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sexta-feira, 22 de abril de 2016

MEMÓRIA DE NISA: A Rua do Convento *

À memória de Isabel da Silva Casaca (Mourata) e de João da Graça Valente
A Rua do Convento foi o nosso primeiro mundo, um palco de aprendizagens, paixões, de todas as descobertas. Foi numa casa em frente à Casa do Povo que os meus pais se fixaram no ano de 1967. Numa época marcada por grandes dificuldades económicas, pela guerra colonial, por uma esperança de liberdade eternamente adiada. A rua funcionava como uma comunidade viva, aberta, dinâmica e acolhedora, fomentava-se a cooperação e a inter – ajuda entre vizinhos.
Na Casa do Povo o movimento era permanente, um entra e sai constante de utentes, médicos e funcionários. A figura mais marcante era o Sr. Aníbal Reizinho com as suas mangas pretas protegendo a camisa, acessório indispensável do funcionário público de então. A sua estatura impunha respeito, mas era sobretudo um homem muito afável, um amigo. A meio da rua, um lagar de azeite causava a natural azáfama sazonal, enquanto a pequenada sobre os carris de ferro brincava aos comboios.
Próximo da Fonte da Pipa, junto de um imenso campo de areia, a oficina de automóveis do Sr. Luís. Nas montanhas de areia, faziam-se buracos, corridas, o que originava muitas cabeças partidas e idas à Casa do Povo para os respectivos curativos. Em frente da oficina, a taberna do Sr. João Serra, peixe frito, ovos cozidos, copos de vinho, tristezas e alegrias. Por ali paravam muitos camionistas para a tão merecida refeição.
De volta à Rua do Convento, a nossa casa era a primeira, o número quatro, seguiam-se as casas do Sr. José Carita, das famílias "São Diogo", "Botas", Poeiras e Caldeira Valente. Do lado esquerdo da rua, a Tá Conceição, a família Bagulho, a Sra. Ana Maria e o Ti "Rei", entre outros. O Bairro da Cevadeira ainda não existia, o acesso à Escola Primária era feito pela Rua do Convento.
 A grande Tapada de oliveiras, que viria a ser o Bairro da Cevadeira era um autêntico campo de batalha onde os rapazes da Vila e os da Fonte da Pipa se degladiavam. No fim do dia de escola um qualquer líder mandava formar as tropas e ao grito de "calhoada" atiravam-se pedras, era preciso expulsar os da vila de um território que era nosso, era vê-los a fugir por entre as vacas do Sr. Moura Gaspar. Uma brincadeira que hoje nos parece tão pouco civilizada mas que na altura no enchia de contentamento.
Na estrada para o Monte Claro, a mercearia da Tá Conceição, cada gelado de groselha custava um escudo; mais para cima, o Ti Júlio canalizador está a chegar da horta, ar pachorrento, passo firme, com o seu fato de macaco azul-escuro, às vezes parecia-nos que o pequeno burro tinha dificuldade em acompanhar a sua vigorosa passada.
Nesses anos a casa do vizinho era uma extensão da nossa própria casa, com o Ti João Valente aprendemos a fazer contas, todos eram especiais. A noite caía sobre o Convento, as televisões são em número muito reduzido, já se ouve a musica que antecipa as aventuras de "Sandokan", corro a bater às portas, em pouco tempo a nossa sala fica apinhada de vizinhos.
E o Convento que deu o nome à rua? Onde estão os seus vestígios?
Diz-nos Motta e Moura na Memória Histórica de Nisa, "…que pensaremos ao avistar o sítio, onde estivera outr’ora um convento com o seu claustro, e cêrca, uma egreja com seu campanário e sinos… e no entanto tudo isto desappareceu sem nos indicar ao menos uma pedra sobre outra, que nos indicasse, onde fora a egreja, onde o convento, onde a cerca e o dormitório! é um campo raso e plano retalhado anualmente pelo arado…assim acontece a mui pequena distância da villa, no sitio chamado vulgarmente o Convento, onde out’rora esteve fundado um pequeno hospício de Frades Agostinhos Descalços, e hoje não há o mais remoto indicio de humana habitação."
