para o almoço, tão apimentado como o refogado e arroz, que também lhes mandam para jantarem; e isto ainda que elles sejam os mais opulentos e nobres da villa.
O dia das bodas é de regosijo e divertimento, e ao mesmo tempo de abundância e regalo para todos os que tomam parte n´ellas: logo ao despontar da aurora velhos e moços, empregados nas ocharias, e repartição gastronómica, tratam de preparar o almoço, que constam do sangue e intestinos das victimas caprinas e bodinas, recheados com cebola, salsa e o indispensável pimentão, e das tripas, de que fazem um pequeno novelo, que denominam maranhos, cozidos com arroz, e que constitue um manjar delicioso para aquelles exigentes e robustos estômagos.. Pelas oito horas da manhã começam a collocar-se as mesas, que são grandes escadas de mão, postas horisontalmente sobre duas tripeças ou bancos, e cobertas de toalhas de uma alvura admirável, em cima das quaes se põe sem ordem o pão, e o vinho em palanganas de louça branca, e junto d´ellas pequeninas tijelas, por onde se bebe.
Depois de tudo assim disposto e ordenado, começam a entrar os convidados, que, à proporção que chegam, vão tomando logar sem distincção de sexo, idade, ou condição; e depois de todos cheios, e sentados os convivas, chaga o apontador dos serviços, orgulhoso com a importância momentânea da necessidade, e por uma rigorosa chamada para verificar, como os Efforos de Lacedemonia nas mesas comuns, que Licurgo instituiu, os que faltam e têem de ser indemnisados d´esta perda; ou para expulsar aquelles que intempestivamente ali se collocarem; porque desgraçado d´aquelle que sem ter concorrido com serviço e sem que o seu nome fosse inscripto no registo fatal, ali se assentasse; seria expulso no meio dos apupos e surriada da assembléa inteira. (...)
Verificados os poderes, começa então a comida, e cada um dos circunstantes, servindo-se dos garfos, colheres e facas, que trouxeram, mostra a sua habilidade e desembaraço gastronómico; e as fumegantes iguarias vão pouco e pouco desapparecendo dos grandes pratos, em que as pozeram e onde logo são substituídas por outras igualmente apetitosas e substanciaes; mana o vinho das amphoras, e dos odres para as palanganas, todos e todas bebem e se alegram por tal forma, que as bodas de Camacho, onde o pobre Sancho se regalou, não foram mais abundantes nem mais alegres.(...)
Motta e Moura - Memória Histórica da Notável Vila de Nisa - Págs 144 a 152
Novembro 2013

domingo, 17 de abril de 2016

MEMÓRIA DE NISA: A Barraca da Ti Parreira

Nas Festas da Póvoa na década de 60 havia uma ou duas barracas que sempre marcavam presença. A da Ti Parreira de Nisa era a alegria da pequenada. Vendia tremoços, amendoins e, entre muitas outras coisas, umas garrafinhas de refresco de groselha com palhinha. A palhinha já não era de palha, mas ainda não era de plástico como hoje. Era de um material quebradiço e, por isso, de vez em quando estragavam-se.
Logo no primeiro dia de festa a Ti Parreira, que vinha de carroça, montava a sua barraca de pano às riscas e balcão forrado a papel rendado e colorido, normalmente em frente à Igreja da Misericórdia. Do outro lado ficava a barraca da massa-frita, outra que nunca faltava.
Por cinco tostões a malta pequena regalava-se com as garrafinhas de groselha.
Nestes tempos de play-stations e telemóveis é difícil compreender como coisas tão simples podiam fazer a alegria de tantas crianças.
É com saudade e carinho que recordo hoje a Ti Parreira.
Um agradecimento especial ao amigo Mário Mendes de Nisa que fez o favor de fornecer a foto. 
Jorge Rosa
NR: Maria Antónia Parreira (a Ti Parreira) nasceu em Nisa em 1912 e tal como refere o texto-recordação de Jorge Rosa foi uma mulher dinâmica que palmilhou as feiras e festas da região, fazendo a alegria da pequenada. Era presença constante e obrigatória na romaria da Senhora da Graça e este artigo mais do que a memória de uma época, constitui também, uma homenagem às pessoas simples, que, com as suas "artes e engenhos" tornavam a vida um pouco melhor, mais alegre e menos penosa.

