quinta-feira, 17 de março de 2016

VIDAS: "Ti Chocolate" - Uma vida de Emigrante

António Dinis Curado, o "ti Chocolate", tem 80 anos e emigrou para França em 1964, na companhia de três dezenas de nisenses, sendo Azay le Rideau, a vila de acolhimento. Começou a trabalhar na empresa CIBEM, uma fábrica de embalagens de cartão e madeira, onde se manteve até passar à situação de reforma.
António Curado conta que foi o primeiro nisense, na companhia do ti Zé Batata, a trabalhar naquela unidade fabril, não podendo esconder o orgulho de lá ter empregado vários conterrâneos nossos, pois aqueles que iam chegando, ele "empurrava-os" para lá, dando boas informações ao director.
Esta fábrica, juntamente com a Michelin, foi como que uma "segunda mãe" para o povo de Nisa e arredores que vieram para França, porque deu o pão a ganhar, a mais de cinquenta famílias da nossa terra.
Foi "a salto", como a maior parte naquele tempo, que o "ti Chocolate" demandou terras gaulesas. Um numeroso grupo partiu de Nisa e demorou oito dias a chegar ao destino, tendo estado durante três dias, escondidos num curral de cabras, nos Pirinéus espanhóis, com o medo dos carabineiros.
Já sem solas nos sapatos, conta, o "passador" foi-lhe comprar umas alpergatas de pano, a uma aldeia próxima.
Chegou a França à estação ferroviária de Tours, apenas com um envelope e um endereço, sem saber uma única palavra, em francês, e foi a Polícia, ali permanente à espera dos emigrantes, que o foram levar ao destino, neste caso, a casa do meu tio "Louro Conicha", em Sorigny, e que já estava em França desde 1955.
António Curado diz que se fosse agora, não o fazia, mas "não estou arrependido, porque consegui cá, o que não conseguiria em Portugal".
Assim fala a generalidade dos emigrantes, porque conseguiram arranjar dinheiro para uma casinha, o seu principal sonho, quando partiram para terras de França.
O "ti Chocolate" não esquece os tempos de miséria, em que a vida teimava em não lhe sorrir, como pedreiro de profissão e lembra a "Greve do Pão" em Nisa (1943), em que cada família só tinha direito a um quarto de pão para fazer face a tantas bocas.
Em França, também assistiu ao Maio de 68, às greves de estudantes e de outros sectores de actividade, que paralisaram o país durante um mês, assim como outros importantes acontecimentos.
Agora desfruta o "repouso do guerreiro", o tempo de reforma, repartido entre o convívio da família, o trabalho na horta e a confraternização com alguns nisenses que encontra em Azay.
Não deixa de recordar os primeiros anos em França e a saga da emigração portuguesa, em que, diz, "havia mais amizades e convívio entre os emigrantes".
Não dispensa uma ida a Portugal, todos os anos, para "matar saudades, ver a família, os amigos e a "malta" da sua idade", para além de ir até à praia na Caparica, onde tem um apartamento.
Apesar da saudade, António Curado não pensa regressar, em definitivo, a Portugal, pois "sofro do mal de todos os nisenses, já cá tenho raízes e a mulher está muito doente e não pode viajar. Por isso, fico por cá."
A finalizar, António Curado, faz votos de saúde para todos os nisenses e que o Governo "possa alterar, para melhor, o sistema de saúde em Portugal".
Este é, dizemo-lo nós, o principal óbice ao regresso, definitivo, de muitos conterrâneos nossos, no estrangeiro.
In "Jornal de Nisa" - 2008

