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sexta-feira, 9 de setembro de 2022

VIDAS: “ Construção do Lar da Terceira Idade foi a obra que mais orgulho me deu” - Joaquim Maria da Costa – Provedor da Misericórdia de Montalvão

Tem 80 anos e mantém ainda uma energia que surpreende e contagia. Recorda a sua vida, realça o contacto com o país e a cidade de Portalegre, sua terra adoptiva, os amigos que fez, desde a escola e no calcorrear das suas andanças profissionais, na labuta diária pela modernização das redes de telecomunicações.
De permeio, foi sindicalista e político, como quem acredita que, não podendo transformar o mundo, pode melhorá-lo com a sua acção. Acabou por regressar às origens, a Montalvão, fez-se Provedor da Misericórdia um pouco a contragosto e quinze anos passados, olha para trás com um sorriso aberto e satisfeito pela obra realizada.
Caros leitores, apresento-vos Joaquim Maria da Costa, um montalvanense, na primeira pessoa.
Nasci em Montalvão no início de 1931. Andei na Escola Primária e fiz exame da 4ª classe na Escola do Rossio em Nisa. Depois fui estudar para Portalegre onde frequentei durante 5 anos o Curso Industrial de Mecânica e Desenho de Máquinas. Saia-se de lá com grandes conhecimentos técnicos e de projectos e muitos tiveram as bases para a vida de trabalho. Foi um erro muito grande acabar com as Escolas Industriais e Comerciais. Nós no 4º ano já tínhamos procura do mercado de trabalho. Fiquei a trabalhar em Portalegre numa oficina de mecânica até ir para a tropa para o Curso de Milicianos. Ainda na tropa concorri às Telecomunicações dos CTT e fui aceite. Frequentei um curso de seis meses e entrei para o sector das Telecomunicações. Mas surgiu um problema, pois fui mobilizado para ir para a Índia em 1952. No vai e vem entre Portalegre e Abrantes, o tempo foi decorrendo e acabaram por mobilizar outra Companhia.
Nos CTT fui colocado primeiro em Évora, onde estive 2 anos. Pedi a transferência para Portalegre e mandaram-me estagiar para Torres Vedras. Andei requisitado pelos Serviços Técnicos durante 12 anos e pouco vinha a Portalegre. Fiz trabalhos desde o Algarve ao Minho e na Madeira e praticamente só vinha passar umas curtas férias.
Estive 37 anos no sector das Telecomunicações dos CTT. Foi a minha equipa que automatizou o grupo de redes de Portalegre e lembro-me que a primeira estação a ser automatizada foi a de Castelo de Vide. Com algumas poucas excepções, fiz a automatização da maior parte das estações de telecomunicações do distrito.
O meu trabalho foi reconhecido e fui convidado pelo Director da Área de Telecomunicações de Évora, que abarcava todo o Alto Alentejo, para ser o SD Técnico (Chefe do Sector Automático). Estive 17 anos nesse cargo e do qual me reformei.”
Regresso às origens e o apelo da Misericórdia
O tempo da reforma, tantas vezes sonhada e aguardada. Para uns, o concretizar de alguns sonhos, o tempo para ter tempo, para a família, os amigos e o lazer.
Não para todos. Há apelos, fortes, da terra e das instituições, apelos que se aceitam ou recusam. Joaquim Costa aceitou o convite e de um momento para outro entrou na “reforma activa”.
Morei sempre em Portalegre, mesmo quando andava por fora e quando me reformei aos 61 anos, o meu irmão tinha falecido e com os meus pais estavam já com uma certa idade, entendi que devia olhar por eles e regressei a Montalvão.
A ideia inicial era tratar da horta, ir à pesca, fingir que caçava, ou seja, passar tranquilamente os anos de reforma. Mas o “tiro” saiu-me pela culatra.
Estava há pouco tempo em Montalvão quando o senhor Mourato, Provedor da Misericórdia veio ter comigo e pedir-me para eu o substituir. Disse-lhe que estava disponível para ajudar mas não para esse lugar, pois sabia que era um cargo muito trabalhoso. Fiquei como tesoureiro da Comissão da Senhora dos Remédios e durante cinco meses fui presidente da Assembleia-Geral.
Durante o mandato e por diversas vezes propus a compra de uma propriedade com casa, na Corredoura, já que tinha a garantia de entidades de comparticipação. Nessa altura já se fazia sentir a necessidade de novas instalações para o Centro de Dia, mas nunca aceitaram a proposta, o que me desiludiu um pouco.
Em Novembro de 1998 participei na reunião da Assembleia Geral, sem vontade de aceitar qualquer cargo, mas houve uma votação esmagadora que me fez pensar e acabei por aceitar ser Provedor.
Quando entrei para Provedor, a SC Misericórdia de Montalvão funcionava com 20 utentes e 4 funcionárias, sendo uma administrativa, 1 cozinheira e 2 auxiliares.
As condições não eram as melhores, pois o espaço era reduzido. Havia 50 pessoas em Montalvão e 20 na Salavessa em lista de espera, porque não havia condições para as admitir.
A primeira decisão que tomei foi conhecer a situação financeira e a regularização da contabilidade. Incomodava-me o facto de o Centro de Dia abrir às segundas e fechar às sextas-feiras. Durante o fim-de-semana os utentes ficavam entregues a si próprios. Era preciso inverter a situação e com a compreensão dos funcionários o Centro de Dia entrou em regime permanente, no dia 25 de Abril de 1999, o que obrigou a recrutar mais 5 trabalhadoras. Os utentes passaram a ter mais duas refeições quentes e a serem acompanhados mais duas vezes pelos funcionários.