MEMÓRIA: Subsídios para a História dos Bombeiros de Nisa (1)

Uma Associação prestes a completar 100 anos de existência
A criação dos Bombeiros Voluntários de Nisa remonta ao ano de 1916, ou seja há 98 anos, embora, oficialmente, seja assinalada a data de 2 de Maio de 1937, como se fosse essa a da fundação e início da actividade de tão prestimosa e antiga Corporação.
Nestas páginas e sempre que a oportunidade se depare, continuaremos, a lembrar, e a denunciar, um “crime de lesa memória”, como aquele que, de há muito, vem sendo cometido, por negligência ou ignorância, contra a história e os seus protagonistas (muitos deles ainda com familiares na vila) da criação dos Bombeiros Voluntários de Nisa.
Os dados que compilámos pretendem repor um pouco da história inicial desta Associação Humanitária, pelo respeito quer pelo seu próprio historial, quer sobretudo pelo dever de homenagem àqueles homens que, na primeira vintena do século passado, uniram esforços de forma voluntária para acudir a situações graves, mormente de incêndios agrícolas.
O nº 7 do semanário nisense "As Férias", jornal que se publicou em Nisa nos anos de 1916 e 1917, traz a notícia da criação dos Bombeiros Voluntários, destacando nesta iniciativa a acção desenvolvida pelo cidadão José da Graça Vieira. A foto que reproduzimos é de 1922 e foi tirada junto à antiga casa da D. Adelina, hoje propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Nisa. A foto mostra a formação dos Bombeiros Voluntários de Nisa já devidamente fardados e equipados, o que só por si demonstra o trabalho anteriormente desenvolvido pela Corporação. Há, ainda, inúmeros documentos comprovativos que ilustram a actividade dos nossos Bombeiros a partir de 1916, de que são exemplo aqueles que aqui mostramos, como curiosidade para todos os nisenses e alerta (mais um) para os dirigentes da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Nisa, a quem compete, sem mais demora, preparar as comemorações do centenário da prestigiada Corporação e recolocar os nossos Bombeiros no lugar que, justamente, merecem.
Receitas em Janeiro de 1917
Receita da Corporação até 7 de Janeiro-- 1.034$78
Receita dos jogos (mês de Janeiro)-- 8$34
95 mensalidades (quotas) cobradas-- 13$72
Despesa mais significativas (Janeiro/1917)
Circulares para o bazar-- 1$15
Um candeeeiro-- $55
Ordenado do contínuo-- 6$00
Almotolia-- $12
20 Apitos-- 9$56
Petróleo (10 litros)-- 1$86
Tremoços para os jogos - - - - $16
Despesa mais significativas (Fevereiro/1917)
Ordenado do contínuo-- 6$00
Limpeza da sede da Corporação-- $40
Ferragens para o sinal de alarme-- 5$00
Caixa para o sinal de alarme-- $60
1 Bilha e 3 púcaros para a água-- $12

25 de novembro de 2014

OPINIÃO: Há 50 anos morria em Nisa o Dr. António Granja, Médico, humanista e maçon

As boas notícias não são notícias. Os homens virtuosos e exemplares são ignorados. Só corruptos e os malfeitores são referidos na comunicação social. O Portal de Nisa evocava, a 19 de Fevereiro, o Dr. António Granja, médico natural de Mação, que foi para Nisa em 1934 e ali viveu até à sua morte em 1964. Foi alvo de uma homenagem pública em vida, em 1957, e depois, postumamente, em 8 de Agosto de 1981, o Presidente da República general Ramalho Eanes inaugurava um monumento evocativo no largo junto à Porta da Vila, que passou a chamar-se Largo Dr. António Granja. Aqui fica uma fotografia do monumento e da homenagem de 1981. Do jornal «Correio de Nisa» de 6-3-1965, respigamos este excerto: «Muitas vezes a sua mão piedosa deixou dinheiro e remédios à cabeceira de pacientes sem outros recursos, além de seus pobres braços paralisados pela doença, e por isso mesmo impossibilitados de ganhar o magro sustento quotidiano. Algumas vezes os familiares de um ou outro "caso perdido" viram os seus olhos, aparentemente duros, nublarem-se de lágrimas de dor. Além do mais, era um profissional, cuja competência foi inúmeras vezes comprovada por assinaláveis êxitos e reconhecida até por notáveis figuras da medicina portuguesa.
Viveu sempre só. O seu mundo privado, familiar, a sua casa, era aquele velho quarto da "Pensão Correia" que ocupou até aos últimos dias de vida, quando o grassar célere da doença que havia de vitimá-lo, o obrigara a deslocar-se a Coimbra, a sujeitar-se às prescrições de colegas especializados».
O que nunca foi revelado sobre esta Homem é que o António Granja entrou para a Maçonaria quando era estudante em Coimbra, mais exactamente para a Loja A Revolta, onde foi iniciado em 19 de Novembro de 1921 com o nome simbólico de «Marat». Passou em 1930 para a Loja Rebeldia, de Lisboa, à qual pertenceu até à proibição da Maçonaria, em 1935.
* Texto de António Ventura publicado em 17/8/2014 no Facebook