Não sabemos o local onde se edificou o Convento. Seria na actual Escola Primária, na própria rua, ou no alto do lagar? Procuro a resposta. Procuro no meu arquivo, mas do escuro não se faz luz. Vou mais fundo, ao arquivo da minha memória, não encontro a porta de entrada. Outubro de 1974, primeiro dia de escola, no pátio as crianças cantam em coro a "Loja do Mestre André", estamos todos contentes. São professores no Convento, o professor Pires Marques, Joaquim Castanho e Lúcia Bicho, dos outros não me recordo.
Mudamos de residência em 1976. A porta fechou-se, não voltámos mais à nossa primeira casa. Tantas vezes tivemos vontade de voltar a entrar, percorrer novamente o quarto onde ouvimos as primeiras histórias para adormecer.
Onde está o Convento? Não existe um vestígio, uma pedra da antiga casa dos Frades Agostinhos Descalços! Não importa onde era. O Convento era a generosidade da vizinha Isabel, são as portas abertas, a escola, a Casa do Povo e as brincadeiras. O Convento somos todos, todos pertencemos à mesma irmandade. À semelhança dos antigos frades, também nós vimos o mesmo céu, pisamos a mesma terra, bebemos a mesma água. Recuo mais para trás, continuo a minha pesquisa, sigo as pegadas dos antigos monges, procuro a porta de entrada, o Convento está por ali.
Sabemos que os monges deixaram Nisa com destino a Portalegre, seguimos o seu caminho. Fomos a Portalegre ao Convento de Santo Agostinho, hoje quartel da Guarda Nacional Republicana. Vamos à procura de algo, de um símbolo, um rasto, um vestígio, uma luz no fundo do túnel. O Convento de Portalegre foi edificado em 1680, uma data que coincide com a data que nos é indicada por Motta e Moura para o abandono do Mosteiro de Nisa. O agente de serviço disponibilizou-se para uma rápida visita, fomos surpreendidos pelo cimento e outras alterações na estrutura. Ninguém sabe a localização da antiga capela, as salas estão agora ocupadas por pneus e automóveis. No corredor encontrámos uma porta adornada por grandes blocos graníticos, do lado de lá uma enorme sala rectangular que só poderá ser o espaço da antiga capela. Mais uma vez o cimento tomou conta do espaço, do piso e das paredes, através das enormes janelas, os raios solares não pedem licença para entrar, iluminam a sala. Por breves momentos consigo ouvir os cânticos dos monges, por ali passaram os antigos Agostinhos Descalços que um dia deixaram Nisa. Nos altos tectos da sala, muito alto, lá no cimo, bem alto, onde o cimento não chegou, vislumbramos uma pintura, já muito gasta, conseguimos ver as cinco quinas portuguesas e a águia de asas abertas, elemento sempre presente no brasão dos frades desta ordem. Não conseguimos visitar o primeiro piso do edifício, tal facto carecia de uma autorização formal da Guarda Nacional.
Estamos de regresso a Nisa, procuramos um vestígio do Convento. A resposta poderá estar na magnífica estrutura da Fonte da Pipa, qual a sua origem?
Sobre a fonte, escreveu Motta e Moura:
"fica mui próxima da villa para parte do occidente, e cuja agua quasi que iguala a da Cruz em bondade e sabor, infelizmente é de tão mingoado nascente, que secca logo nos princípios de Julho, e não torna a correr senão nos fins do Outomno; foi construída pelo alvaneo João Alvares no anno de 1706…".
Sobre o abandono da casa dos monges de Nisa, diz-nos o mesmo autor:
"além de pequena e pobre sempre teve poucos moradores; e foi por isto mesmo, que acabou e foi supprimida no anno de 1680, mandando-se recolher o seu espólio, e gente à de Portalegre, que então se havia concluído com muito esplendor e grandeza."
Se as duas datas apresentadas por Motta e Moura estiverem correctas temos um intervalo de apenas 26 anos entre o abandono do convento e a construção da fonte. A Fonte da Pipa é um dos monumentos mais bonitos de Nisa. Que segredos nos revelam as suas colunas e os seus capitéis? O que nos dizem os símbolos da base da cruz? Poderão estas pedras ter pertencido a um pequeno mosteiro, um convento muito antigo, tão antigo que segundo o cronista desta ordem religiosa terá sido edificado nos primórdios da nacionalidade.