A lista de espera não deixava de me preocupar, mas o pessoal dizia-me que não havia capacidade de resposta. Fui à Segurança Social falei com o Director fiz-lhe sentir a realidade de Montalvão e da sua parte houve sensibilidade para fazermos um protocolo que abrangeu 35 pessoas em centro de Dia e 60 em Apoio Domiciliário. Isso originou uma pequena “revolução”. Foi preciso adquirir novos equipamentos, utensílios de cozinha, remodelação de instalações, e aumentar o número de funcionários que passou de 9 para 17. Com esta “operação” ainda conseguimos manter mais 3 utentes fora do protocolo.
Fomos a primeira instituição a ter serviços médicos, porque o médico estava muito tempo sem ir a Montalvão e criámos um espaço para o Gabinete Médico, fazendo um protocolo com a ARS para que o mesmo fosse oficializado para os nossos utentes.”
Sonho e luta: a construção do Lar
Situada junto à fronteira, a freguesia de Montalvão sofreu como poucas o êxodo da população activa para o estrangeiro e para a Grande Lisboa. Os que ficaram, agarrados à ocupação do trabalho rural, envelheceram e necessitam de cuidados especiais. Os filhos e os familiares mais chegados estão longe, a solidão tomou conta das horas e dos dias.
O Centro de Dia preenchia um espaço, mas não chegava para todos. Joaquim Costa, também ele, idoso, pôs-se na “pele” dos seus conterrâneos e não parou de pensar e... agir.
“O primeiro passo estava dado, antes de mim. Havia um terreno adquirido pela Câmara presidida pelo Dr. José Manuel Basso e para o qual só faltava a escritura de doação. Foi assinada por mim e pelo presidente da Câmara e de imediato começámos a tratar do projecto do Lar. Quando as coisas pareciam encaminhadas para que o mesmo fosse apresentado como candidatura, verifiquei que, afinal, contemplava um Centro de Dia.
Deixámos passar o prazo para integrar o PIDDAC desse ano, mas no ano seguinte e com o projecto devidamente elaborado, “chateei” muitas pessoas que eu conhecia, bati a muitas portas e o certo é que entre 56 candidaturas, apenas duas foram aprovadas e uma delas era a do Lar de Montalvão.
Tinha a garantia da aprovação do projecto e em 29 de Agosto de 1999 a obra arrancou em força. Mesmo com alguns acidentes de percurso, que me escuso de referir, a obra nunca parou. Assim que tivemos oportunidade, antes da obra concluída, transferimos o Centro de Dia para as novas instalações. A construção do Lar e logradouros porque houve dificuldades, a partir de certa altura, na cedência de pedreiros da Câmara, optou-se por um empreiteiro (Armando Barrento), o que foi uma decisão acertada, tendo a obra sido concluída.”
Um sonho de muitos anos fora concretizado. Joaquim Costa podia, enfim, dormir descansado, mas o seu espírito activo “falou” mais alto.
“Inicialmente, estavam previstas 22 camas no piso de cima e pus-me a pensar porque não se aproveitava a parte de baixo. Falámos com a Câmara que aceitou a ideia e fez o projecto e conseguimos instalar mais 16 camas e dispensas. E ainda ponho a hipótese de arranjar mais camas, pois as necessidades são muitas.”
As condições modelares e de funcionamento do Lar da Santa Casa da Misericórdia de Montalvão tem recebido elogios de muitas entidades. Louros que Joaquim Costa diz serem fruto do trabalho de equipa.
“É certo que todos os dias vou ao lar e acompanho a par e passo o funcionamento da Instituição, mas temos que dar valor aos funcionários e à encarregada que é uma pessoa competente e zelosa. Por outro lado, temos uma boa situação e estabilidade financeira. Não damos o passo maior que a perna e com a responsabilidade de todos temos conseguido realizar todas as metas a que nos propusemos.”
No aspecto patrimonial tem um grande significado a obra levada a cabo, sob os auspícios do Provedor, a restauração e remodelação da Igreja da Misericórdia de Montalvão.
“A igreja serve como Casa Mortuária e eu sentia-me incomodado cada vez que ia a um funeral. Achava indecente o aspecto do edifício religioso. Metemos mãos à obra, falei com um restaurador que conhecia de Portalegre, o senhor Joaquim Martins, ele entendeu o que pretendíamos e fez uma trabalho de restauro de altares e arte sacra, a todos os títulos notável. Para além disso, o edifício foi todo reparado. Substituímos os bancos, colocámos um piso novo, rebocaram-se as paredes, recuperaram-se os sobrados, instalaram-se sanitários, enfim, a igreja ficou com a dignidade que merecia e hoje pode ser visitada por quem o desejar.”
Joaquim Costa fala da Misericórdia e do Lar como da “menina dos seus olhos”.
Na extensa vida de 80 anos, este homem, fumador inveterado e de longas barbas como imagem de marca, pisou os palcos do sindicalismo, sendo um dos fundadores do Sindicato das Telecomunicações (SINTEL), e da política. Foi vereador durante dois mandatos na Câmara de Portalegre, eleito na Assembleia Municipal em Portalegre e Nisa, membro das Comissões Concelhias do Partido Socialista em Portalegre e Nisa.
Na sua terra, Montalvão, recusou, sempre, ser candidato e hoje é notório, que a freguesia e o concelho só ficaram a ganhar com essa decisão.
“ Não se pode ser duas coisas ao mesmo tempo. Dediquei-me à Santa Casa da Misericórdia. Foram 15 anos de esforço e muita luta para conseguir que a obra nascesse e se consolidasse. Ser Provedor exige muita dedicação e trabalho. Sempre gostei de resolver os problemas e nunca tive nada que me metesse medo, embora a idade já seja um pouco avançada, nunca digo que é o último mandato, pois todos somos substituíveis. Eu gostava e desejo que apareça alguém que possa tomar conta deste empreendimento, com a mesma força e determinação que eu tenho tido.”
* Mário Mendes – Fonte Nova -14/6/2011