terça-feira, 12 de abril de 2016

Arez reaviva tradição da Quaresma

Os cânticos na noite para Encomendação das Almas
Em Arez, as noites de sextas-feiras da Quaresma ganharam, desde há 11 anos, um outro encanto e mistério. Um grupo já identificado como o dos “Encomendadores” percorre as principais ruas da antiga vila e em locais estabelecidos, na encruzilhada de caminhos, dispõe-se em círculo e entoa os cânticos da “Encomendação das Almas”.
É uma tradição muito antiga, que remonta à Idade Média e praticada em Arez até início dos anos sessenta do século passado. Depois, por falta de “encomendadores” ou de vontade, o ritual perdeu-se e foi sendo esquecido na poeira do tempo. Até que...
Em Março de 2002, - relembra Rosa Metelo, professora e presidente da associação ACESA – “no âmbito do projecto local “Seres e Saberes” da antiga Escola Básica de Arez, a que pertencia como professora, os alunos resolveram entrevistar e filmar o senhor José que, entre várias histórias e costumes antigos, lembrou a tradição que era feita em Arez, nas sextas-feiras pela Quaresma e que se chamava “Encomendar as Almas”. Professores, alunos e senhoras de várias idades ensaiaram, então, a letra e os cânticos. Às 11 horas da noite saímos da escola e em silêncio caminhamos até às encruzilhadas onde antigamente se encomendavam as almas. Terminámos o percurso à meia-noite, depois de termos cantado a “Encomendação” em sete locais da aldeia. A tradição era reposta e assim tem sido desde essa altura”.
Na noite da passada sexta-feira, estivemos na sede da ACESA – Associação da Cultura e Saberes de Arez – e ficámos a conhecer o grupo de “Encomendadores”: Idalina Vaz, 72 anos; João Lourenço, 68 anos e a esposa Maria de Fátima Lourenço, de 66; Rosa Metelo, 57 anos, a mentora do projecto e o filho Ricardo Metelo, 18 anos.
O grupo chegou a ter, no início, 20 elementos, constituído na sua maioria por mulheres. Hoje, devido a doença, não pode contar com Antónia Vaz, 74 anos, e uma das vozes mais sonantes. Não se trata de um grupo completo, fechado. O apelo da ACESA dirigido aos habitantes de Arez é que mais homens e mulheres, idosos ou jovens, participem, mantendo e divulgando esta tradição.
 Saímos para a rua. A aragem da noite é fria, mas parece ter passado a ameaça de chuva. A primeira paragem é junto à Igreja Matriz. Dispostos em círculo, os encomendadores puxam das vozes e, em sintonia, lançam em cântico, os apelos à quietude das almas.
São sons pungentes, um cantochão vibrante que quebra o silêncio quase sepulcral da aldeia. Não se vê vivalma. Pressente-se, porém, através da luz vinda de algumas frestas de portas e janelas que os cânticos não passam indiferentes. Diz a tradição e, talvez, a superstição das gentes, que “enquanto as almas são encomendadas não se deve abrir portas ou janelas, para impedir a entrada de alguma alma desencaminhada”.
Eu vos peço aos meus irmãos
Que rezeis um padre-nosso
Àquelas benditas almas
Que andam sobre as águas do mar
Que Deus chegue a ponto d`as salvar
Seja pelo amor de Deus
Pelo amor de Deus seja
O cântico é repetido mais duas vezes, com ligeira alteração no começo do primeiro verso “Mais vos peço...” e na intenção “Que rezeis uma Ave-Maria” e “Que rezeis uma Salve-Rainha”. O ritual termina, em cada paragem, com os elementos do grupo a benzerem-se, fazendo o sinal da cruz.
Chegámos ao alto do Rossio, junto ao cruzeiro. O grupo procura o melhor sítio para difundir a mensagem, mas o frio e o vento são cortantes, gélidos. Agasalham-se como podem, tentando proteger as vozes e as gargantas. Não é um exercício fácil, esta prática que vem desde a longínqua noite dos tempos e que em algumas aldeias do norte é, de quando em vez, “condimentada” com um copinho para retemperar as forças. Aqui, domina a vontade, a religiosidade, inquebrantável destes homens e mulheres.