NO RASTO DA MEMÓRIA : Procissões

 Procissão de Penitência há 100 anos
Em 15 de Março de 1907, após três dias de preces ad pedentam pluviam, foi conduzida processionalmente da sua ermida para a Igreja Matriz de Nisa a veneranda imagem de N.ª Srª da Graça.
A cerimónia do encontro da Virgem com a imagem do Divino Crucificado fez-e no local do costume e muito emocionou os milhares de fiéis que a ela assistiram.
Além das Irmandades da Misericórdia, do Santíssimo Sacramento e das Chagas, incorporaram-se na procissão os professores e alunos das escolas oficiais e a filarmónica local.
Às varas do pálio pegaram os srs Dr. Francisco Beato Gomes, Francisco Morais, José Sambado, Joaquim Maria da Piedade, Joaquim Porto Basso e João da Silva Carvalho.
Era ao tempo Vigário da Matriz o Sr. Cónego João Maria Dinis Sampaio que, naquele templo, rematou esta impressionante manifestação de fé com eloquente prédica.
FILARMÓNICA NISENSE
Em 25 de Setembro de 1907, a filarmónica nisense percorreu as ruas da vila tocando o Hino da Carta, para celebrar a vitória das nossas tropas sobre os cuamatas.
In "Correio de Nisa" – nº8 – 9/9/1945
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Desacatos nas Procissões - Aviso do Administrador do Concelho (1906)
 José Julio d´Oliveira, Administrador interino d´este concelho de Niza. Devendo ter logar nas noites de 12 e 13 do corrente, as procissões da Semana Santa, e sendo infelizmente habitual as manifestações de falta de respeito e irreverencia n´estes actos, por parte d´alguns individuos d´onde pode derivar (a continuarem taes abusos) a auctoridade ecclegiastica acabar de vez com as ditas procissões, o que representaria um mal para todos os crentes, respeitadores de taes solennidades; e considerando que quem não respeita as leis ecclegiasticas não acata as leis humanas e sociaes, e quem não acata estas não respeita o seu semelhante perdendo por isso mesmo o direito a ser respeitado; considerando mais que sendo a indole moral do bom povo de Niza apontada como modelo, não a havendo melhor o que se prova pela pequena e pouco importante estatistica criminal, dando-se ainda o facto d´este povo ser religioso sem ser fanático; considerando ainda que no fundo da consciencia moral de cada individuo, por melhor ou peor que seja a sua estatura moral, há um sentimento d´amor instinctivo pela terra que lhe deu o berço, d´onde resulta a saptisfação individual e collectiva pelo bom nome e engrandecimento moral da nossa terra, demais sendo ella não somente villa importante, mas sede de concelho e comarca, faço publico e peço ao povo de Niza cujos cidadãos na sua grande maioria com toda a justiça considerados honestos, cordatos e ordeiros, me auxiliem e aos agentes da auctoridade a manter a ordem e decencia que os actos relogiosos exigem, informando-me com testemunhas, do nome ou nomes dos indivíduos que commetam qualquer desacato a fim de os enviar ao poder judicial, onde receberão para exemplo devido e rigoroso correctivo. E para constar se passou o prezente e identicos que serão lidos à missa conventual da freguezia Matriz e Espírito Santo d´esta villa e em seguida affixados nos logares do costume.

Administração do Concelho de Niza, 7 d´Abril de 1906.