A Fonte da Pipa, que se situa a curta distância da Rua do Convento, é a nossa última pista; é ali que terminam as pegadas, na fonte que mais parece uma ermida. Feita à imagem de um pequeno templo, tem tudo no lugar certo, colunas, tecto ovalizado e a cruz ao cimo.
Na cidade de Portalegre, no Convento de Santo Agostinho, numa sala que fora capela e onde outrora se falou com Deus, em lugar cimeiro e como se de uma estrela se tratasse, fomos encontrar um sinal. Nota-se muito bem, parece uma sombra com rasgos de colorido, o nosso olhar percorreu cada milímetro da pintura. Perante o complexo de riscos adulterados, pareceu-nos ver uma fonte ou seria uma ilusão!
Na nossa opinião a Fonte da Pipa poderá ser uma réplica, um símbolo, uma homenagem, uma memória do próprio convento.
A Fonte e a água. A água da vida. A água que corre da pipa. A Fonte que fora o meu primeiro mundo, o palco das primeiras brincadeiras, era a peça que me faltava. Do escuro já se fez luz. Fecho a porta.
* Luís Mário Correia Bento

quinta-feira, 7 de abril de 2016

NO RASTO DA MEMÓRIA: O Bom Pastor *

Estas palavras são um tributo a todos os pastores. Foram muitos os que passaram pela casa do meu pai e com os quais tive oportunidade de conviver. As primeiras memórias vão para o início dos anos setenta. No Couto da Marfeira onde o meu pai era rendeiro, recordo dois grandes homens no pastoreio do gado. O primeiro é o Ti Zé Barra: O Ti Zé Barra era um homem altivo, não tinha o polegar da mão direita, usava chapéu de aba direita, era mestre no maneio do gado e o melhor na caça com pau. O outro pastor que recordo, primeiro no Azinhal e depois na Marfeira, foi o tio do meu pai, José Bento. A casa da Marfeira utilizada pelos pastores era de uma pobreza franciscana. Uma sala ampla com lareira e os respectivos utensílios; a tenaz, a trempe, panelas de barro, bancas de pau, uma pequena mesa (mesa de pastor) e a lenha ali ao canto do lume. Estacas de madeira espetadas na parede, serviam para pendurar qualquer coisa, o casaco, o barril de barro para manter a água fresca, o machado, etc. Acompanhando as ovelhas de pastagem em pastagem, o pastor era um autêntico nómada.
São também dessa época alguns episódios passados na Herdade da Nave da Cheira, entre Póvoa e Meadas e Castelo de Vide. Aqui a casa tinha outras condições, construída sobre um enorme rochedo de granito, tinha várias divisões e forno. Foi na Nave da Cheira onde os meus avós maternos estiveram a explorar a horta entre 1969 e 1976, sempre na companhia de pastores. Aos Domingos íamos jantar a esta propriedade, para podermos usufruir da sua companhia. O mobiliário era apenas o indispensável. A mesa das refeições era tão pequena que tínhamos de colocar o prato no colo. No canto oposto ao nosso o pastor preparava o seu jantar. Chamava-se José Domingos e era natural de Montalvão. A minha avó convidara-o para jantar connosco, o pastor agradeceu mas manteve-se à distância a preparar a sua refeição. Era muito pequeno, mas ainda hoje recordo aquela imagem, a silhueta do pastor a jantar uma salada de tomate.