Entoam, a uma só voz, os apelos em forma de música, para serenarem as almas.
Repetem, ao longo da noite, fria e silenciosa, em mais cinco locais da aldeia, as mesmas palavras e preces, irmanados num desejo comum que junta a fé, a cultura e a tradição.
Na próxima sexta-feira, e até à sexta-feira santa, sairão, novamente, para a rua e irão “Recomendar as Almas”, porque “há almas que precisam de luz” e o objectivo da associação é manter ACESA na comunidade, a chama da esperança e do respeito pelas tradições.
O Encomendar das Almas no concelho de Nisa
A tradição “Encomendar as Almas” remonta à Idade Média e ainda hoje é praticada em muitos locais do país, principalmente no norte e na Beira Baixa e até no Brasil, principalmente nas regiões onde mais se fez sentir a presença colonizadora portuguesa, nomeadamente, no Estado de Minas Gerais, de onde nos chegam vários relatos sobre esta prática ancestral.
No concelho de Nisa caiu, há muito, em desuso, havendo notícia de que era um rito corrente em Nisa, Montalvão e Amieira do Tejo.
Em Nisa e de acordo com José Francisco Figueiredo (1) era uso pela Quaresma “especialmente na Semana Santa, encomendar as almas. Um terceto ou quarteto de executantes da filarmónica, acompanhados de várias cantoras, percorria as ruas da localidade a altas horas da noite, entoando, em funéreo acento, algumas quadras alusivas às penas sofridas pelas almas do Purgatório. Este costume acabou por completo, assim como o de rezar o terço com acompanhamento de vários cânticos, que diariamente congregava, em casas particulares, dezenas de mulheres da vizinhança.”
Não menos importante e pelo seu valor religioso e etnográfico, deixamos para registo o ritual da “Encomendação das Almas, em Amieira do Tejo, tal qual nos é descrito no livro “Amieira do antigo priorado do Crato” (2)
A Encomendação das Almas – Amieira do Tejo
Durante a Quaresma, geralmente nas terças ou sextas-feiras de cada semana, grupos de rapazes e raparigas, chefiados por algumas pessoas de mais idade, que antes tinham sido os seus ensaiadores, percorriam, por volta da meia-noite, todos, ou pelo menos, os principais Passos, como o da porta da Igreja, o da Praça, e o do Calvário, onde, numa toada plangente e sentimental, cantavam em coro, algumas vezes acompanhados por um pífaro pastoril ou harmónio, as quadras que se seguem, assim falando àquela hora e por aquela forma aos sentimentos de piedade das pessoas que, nas suas camas, as escutavam, rezando, quando eles o pediam, um Padre-Nosso e Ave-Maria:
Cristandade tão unida:
Ouvi gritos e ais
Dos que estão na outra vida,
As almas dos nossos pais

Toda a noite e todo o dia,
Sempre estão numa agonia,
Pedindo que lhes rezem
Padre-Nosso e Ave-Maria.
E após uma pausa para se rezarem o P.N e A.M., prosseguiam:
Gritam contra os seus herdeiros
A quem os seus bens deixaram,
Gritam contra seus parentes,
Que neste mundo ficaram,
E contra o seu amigo,
Que nem sequer o alivia
Com um Padre-Nosso e Ave-Maria.
Faziam, em seguida, momentos de silêncio, para dar tempo a que todos, encomendadores e ouvintes, rezassem cinco P. N. ao Santíssimo Sacramento e três Salve-Rainhas a Nossa Senhora, assim seguindo de um para o outro Passo.
NOTAS
(1) – José Francisco Figueiredo – “Monografia da Notável Vila de Nisa”
(2) Tude de Sousa e Francisco Vieira Rasquilho – “Amieira do Antigo Priorado do Crato”
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - Março 2013