terça-feira, 15 de março de 2016

VIDAS - João Maria Sales: 30 Anos de Oleiro

João Maria Sales, 83 anos de vida, completos, no passado dia 18 de Dezembro, teve uma infância dura e feliz, como a de todos os rapazes do seu tempo. Trabalhou no campo, mas foi a dar força e jeito à roda que se fez oleiro e artista. A memória, ainda fresca, vai desfiando, sem pressas, os fios de uma vida: a de um oleiro por força da necessidade.
"A minha infância foi como a de quase toda a malta daquele tempo. Nasci em 1924 e andei à escola e quando de lá saí fui podar parreiras ou colher azeitona, trabalhos do campo. O meu irmão Manuel era oleiro e aprendeu com o ti Zé Batata, o das bicicletas. Eu tinha para aí uns 13 anos quando comecei a aprender a arte com o meu irmão, até ele ir para a tropa e quando ele foi para a vida militar, eu fui trabalhar com o ti Joaquim Maria da Piedade (Batata).
Comecei a aprender num quintal pequeno que havia na travessa Lourenço Dinis e do qual pagávamos uma renda e depois mudámos para a rua Júlio Basso, onde está agora a Tipografia Nisense.
O meu irmão entretanto casou e voltei para a travessa Lourenço Dinis e ia cozer a louça ao forno da Devesa do ti António Maria da Piedade.
Casei e fui para a rua de Angola, montei ali a oficina. Acabei por comprar um bocadito de terra e fiz lá o forno para não andar às "atenças" dos outros. Mais tarde fiz o casão para a oficina."
João Sales foi oleiro durante mais de trinta anos, uma actividade exercida por muita gente em Nisa. Fabricava louça com uma função marcadamente utilitária, um trabalho que ocupava apenas uma parte do ano.
"A olaria foi sempre uma actividade sazonal, desde Março a Outubro, que era quando a loiça dava alguma coisa. No Inverno, andávamos à azeitona e noutros serviços que apareciam.
Assim fui andando até que aos 45 anos fui operado a uma úlcera. Fui mal operado, pois deixaram-me cá uma compressa e fui de urgência para Lisboa. Lembro-me bem da partida aqui de Nisa, no dia de Natal à tardinha, a caminho do Curry Cabral, onde fui operado no dia 21 de Janeiro de 1969.
Abriram-me três vezes e depois proibiram-me de fazer louça por causa do esforço. Andei sempre com uma cinta elástica durante oito anos.
Montei então uma salsicharia na Vila, artesanal, na rua de Angola. Matava um porquinho por semana e assim me ia governando. A carne era vendida na pequena loja e tínhamos bons clientes e certos. A carne (enchidos) era feita à moda cá de Nisa e tudo corria mais ou menos até que apareceu a doença da minha mulher. Foi operada há 18 anos, mas apenas durou 6 meses. Estávamos reformados os dois por invalidez, mas já não cheguei a receber nada da pensão dela, cortaram-me, porque saiu uma lei."
Ti João Sales parece um homem de poucas palavras. A angústia e a solidão, não lhe tolheram, todavia, o raciocínio e a memória. Gosta de falar da vida, activa, de outros tempos, mas é sobre a olaria e os oleiros, essa arte tradicional, que queremos ouvi-lo. 
"Na década de 60 havia pelo menos, em Nisa, nove ou dez olarias. Só no Verão é que se fazia muita louça para vender nas estações dos caminhos de ferro. Os oleiros de Nisa eram também conhecidos por isso. Onde houvesse uma estação, lá estava alguém de Nisa a vender a louça. Eu cheguei a vender em Monfortinho, Castelo Branco, Sarnadas, Vila Velha, Ortiga, Belver, Fratel. Eu tinha uns fregueses na Fonte da Mealhada em Castelo de Vide que vendiam louça às pessoas que iam às Termas. Vendíamos também nas nossas feiras, em Nisa e no concelho, pois nas feiras fora de Nisa não podíamos vender, e vinham dois oleiros de Portalegre buscar peças para venderem nas feiras."
Sobre o funcionamento das oficinas de olaria e particularmente da sua, João Sales explica como funcionavam.
"Cada oficina tinha em média 5 ou 6 raparigas, dos 11 aos 20 anos. Saíam da escola e iam para as oficinas para fugirem ao campo. Ganhavam à peça, as mais pequenas eram pagas a 3 tostões, as maiores chegavam aos dez tostões e o pote podia render-lhes 25 tostões ou três escudos, conforme. Isto eram preços do princípio da década de 60."
