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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

MEMÓRIA(S) DE NISA: As Sortes

Há muita variação de “sortes”, mas aquela a que me refiro, não é a parcela de terreno que herdámos dos nossos pais., ou aquelas que possuímos após termos ganho na lotaria. Falo das “sortes”, desse acto em que todos os jovens noutros tempos eram obrigados a participar: a chamada “inspecção militar”.
As sortes realizavam-se todos os anos, na sede do concelho, feita por meia dúzia de oficiais do Exército, que já nessa altura e para impressionar, nos falavam asperamente, ao bom estilo da filosofia da tropa.
Ainda me lembro bem, foi num dia de Verão, em que parte da rapaziada descobriu o seu corpo pela primeira vez, admirando ou gesticulando este ou aquele que possuíam marcas de  nascença.
Os nossos pais e noivas aguardavam-nos, silenciosos, no Largo do Município, para nos felicitarem ou chorarem a nossa “sorte”. Havia a guerra do Ultramar e a fita vermelha na lapela do casado significava “Apurado” para todo o serviço militar e depois, geralmente, a mobilização para as colónias.
Quase todos ficavam “apurados” nesse tempo. Os nossos pais, à guisa de consolação, diziam-nos: “deixa lá, filho, a tropa fará de ti um homem!”.
Alguns, poucos, saíam de fita branca. Ficavam “livres” do serviço militar. Outros, ainda, com a fita verde, ficavam a aguardar, de “espera”, ou por nova inspecção ou que a situação se resolvesse.
As “sortes” eram, apesar de tudo, uma festa. A Nisa chegava a rapaziada de todo o concelho, em grupos, com um tocador de concertina à frente, seguido da malta com fitas garridas e pandeiretas. Percorriam as ruas da vila, entravam nas tabernas, cantavam e dançavam com uma tal alegria que não adivinhava as horas de incerteza, de perigo e de sofrimento que a muitos aguardava.
A rapaziada de Montalvão, todos de lenço ao pescoço, uniram-se a nós, talvez por serem os mais amigos e juntos fizemos o percurso habitual dando vivas e gritos de contentamento, próprios da juventude.
À noite era o “Baile das Sortes” e a primeira dança era reservada apenas aos “sorteados”. O palco deste acontecimento era a sala ou o quintal do “Benfica”, sempre cheio e a transbordar de gente. Para alguns começava, nessa noite, a sua vida sentimental e aguardavam ali o “Sim ou o “Não” do seu bem-amado, pois havia o uso e o costume de as raparigas começarem a namorar a partir desse dia.
Hoje tudo parece ter mudado e já não se vê a concertina a tocar pelas ruas e a rapaziada também já não vão à tropa. Os nossos pais, esses, deixaram de chorar a nossa “sorte”, a par das raparigas, que agora são elas a pedir namoro aos rapazes.
Recordações de um tempo, de mocidade e em que a juventude dava largas à sua alegria.
António Conicha – Cantinho do Emigrante – Jornal de Nisa – nº 30 – 31 Março de 1999

sábado, 30 de abril de 2016

CANTINHO DO EMIGRANTE: “Eu vi o inimigo...”

 Substituição da bandeira num quartel da Guiné-Bissau (1974)
Eu gostava de dedicar esta crónica, a título de homenagem a todos os ex-combatentes do Ultramar, ao 25 de Abril, à Democracia e a à Liberdade.
Faz agora anos que o paquete “Pátria” desencostou do Cais da Rocha do Conde Óbidos, em Alcântara, com dois batalhões de soldados a bordo e com destino a Angola.
Após onze dias de viagem, começámos a avistar Luanda, onde na barra já nos esperava a fragata “João Belo”, para nos escoltar até ao cais onde desfilámos, à frente de uma enorme multidão, numa grande recepção de brancos e negros, a darem-nos as boas vindas.
Dali fomos direitos ao campo militar do Grafanil, onde nos distribuíram uma arma, um capacete, uma ração de combate e uma tenda para dormir.
Nesse momento confesso que senti os nervos a apoderarem-se do meu corpo, como se fosse o medo que os ratos sentem, quando saem apavorados dos buracos. Nos dias que se seguiram, o Batalhão de Caçadores que nos acompanhou no barco, foi para o norte render o batalhão que terminara a sua comissão militar. Tiveram uma “recepção” horrível e seis baixas numa emboscada.
Entretanto, o meu Batalhão de Cavalaria começava a treinar-se com as forças dos “Comandos”, saltando dos helicópteros e a fazer fogo real.
Notemos que um batalhão tem mais ou menos 750 homens, divididos pelo Comando e quatro companhias de 180 militares, uma delas, a CCS (companhia de comando e serviços) e as restantes operacionais. Por sua vez, cada companhia é subdividida em quatro pelotões de trinta homens e os pelotões são também divididos em secções.
Enfim, um certo dia, chegou a altura de actuarmos no terreno e o meu grupo de combate foi chamado a intervir numa zona que tinha sido atacada. Fomos de helicóptero, depois de o nosso capitão nos dar a “táctica de combate”, dizendo-nos, a finalizar: “Se forem atacados, pensem nestas três coisas: para onde vou, por onde e como, que podem salvar-vos a vida.”
A progressão e a infiltração na mata era lenta e sem barulho, dificultando a penetração. Eram as catanas que iam abrindo os trilhos para passarmos e quando se começou a avistar uma planície, recebemos ordem para descansar junto à orla da mata, para não sermos vistos.