quinta-feira, 24 de março de 2016

À FLOR DA PELE: Domingos Paixão - o Homem das Ervas Milagrosas

 Completou em Julho, 95 anos, este homem de rosto largo e de mil vivências. Andou pela França e pela Espanha, aprendeu a ler, já homem feito, nas aulas regimentais, enquanto impedido do general Domingos de Oliveira, máxima figura militar no tempo de Salazar. Ao gosto pela leitura juntou um outro ligado às "coisas do campo": a descoberta das propriedades curativas das plantas e das argilas. A paixão pelas "ervas milagrosas" na versão do ti Domingos Semedo de Matos.
Nasceu em Montalvão, ainda o século vinte estava na puberdade, mas mostrava, já, as imagens dos conflitos armados, das doenças e da crise económica, mundial, que iria influenciar a vida de Domingos Semedo de Matos, nascido numa família de fracos recursos e obrigado a compartilhar com três irmãos a côdea de pão do sustento familiar.
Vida extrema, difícil, num lugar do interior, distante de tudo, até do essencial para se viver.
" Os meus pais trabalhavam no campo, eram jornaleiros. Vivia-se mal e logo aos sete anos fui guardar gado. Estive como pastor até aos 10 anos e aos 11 fui trabalhar para as grandes obras de construção da Barragem da Póvoa e Meadas, como servente. Havia lá muita rapaziada de Montalvão, da Póvoa e Meadas e de Castelo de Vide. Dormíamos lá e cada um cozinhava para si. O meu pai estava em França e juntou-se comigo a trabalhar na Barragem. Um ano depois resolveu ir para a ceifa em Espanha, na serra de Santiago e eu fui com ele ganhando menos mas fazendo o mesmo trabalho que os homens. Foi esta a minha escola. Quando terminou esta campanha, o meu pai resolveu ir novamente para França e eu acompanhei-o. Fomos a salto, éramos sete só de Montalvão, isto em 1929. Andámos muito tempo a pé e de comboio.
Em Hendaya havia vários empreiteiros à espera de quem chegasse de Espanha ou de Portugal para trabalhar e nós fomos contratados para umas minas de perto de Marselha. Era um trabalho muito duro, mas compensava. As minas produziam um comboio de carvão, todos os dias, extraído à força do braço. Legalizámo-nos ao fim de 22 meses e podíamos trabalhar em qualquer sítio de França. Foi assim que conheci um pouco daquele país, como Lyon, Paris, Bierzon. Regressámos a Montalvão ao fim de três anos. Aqui toda a gente se ocupava a trabalhar no campo e nós fizemos o mesmo em todos os serviços, a trabalhar de sol a sol."
Chegava a idade da vida militar, dever a que Domingos Paixão não pôde eximir-se.
" Em 1936, com vinte anos, fui à inspecção militar com muito gosto, pois não sabia ler, tinha uma grande fortaleza e sempre ouvira dizer que se aprendia a ler na tropa. Era o que eu mais queria. Depois da instrução fiquei colocado na Companhia Tripomóvel Montada. O quartel dava impedimentos e eu tive a sorte de ficar como impedido do senhor governador militar de Lisboa, general Domingos de Oliveira. Tirei a 4ª classe, fiz uns exames maravilhosos e ao mesmo tempo tratava de quatro cavalos do senhor general que muito me considerava. Depois de três anos na tropa, já podia meter os papéis para qualquer serviço e assim entrei para a GNR em 1941, onde estive 27 anos. Desde Lisboa ao Alandroal, Crato, Nisa, Marvão, Gáfete e novamente Lisboa."