Quem vê uma peça de barro, típica da olaria nisense, pode imaginar o trabalho do oleiro, movendo a roda e dando formas a uma massa disforme até ganhar a consistência de um objecto. O mesmo acontece com o trabalho das pedradeiras, todo ele feito de minúcia e atenção. Mas, certamente, muitos ignorarão a "outra parte", a menos visível desta arte: a do arrancar do barro e das pedras e o seu transporte.
"O barro vinha das Estibas, o barro branco, e da Maria Dias, do terreno do sr. José Vieira (Visconde). Não pagávamos nada pelo barro e o senhor Visconde apenas recebia em troca algumas peças, principalmente barris para as ceifas e alguns potes. Era preciso cavá-lo ao barro e para isso levávamos alguns homens. O barro estava a mais de um metro de profundidade e depois alugávamos uma camioneta de aluguer para o ir buscar. O cascalho branco íamos buscá-lo à Serra de S. Miguel e a outros sítios. O cascalho tinha de ser bem cozido para se poder partir mais facilmente."
O trabalho na oficina
"Na oficina era o mestre e era eu que ensinava a riscar (fazer os desenhos). Os desenhos eram tirados da nossa cabeça. Na "força maior", ou seja, quando havia muitos oleiros, o pedrado era "grosso". Mais tarde o meu irmão é que começou com o pedrado mais fino, devido a uma encomenda do Palácio Foz e do SNI (NR - Secretariado Nacional de Informação).
Essa louça ia para as exposições internacionais por intermédio da Drª Margarida Ribeiro, uma grande estudiosa e defensora da olaria de Nisa. Entretanto o meu irmão emigrou para a Alemanha e deixou-me os desenhos e as encomendas para eu fazer."
O ti João Sales quase estremece quando lhe perguntamos se a vida de oleiro era uma actividade bastante rentável.
"Trabalhei dos 13 aos 45 anos na arte e nunca tirei grandes proventos, era só para me governar e irmos passando a vida. No Verão, os barris para as estações eram o "forte". Era louça lisa para a casa, potes lisos, cântaros com asa para as ceifas, enfusas para as milharadas (meio cântaro), os barris para as carrêtas com duas asas e os barris "espanhóis", com quatro asas, nas quais se podia enfiar um cordel para ser transportado às costas."
As origens da olaria tradicional de Nisa estão por estudar e definir. O nosso entrevistado não duvida de que é muito antiga e avança com alguns elementos.
"Na casa onde eu morei, na Rua Angola, viveu um oleiro muito antigo, o ti João Charrinho. Era um homem que ia vender a louças com as "bestas de aparelho", com as alcofas cheias de louça; havia um outro na rua de São Tiago, o ti Zé dos Remédios, que era onde o ti João Negrito e o irmão Afonso iam cozer a louça."
A olaria de Nisa é muito antiga, vem do tempo dos reis e é uma tradição que temos". A nossa louça, o nosso barro, fazia a água fresca e por isso era muito procurada, num tempo em que não havia frigoríficos."
As figuras, as pedras, os desenhos, da olaria pedrada chamam a atenção pela sua originalidade.
Uma tradição que temos. Uma tradição para defender e preservar, ou que, pelo contrário, correrá o risco de desaparecer. Oleiro durante 30 anos, João Sales não tem dúvidas a esse respeito.
"Não vejo aprendiz nenhum. No meu tempo nunca tivemos qualquer apoio das entidades, era até a indústria mais cara que cá tínhamos. Era esse o "favor" que havia da Câmara. Fizeram um forno no Hospital Velho, uma Escola, mas nada se aproveitou, foi só estragar dinheiro para nada.
Eu acho que esta decadência da olaria começou quando nos exigiram que se pagasse aos aprendizes assim que entravam. Eu andei três anos como aprendiz ( o aprendiz dava quatro anos ao mestre), não ganhava nada e só no último ano é que os mestres davam uma gorjeta nos Domingos, aos aprendizes, porque nós já fazíamos louça. Tenho muita pena disto, mas a olaria de Nisa vai morrer."
Mário Mendes in "Fonte Nova"