Ali começámos a abrir as caixas da ração de combate e a preparar as “acendalhas” para aquecer as conservas quando se surgiu uma voz: “lá vêm eles a descer o “morro”!.
O meu coração estremeceu, perdendo logo o apetite, enquanto outros começaram a apontar as armas automáticas e a disparar.Nunca tinha visto tanto fogo e apenas para matar três inimigos. Era a “fome” de matar...
Eu vi o inimigo crivado de balas e os “canhangulos” (espingardas) ao seu lado, sem eu ter dado ao gatilho. O que me comoveu mais foi o facto de deixarem lá os corpos, sem os enterrarem. É assim a guerra!...
De regresso à sanzala (aldeia) fomos recebidos e aclamados como heróis, salvadores daquela gente, enquanto no meu coração apenas existia a dor e a tristeza, pensando nas pobres vítimas que lá ficaram...
Termino este capítulo, deixando-vos com esta citação:
“Os grandes heróis não são aqueles que venceram, mas sim aqueles que tombaram no cumprimento de uma missão”Gregório Marañon, 1887-1960 -
António Conixa - in "Jornal de Nisa" - nº 254 –

segunda-feira, 4 de abril de 2016

NISA: A Porta da Vila nos anos 40

A Porta da Vila não está no roteiro da toponímia “republicana” do burgo, mas podia estar. O largo foi desde sempre, o principal ponto de encontro dos nisenses, principalmente da população rural, não só por ser a “linha de fronteira” natural entre a Matriz e o Arrabalde, mas por se situarem aí as principais referências comerciais da vila.
Quase todos os estabelecimentos, grandes ou pequenos que vieram a despontar em Nisa, tiveram a sua rampa de lançamento no designado Largo Serpa Pinto. Depois, conforme o êxito e progresso do negócio foram procurando outras artérias, mais consentâneas com o alargamento do espaço e da oferta de produtos.
Nos anos 40 e até finais dos anos 60 do século passado, muitas foram as firmas comerciais que passaram pela Porta da Vila, dando ao largo um permanente movimento e um frémito de vida que, a partir dos anos 70 se começou a desvanecer.
Ali nasceu, por exemplo e como augúrio de um tempo novo, pós guerra, que não chegou a materializar-se em terras portuguesas, o primeiro café de Nisa. Designava-se “Restauração” e foi inaugurado em 1 de Dezembro de 1945. Ali despontou também a Cervejaria do senhor António Alberto, um “monumento” de simpatia e que muitos nisenses recordam com saudade e uma imagem de carinho e ternura.
No largo e junto à padaria de João Mendes, se iniciaram os protestos sobre o racionamento do pão e que iriam levar a uma onda de repressão que se transformou numa das páginas mais negras da história de Nisa: a greve (ou revolta) do pão, em 12 de Dezembro de 1943.
Ali se realizou, anos depois do 25 de Abril, em 1981, uma grande manifestação, talvez a maior, em Nisa, de gratidão e reconhecimento, com a inauguração do busto ao Dr. António Granja, médico dos pobres e republicano assumido. O largo passou a ostentar, como homenagem, o seu nome
Não tinha muita luz, a Porta da Vila, nesses anos da década de 40. Um candeeiro central, ladeado por lindo canteiro de flores, iluminava, tenuemente, todo o largo, o que conferia ao espaço a imagem de uma praça medieval.
As casas tinham todas moradores, a maior parte residindo por cima dos espaços comerciais que exploravam.
Não havia a “febre automobilística” dos dias de hoje. A Porta da Vila era um lugar de passagem, permanência e convívio. Convívio esse, quase sempre vigiado, principalmente à noite, não se permitindo “ajuntamentos”.
A liberdade de movimentos era vigiada, ainda assim não faltava a alegria e o bulício de uma vila que mostrava alguma expansão e vontade de trilhar um rumo de futuro para os seus filhos.
Hoje, são poucas as lojas da Porta da Vila. As casas, na sua maioria estão fechadas, outras mostram sinais evidentes de desleixo e abandono. Não seria difícil à Câmara, ao abrigo da lei, sensibilizar ao menos os proprietários para que caiassem as frontarias dos prédios e devolvessem ao largo onde “mora” o Dr. Granja um pouco da brancura e alegria que teve noutros tempos.
O principal monumento de Nisa está ali. O espaço contíguo não pode dissociar-se desta realidade. É urgente um novo rosto para a Porta da Vila.
Quem aceita o desafio?
Mário Mendes - 8/11/2010