Casou aos 26 anos, tem quatro filhos, 11 netos e 7 bisnetos. A esposa morreu-lhe há 14 anos e reformado desde os 52, Domingos Paixão retornou a Montalvão, às terras da raia. É aqui, verdadeiramente, que começa a paixão pelas ervas com poderes medicinais.
"Eu herdei da minha mãe o gosto pelas plantas. A minha mãe com 83 anos ainda usava as ervas dos campos para uso dela e para dar às vizinhas. Há 80 anos atrás quem que tinha posses para ir à botica? Além dos tratamentos com plantas e as mézinhas caseiras serem muito mais eficazes. Era assim que tratavam as maleitas, qualquer doença naquele tempo. Eu sempre que vinha a Montalvão, ainda estava na GNR, o meu sentido era para as plantas. Comecei a tratar pessoas com 28 anos e não comecei mais cedo porque a vida não permitia. Comecei por massajar em qualquer parte do corpo, sem ter qualquer conhecimento de medicina e tenho tratado muita gente, todos aqueles que me procuram."
Não sabe explicar o "dom", sabe, isso sim que gosta de tratar as pessoas e que tem tratamento para quase todas as doenças, desde que o paciente saiba dar tempo ao tempo.
"Pelas portas por onde passei desenrasquei as pessoas que me pediram, fosse endireitar um dedo do pé, as costelas, o pescoço, as costas ou qualquer extensão fora do seu lugar. Vou todos os dias para o campo e conheço todas as plantas, mais de 300. Tenho um ficheiro escrito à mão, onde explico o nome das plantas, os fins para que servem, as doenças que combatem e como devem ser aplicadas. Conheço também as propriedades terapêuticas da argila, pois há 40 anos que trabalho com ela, um dos mais poderosos meios naturais de atacar as doenças e que pode ser aplicada em qualquer parte do corpo humano e até nos animais com fins curativos".

A sua casa no Bairro do Bernardino, na entrada de Montalvão, é um verdadeiro "museu das ciências naturais ". Há argila de todas as cores, uma variedade incontável de plantas, devidamente catalogadas com os nomes científicos e populares, com a descrição pormenorizada dos fins a que se destinam. Possui mais de 900 caixas com ervas, uma quantidade enorme de diversas argilas e este valioso espólio que representa muitos anos de trabalho dedicado é a sua grande preocupação. Agora, com mais de 95 anos, o ti Domingos gostaria que alguém se interessasse pela sua arte das plantas curativas, a divulgasse e que não se perdesse tão valioso acervo do nosso património cultural tradicional.
Deixa, por isso, um apelo, quer aos profissionais e comerciantes do ramo das plantas medicinais, quer às entidades autárquicas, no sentido de não deixarem que se perca um espólio que considera valioso, não só do ponto de vista económico, mas, sobretudo, carregado de afectividade.
Mário Mendes - À Flor da Pele in "Alto Alentejo" - 7/9/2011