Deslocar os animais de um local para outro era um trabalho cansativo mas divertido. Na medida do possível também ajudava nestas mudanças. Íamos a pé de Castelo de Vide para o Pai Lázaro (Montalvão), do Pai Lázaro para o Pinheiro (Pé da Serra), do Pinheiro para a Velada, etc. Posicionava-me à frente do rebanho e o pastor atrás ou vice-versa. No Pinheiro e no Vale Pedrão, as casas eram autênticos palheiros, sem um mínimo de condições. No Pai Lázaro onde a casa era um pouco melhor, os pastores eram por norma de Montalvão. Por ali passaram, entre outros, o Ti João Guanito, o Ti João Pássaro, o Manuel Pintor, o João Manuel e claro o tio do meu pai, José Bento. À noite lá ficavam os pastores junto do lume, com um rádio a pilhas e os seus cães. Não sei se por companhia tinham apenas a solidão, creio que não. Nas noites de céu limpo, eram aos milhões as estrelas que desciam sobre o monte. A sua luz iluminava o sonho do pastor. Quais seriam os seus sonhos? Quais seriam os seus projectos? No fim do dia, lá ia o Ti José Bento passar o serão com o Severino ao Monte Queimado ou ao Monte da Fonte dos Cantos. O Severino era o vizinho mais próximo. Mas para ir do Pai Lázaro ao Monte Queimado não era bem a mesma coisa que ir ali ao fundo da rua. Eram homens rijos, rijos no corpo e fortes no espírito, nada lhes metia medo. O João “Tanganho” é outro pastor que recordo, andava sempre a pé. Vinha a pé do Pai Lázaro para o Pé da Serra, do Rolengo (Nisa) para a Velada. Preferia andar a pé mesmo que lhe oferecessem transporte. O João tinha apenas um braço mas fazia todos os trabalhos relacionados com a sua actividade, o pior era quando se zangava. Às vezes nas mudanças do gado, as ovelhas saiam fora da rota, iam para todo o lado, excepto para onde nós queríamos. Nesses momentos o João gritava a bom gritar e o cão é que “pagava as favas” sem ter qualquer culpa.
Muitos desses pastores já partiram para a sua última morada. Nós na Terra quantas vezes continuamos à procura do Bom Pastor para nos indicar o trilho certo. Há dias sonhei com um pastor que já faleceu. Nos sonhos tudo é possível, não questionamos o que não faz sentido. Nesse sonho uma pessoa que me é próxima encontrava-se com uma doença grave, agonizava na cama sem qualquer esperança de cura. Reparo que no canto do quarto estava um dos pastores. Vou chamar-lhe simplesmente “José”. Dirijo-me a “José” e pergunto-lhe: Como era possível estar ali, dado que falecera há já tantos anos. O bom pastor respondeu-me nesse sonho. – “É verdade que já parti. Parti mas estou sempre presente. Estou aqui para ajudar”.Nos últimos trinta anos os hábitos mudaram, é a evolução natural dos tempos. Não sei se os pastores ainda dormem nos montes. Não sei se ainda se muda gado. Não sei se ainda há pastores. Sei sim que estou grato a todos os bons pastores, pelo privilégio do convívio e pela aprendizagem. Quem sabe se, os que já partiram, não estão a interceder junto das estrelas, de todas as estrelas do céu. Que nas noites de céu limpo desçam até à Terra. Desçam para nos iluminar e para nos mostrar o melhor caminho, a todos, homens e mulheres do mundo. Quem sabe se os sonhos não fazem sentido. Quem sabe se, não continuam a olhar por nós, por todos nós sem distinção. Nós, ovelhas tresmalhadas.
Luís Mário Correia Bento
  • Artigo publicado no "Jornal de Nisa" - 1ª Série

quarta-feira, 9 de março de 2016

SALAVESSA: Histórias da charneca (1)

O filho de Paiva Couceiro
Em 1911 quando a República era ainda uma criança, a tentar dar os primeiros passos, António, um jovem de Lisboa foi incorporado no Exército Português, mas as suas convicções políticas levá-lo-iam a desertar. Nesse mesmo ano, fugiu para Itália. No Verão de 1912 António Augusto encontrava-se em Roma mas as coisas não lhe corriam bem. Gastara quase todo o seu dinheiro e o futuro apresenta-se pouco risonho. Tomou, então a decisão de regressar. Mal tratado, fraco, e desprovido de posses foi com grandes dificuldades que viajou para Portugal. Entrou no país em Novembro de 1912, pelo concelho de Nisa, mais concretamente por terras de Montalvão. Ainda que cansado percebeu que não era chegada a hora de parar. Montalvão era demasiado grande para esconder um fugitivo. Rumou para Oeste, atravessa as charnecas e avistou as casas de uma pequena aldeia, iniciando a descida para a aldeia de Salavessa.