quinta-feira, 17 de março de 2016

NO RASTO DA MEMÓRIA : Procissões

 Procissão de Penitência há 100 anos
Em 15 de Março de 1907, após três dias de preces ad pedentam pluviam, foi conduzida processionalmente da sua ermida para a Igreja Matriz de Nisa a veneranda imagem de N.ª Srª da Graça.
A cerimónia do encontro da Virgem com a imagem do Divino Crucificado fez-e no local do costume e muito emocionou os milhares de fiéis que a ela assistiram.
Além das Irmandades da Misericórdia, do Santíssimo Sacramento e das Chagas, incorporaram-se na procissão os professores e alunos das escolas oficiais e a filarmónica local.
Às varas do pálio pegaram os srs Dr. Francisco Beato Gomes, Francisco Morais, José Sambado, Joaquim Maria da Piedade, Joaquim Porto Basso e João da Silva Carvalho.
Era ao tempo Vigário da Matriz o Sr. Cónego João Maria Dinis Sampaio que, naquele templo, rematou esta impressionante manifestação de fé com eloquente prédica.
FILARMÓNICA NISENSE
Em 25 de Setembro de 1907, a filarmónica nisense percorreu as ruas da vila tocando o Hino da Carta, para celebrar a vitória das nossas tropas sobre os cuamatas.
In "Correio de Nisa" – nº8 – 9/9/1945
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Desacatos nas Procissões - Aviso do Administrador do Concelho (1906)
 José Julio d´Oliveira, Administrador interino d´este concelho de Niza. Devendo ter logar nas noites de 12 e 13 do corrente, as procissões da Semana Santa, e sendo infelizmente habitual as manifestações de falta de respeito e irreverencia n´estes actos, por parte d´alguns individuos d´onde pode derivar (a continuarem taes abusos) a auctoridade ecclegiastica acabar de vez com as ditas procissões, o que representaria um mal para todos os crentes, respeitadores de taes solennidades; e considerando que quem não respeita as leis ecclegiasticas não acata as leis humanas e sociaes, e quem não acata estas não respeita o seu semelhante perdendo por isso mesmo o direito a ser respeitado; considerando mais que sendo a indole moral do bom povo de Niza apontada como modelo, não a havendo melhor o que se prova pela pequena e pouco importante estatistica criminal, dando-se ainda o facto d´este povo ser religioso sem ser fanático; considerando ainda que no fundo da consciencia moral de cada individuo, por melhor ou peor que seja a sua estatura moral, há um sentimento d´amor instinctivo pela terra que lhe deu o berço, d´onde resulta a saptisfação individual e collectiva pelo bom nome e engrandecimento moral da nossa terra, demais sendo ella não somente villa importante, mas sede de concelho e comarca, faço publico e peço ao povo de Niza cujos cidadãos na sua grande maioria com toda a justiça considerados honestos, cordatos e ordeiros, me auxiliem e aos agentes da auctoridade a manter a ordem e decencia que os actos relogiosos exigem, informando-me com testemunhas, do nome ou nomes dos indivíduos que commetam qualquer desacato a fim de os enviar ao poder judicial, onde receberão para exemplo devido e rigoroso correctivo. E para constar se passou o prezente e identicos que serão lidos à missa conventual da freguezia Matriz e Espírito Santo d´esta villa e em seguida affixados nos logares do costume.