segunda-feira, 14 de março de 2016

MEMÓRIA: Há 70 anos era inaugurado o busto ao Dr. Francisco Miguéns

Foi há 70 anos, a 27 de Maio de 1945. Em Portugal e na Europa raiava um sol brilhante e promissor, o céu tingia-se de um azul de esperança, prenunciando o fim da 2ª Guerra Mundial.
Em Nisa, no Jardim Municipal, era inaugurado um busto de homenagem e reconhecimento ao Dr. Francisco Miguéns, pelo trabalho desenvolvido enquanto médico municipal.
O busto foi erguido após subscrição pública sob a iniciativa de alguns homens bons de Nisa, entre estes, o professor José Francisco Figueiredo, que a propósito editou uma pequena brochura intitulada "O Monumento" na qual faz a evocação do ilustre médico nisense e recorda os passos dados para a concretização da iniciativa.
Não por acaso e fruto de idênticas circunstâncias - o reconhecimento pelas qualidades profissionais e humanas, e dedicação à causa pública - trinta e seis anos mais tarde, em Agosto de 1981, outro médico, o Dr. António Granja, foi alvo de impressionante manifestação de júbilo e agradecimento por parte da população do concelho, na presença do Presidente da República, Ramalho Eanes, que inaugurou o busto implantado no coração da Porta da Vila, largo que passou a ostentar o nome do ilustre clínico.  
Uma vida ao serviço da comunidade
O doutor Francisco da Graça Miguéns, médico notável e bondoso, nasceu em Nisa, a 2 de Abril de 1854, filho de Brás Miguéns Beato e de Maria da Cruz. Exerceu durante 34 anos com grande amor, sentido profissional e exemplar dedicação à sua terra e às populações do concelho, o cargo de médico municipal.
Frequentou o Liceu de Santarém onde se revelou como um aluno brilhante. Formou-se em Medicina e Filosofia na Universidade de Coimbra, tendo conquistado diversos prémios e distinções. Após a obtenção do seu diploma universitário, foi convidado pelo Corpo Docente da Universidade para prosseguir como professor de Medicina naquele prestigiado estabelecimento de ensino, convite que declinou, tendo preferido voltar à sua terra, sendo nomeado médico municipal a 11 de Agosto de 1880, tomando posse do cargo nesse mesmo dia.
Desde Agosto de 1880 e durante 34 anos, o doutor Francisco da Graça Miguéns, trabalhou com desvelo, bondade e abnegação, mostrando sempre a mesma disponibilidade para tratar dos seus conterrâneos e acudindo a todas as situações para que fosse solicitado, tanto de dia como de noite.
Tendo em conta os serviços relevantes prestados ao concelho, a Câmara Municipal decidiu, em 24 de Julho de 1919, atribuir o nome do ilustre médico e benemérito à antiga Rua Direita e colocar o seu retrato no salão nobre dos Paços do Concelho, de onde foi retirado por expressa solicitação do próprio clínico.
Vítima de doença, faleceu a 10 de Outubro de 1933.
 Dr. Francisco da Graça Miguéns
Viveu a sua vida socegada,
Entregue ao bem e ao culto da sciência,
E quando a morte veiu, - a consciência
Tinha a pureza e a luz de uma alvorada.

Sua alma foi, na terra, a enamorada
De tudo o que há de belo na existência,
Tudo o que, pela forma ou pela essência,
Do Ideal atinge a r´gião imaculada.

E sempre em torno dele, suavemente,
Um murmúrio de prece esvoaçou:
- Era o coro de bênçãos, puro e ardente,

De tantas criancinhas que afagou,
De tanto pobrezinho e tanto doente
Que o seu coração de oiro consolou.
12/10/1933Dias Loução