Os habitantes da aldeia recearam, a princípio, esta figura singular. Quem era? De onde vinha? O que pretendia? António Augusto respondeu aos salavessenses: "Chamo-me António Augusto de Jesus e sou filho de Paiva Couceiro". Henrique de Paiva Couceiro nasceu em Lisboa em 1861. Militar, ganhou fama devido aos combates em que esteve envolvido no final do Século XIX em Angola e Moçambique. Acérrimo defensor da Monarquia, bateu-se pela causa Monárquica, após a implantação da república, tendo-se envolvido em várias acções para derrubar o novo regime. O recém-chegado dizia-se filho deste militar sendo o seu nascimento fruto de uma aventura amorosa.
Com o passar do tempo acabou por se integrar na estrutura social da aldeia. António Augusto lança-se no desafio de ensinar às crianças as primeiras letras. Acanhados, os miúdos lá foram aparecendo. Começa com dois, depois mais dois, até que se constitui aquilo a que hoje chamaríamos uma turma. O novo "professor" prepara as crianças para o exame da terceira classe. Carismático, fez sucesso a ensinar.
Tudo parecia correr bem, mas António era um desertor. Em 1915 as autoridades detectam a sua presença e foi preso em Salavessa. A aldeia viveu momentos de choque, não queriam os seus habitantes acreditar que o senhor António Augusto estava a ser levado pela Guarda. As crianças, sem tempo para se despedirem, acompanharam o seu mestre até ao ribeiro de Fiverlo, já no caminho para o Pé da Serra. O professor leva as mãos amarradas, não pode dizer adeus, vira o rosto sobre o ombro e ensaia um último olhar. As crianças permanecem na margem direita do Fiverlo, não arredam pé, continuando no local até que, finalmente, deixam de ouvir o bater dos cascos dos cavalos sobre as pedras do caminho. O seu sonho terminara.
António Augusto de Jesus é julgado e de imediato é deportado para a África Portuguesa. É de África que escreve algumas cartas para Salavessa. Numa das cartas envia uns desenhos. São esboços a carvão. O professor desenhara umas crianças saídas de um quadro que insistira em permanecer na sua mente, a imagem de umas crianças paradas junto às encostas escarpadas do ribeiro de Fiverlo, alunos despedindo-se do mestre.
Em Moçambique, António Augusto cumpriu a sua pena. Na terra onde o pai fora o primeiro, o filho é, agora, um prisioneiro. Mas a história não termina em África. Após cumprir o castigo, António Augusto regressou a Portugal. Ao chegar a Lisboa partiu de imediato. Partiu para o Alentejo, para Nisa, para Salavessa. Foi recebido com alegria e entusiasmo. Apesar de não ser professor oficial, ali permaneceu e ali continuou a fazer o que mais gostava, ensinar crianças e prepará-las para os exames.
Em 1922 o Governo aprovou a construção de uma escola oficial em Salavessa. A nova escola primária ficou pronta e recebeu os primeiros alunos em 1923. Com a escola apareceram os primeiros professores formados e a missão de António Augusto terminou, abandonando definitivamente a aldeia. A partir desta altura afirmaria sempre, no decurso das suas viagens, ser natural de Salavessa, a aldeia que tão bem o acolhera. A aldeia que lhe dera protecção e lhe matara a fome sem olhar ao seu fato roto ou à sua barba esquálida.
Era realmente filho de Paiva Couceiro? Creio que nunca o saberemos. Mas que importa isso. O mais importante foi a formação que proporcionou às crianças, semente lançada à terra, semente do saber e do conhecimento, de importância suprema em todas as sociedades e em todos os tempos. O sonho das crianças não terminou na margem escarpada do ribeiro de Fiverlo. O sonho de saber ler e escrever concretizou-se e serviu de certo modo para contornar obstáculos numa vida de privações.
Quem mo disse foi uma criança. Uma criança de noventa anos. Uma criança que assistiu à sua captura. Acompanhou o professor até onde foi possível, até à velha ponte. Ali permaneceu até ao anoitecer. Até deixar de ouvir o bater dos cascos dos cavalos sobre as pedras do caminho. Quem mo disse esteve lá. Disse-lhe adeus. Ali, no caminho de Salavessa para o Pé da Serra. Em cima do velho pontão do Fiverlo trocaram o que pensaram ser o último olhar. Naquele momento a velha ponte foi fronteira de separação, para o aluno entre o sonho e a realidade, para o mestre entre o cárcere e a liberdade.
* Luís Mário Bento- in "Jornal de Nisa"