Administração do Concelho de Niza, 7 d´Abril de 1906.

quinta-feira, 10 de março de 2016

CANTINHO DO EMIGRANTE: O Largo do Rossio

 É do tempo que já não volta que eu sinto mais saudades. O tempo da minha infância que me fugiu, abandonando-me, deixando-me com o coração dilacerado. Tempos em que eu recordo aquela terra poeirenta do Rossio, a escola, a fonte ea miudagem nas brincadeiras, alguns deles já falecidos.
Vejo-os de rosto pálido, olhos crispados e pés descalços, não temendo o frio e a chuva daquela terra sagrada, o nosso chão, que foi o nosso “parque de jogos”.
Lembro-me do primeiro dia escolar, da catequese, das récitas que fazíamos no salão paroquial ou no S. Pedro, capela destruída e que não teve a mesma sorte de ser restaurada e salvaguardada, como tantas outras.
O amplo adro ou terreiro, era também um ponto de encontro da pequenada, como o eram o adro da capela do Mártir Santo, entre outros locais da vila, onde jogávamos ao pião, ao pincho, à pata, ou aos botões. Eram os nossos “sítios”, os que faziam parte do nosso mundo, um mundo cheio de fantasia, sem maldade e ignorância. Era a inocência que ali vibrava.
Todos nós tínhamos um ou mais sítios para brincar, mas sem dúvida nenhuma era o Rossio o nosso “universo” escolhido; era ali o nosso jardim onde nós sonhávamos com o mar, com o sol e as estrelas; foi ali que nós começámos a amar a terra que nos viu nascer.
A fonte era o retrato de Nisa do século XX, por isso não podemos ignorar o amor humano de que somos testemunhas, pois acho que não há palavras que nos possam confortar, desta tão grande perda, patrimonial e paisagística.
Era ali, também, que ao raiar da aurora, os homens sem trabalho aguardavam que alguém os procurasse para trabalhar. Foi ali que trocámos os primeiros beijos, inocentes, descobrindo o primeiro amor daquela tenra idade. Foi ali que começámos a avaliar e a imaginar o que seria a nossa vida de adulto.
O Rossio, o nosso largo, é, na realidade, a grande sala de visitas da nossa terra, que noutros tempos desempenhou um papel económico preponderante, com a realização de feiras e mercados.
O grande largo foi também palco de muitas inspirações, emoções, alegrias e tristezas, e para que não seja mais o cenário de desolação para quem nos visita, dêem-lhe o realce que ele merece, para que eu possa fechar com “chave de ouro” as suas memórias, que se foram alterando e transformando o esplendor desta “terra bordada de encantos”.
Voltar às origens da nossa história é quase impossível, mas deixo o alerta, na perspectiva de se poder criar as indispensáveis parcerias com vista a contribuir para o desenvolvimento desta terra da “Corte das Areias” para que ela não sofra consequências dramáticas.
Tem havido um trabalho notável, no que diz respeito ao “espraiar” da vila, com ruas e bairros bem urbanizados, ainda que faltem os nomes às artérias, revelando alguma falta de apreço para com os nisenses ilustres e com o povo que deu tantas glórias a Portugal.
Eu estou consciente de que, quando toda a gente compreender que é a dar as mãos que se constroem as pontes, será então o momento de erigir o Monumento aos Emigrantes e Ausentes, e aí o caso será encerrado.
Sabemos que as imagens valem mais do que as palavras e que Alpalhão é uma terra granítica, onde a rocha-mãe está bem representada, com alguns “mamarrachos” espalhados pela vila, em que a Câmara nada fez para impedir este atentado à arquitectura alpalhoense, assim como também autorizou junto ao Calvário de Amieira, fazendo lembrar a “Ilha da Páscoa”.
Nisa merece um monumento, uma escultura digna, à imagem do seu povo. Seria a melhor forma de homenagear a memória daqueles que já partiram, porque guardar uma herança cultural é conservar as marcas da nossa história.
Por isso, nós não aceitamos “mamarrachos” naquela varanda paisagística virada para o Rossio da nossa infância.
E, se não é pedir muito, acho que seria agora a melhor ocasião para satisfazer a vontade do povo, porque se não o fizerem, virão outros que o farão!
“Prometer e não cumprir, é uma dívida com a consciência”
 António Conicha