quinta-feira, 10 de março de 2016

CANTINHO DO EMIGRANTE: O Largo do Rossio

 É do tempo que já não volta que eu sinto mais saudades. O tempo da minha infância que me fugiu, abandonando-me, deixando-me com o coração dilacerado. Tempos em que eu recordo aquela terra poeirenta do Rossio, a escola, a fonte ea miudagem nas brincadeiras, alguns deles já falecidos.
Vejo-os de rosto pálido, olhos crispados e pés descalços, não temendo o frio e a chuva daquela terra sagrada, o nosso chão, que foi o nosso “parque de jogos”.
Lembro-me do primeiro dia escolar, da catequese, das récitas que fazíamos no salão paroquial ou no S. Pedro, capela destruída e que não teve a mesma sorte de ser restaurada e salvaguardada, como tantas outras.
O amplo adro ou terreiro, era também um ponto de encontro da pequenada, como o eram o adro da capela do Mártir Santo, entre outros locais da vila, onde jogávamos ao pião, ao pincho, à pata, ou aos botões. Eram os nossos “sítios”, os que faziam parte do nosso mundo, um mundo cheio de fantasia, sem maldade e ignorância. Era a inocência que ali vibrava.
Todos nós tínhamos um ou mais sítios para brincar, mas sem dúvida nenhuma era o Rossio o nosso “universo” escolhido; era ali o nosso jardim onde nós sonhávamos com o mar, com o sol e as estrelas; foi ali que nós começámos a amar a terra que nos viu nascer.
A fonte era o retrato de Nisa do século XX, por isso não podemos ignorar o amor humano de que somos testemunhas, pois acho que não há palavras que nos possam confortar, desta tão grande perda, patrimonial e paisagística.
Era ali, também, que ao raiar da aurora, os homens sem trabalho aguardavam que alguém os procurasse para trabalhar. Foi ali que trocámos os primeiros beijos, inocentes, descobrindo o primeiro amor daquela tenra idade. Foi ali que começámos a avaliar e a imaginar o que seria a nossa vida de adulto.
O Rossio, o nosso largo, é, na realidade, a grande sala de visitas da nossa terra, que noutros tempos desempenhou um papel económico preponderante, com a realização de feiras e mercados.
O grande largo foi também palco de muitas inspirações, emoções, alegrias e tristezas, e para que não seja mais o cenário de desolação para quem nos visita, dêem-lhe o realce que ele merece, para que eu possa fechar com “chave de ouro” as suas memórias, que se foram alterando e transformando o esplendor desta “terra bordada de encantos”.
Voltar às origens da nossa história é quase impossível, mas deixo o alerta, na perspectiva de se poder criar as indispensáveis parcerias com vista a contribuir para o desenvolvimento desta terra da “Corte das Areias” para que ela não sofra consequências dramáticas.
Tem havido um trabalho notável, no que diz respeito ao “espraiar” da vila, com ruas e bairros bem urbanizados, ainda que faltem os nomes às artérias, revelando alguma falta de apreço para com os nisenses ilustres e com o povo que deu tantas glórias a Portugal.
Eu estou consciente de que, quando toda a gente compreender que é a dar as mãos que se constroem as pontes, será então o momento de erigir o Monumento aos Emigrantes e Ausentes, e aí o caso será encerrado.
Sabemos que as imagens valem mais do que as palavras e que Alpalhão é uma terra granítica, onde a rocha-mãe está bem representada, com alguns “mamarrachos” espalhados pela vila, em que a Câmara nada fez para impedir este atentado à arquitectura alpalhoense, assim como também autorizou junto ao Calvário de Amieira, fazendo lembrar a “Ilha da Páscoa”.
Nisa merece um monumento, uma escultura digna, à imagem do seu povo. Seria a melhor forma de homenagear a memória daqueles que já partiram, porque guardar uma herança cultural é conservar as marcas da nossa história.
Por isso, nós não aceitamos “mamarrachos” naquela varanda paisagística virada para o Rossio da nossa infância.
E, se não é pedir muito, acho que seria agora a melhor ocasião para satisfazer a vontade do povo, porque se não o fizerem, virão outros que o farão!
“Prometer e não cumprir, é uma dívida com a consciência”
 António Conicha

quarta-feira, 9 de março de 2016

SALAVESSA: Histórias da charneca (1)

O filho de Paiva Couceiro
Em 1911 quando a República era ainda uma criança, a tentar dar os primeiros passos, António, um jovem de Lisboa foi incorporado no Exército Português, mas as suas convicções políticas levá-lo-iam a desertar. Nesse mesmo ano, fugiu para Itália. No Verão de 1912 António Augusto encontrava-se em Roma mas as coisas não lhe corriam bem. Gastara quase todo o seu dinheiro e o futuro apresenta-se pouco risonho. Tomou, então a decisão de regressar. Mal tratado, fraco, e desprovido de posses foi com grandes dificuldades que viajou para Portugal. Entrou no país em Novembro de 1912, pelo concelho de Nisa, mais concretamente por terras de Montalvão. Ainda que cansado percebeu que não era chegada a hora de parar. Montalvão era demasiado grande para esconder um fugitivo. Rumou para Oeste, atravessa as charnecas e avistou as casas de uma pequena aldeia, iniciando a descida para a aldeia de Salavessa.
Os habitantes da aldeia recearam, a princípio, esta figura singular. Quem era? De onde vinha? O que pretendia? António Augusto respondeu aos salavessenses: "Chamo-me António Augusto de Jesus e sou filho de Paiva Couceiro". Henrique de Paiva Couceiro nasceu em Lisboa em 1861. Militar, ganhou fama devido aos combates em que esteve envolvido no final do Século XIX em Angola e Moçambique. Acérrimo defensor da Monarquia, bateu-se pela causa Monárquica, após a implantação da república, tendo-se envolvido em várias acções para derrubar o novo regime. O recém-chegado dizia-se filho deste militar sendo o seu nascimento fruto de uma aventura amorosa.
Com o passar do tempo acabou por se integrar na estrutura social da aldeia. António Augusto lança-se no desafio de ensinar às crianças as primeiras letras. Acanhados, os miúdos lá foram aparecendo. Começa com dois, depois mais dois, até que se constitui aquilo a que hoje chamaríamos uma turma. O novo "professor" prepara as crianças para o exame da terceira classe. Carismático, fez sucesso a ensinar.
Tudo parecia correr bem, mas António era um desertor. Em 1915 as autoridades detectam a sua presença e foi preso em Salavessa. A aldeia viveu momentos de choque, não queriam os seus habitantes acreditar que o senhor António Augusto estava a ser levado pela Guarda. As crianças, sem tempo para se despedirem, acompanharam o seu mestre até ao ribeiro de Fiverlo, já no caminho para o Pé da Serra. O professor leva as mãos amarradas, não pode dizer adeus, vira o rosto sobre o ombro e ensaia um último olhar. As crianças permanecem na margem direita do Fiverlo, não arredam pé, continuando no local até que, finalmente, deixam de ouvir o bater dos cascos dos cavalos sobre as pedras do caminho. O seu sonho terminara.
António Augusto de Jesus é julgado e de imediato é deportado para a África Portuguesa. É de África que escreve algumas cartas para Salavessa. Numa das cartas envia uns desenhos. São esboços a carvão. O professor desenhara umas crianças saídas de um quadro que insistira em permanecer na sua mente, a imagem de umas crianças paradas junto às encostas escarpadas do ribeiro de Fiverlo, alunos despedindo-se do mestre.
Em Moçambique, António Augusto cumpriu a sua pena. Na terra onde o pai fora o primeiro, o filho é, agora, um prisioneiro. Mas a história não termina em África. Após cumprir o castigo, António Augusto regressou a Portugal. Ao chegar a Lisboa partiu de imediato. Partiu para o Alentejo, para Nisa, para Salavessa. Foi recebido com alegria e entusiasmo. Apesar de não ser professor oficial, ali permaneceu e ali continuou a fazer o que mais gostava, ensinar crianças e prepará-las para os exames.
Em 1922 o Governo aprovou a construção de uma escola oficial em Salavessa. A nova escola primária ficou pronta e recebeu os primeiros alunos em 1923. Com a escola apareceram os primeiros professores formados e a missão de António Augusto terminou, abandonando definitivamente a aldeia. A partir desta altura afirmaria sempre, no decurso das suas viagens, ser natural de Salavessa, a aldeia que tão bem o acolhera. A aldeia que lhe dera protecção e lhe matara a fome sem olhar ao seu fato roto ou à sua barba esquálida.
Era realmente filho de Paiva Couceiro? Creio que nunca o saberemos. Mas que importa isso. O mais importante foi a formação que proporcionou às crianças, semente lançada à terra, semente do saber e do conhecimento, de importância suprema em todas as sociedades e em todos os tempos. O sonho das crianças não terminou na margem escarpada do ribeiro de Fiverlo. O sonho de saber ler e escrever concretizou-se e serviu de certo modo para contornar obstáculos numa vida de privações.
Quem mo disse foi uma criança. Uma criança de noventa anos. Uma criança que assistiu à sua captura. Acompanhou o professor até onde foi possível, até à velha ponte. Ali permaneceu até ao anoitecer. Até deixar de ouvir o bater dos cascos dos cavalos sobre as pedras do caminho. Quem mo disse esteve lá. Disse-lhe adeus. Ali, no caminho de Salavessa para o Pé da Serra. Em cima do velho pontão do Fiverlo trocaram o que pensaram ser o último olhar. Naquele momento a velha ponte foi fronteira de separação, para o aluno entre o sonho e a realidade, para o mestre entre o cárcere e a liberdade.
* Luís Mário Bento- in "Jornal de Nisa"

Casais nisenses celebram bodas de ouro matrimoniais

Casal nisense celebra 60 anos de matrimónio
Foi uma festa singela e bonita, aquela que juntou, no passado dia 16 de Agosto, os familiares do senhor José do Rosário Matias (popularmente conhecido em Nisa por Pique-Pique), 83 anos e da senhora Ana da Cruz Maia, 80 anos.
No mesmo data, mas há 60 anos atrás, José e Ana uniram-se pelos laços do matrimónio e passaram a constituir um casal.
Trabalhador do campo, José do Rosário Matias, tomou o caminho de tantos conterrâneos e demandou terras de França, país onde trabalhou até se reformar e onde está hoje grande parte da sua família.
José do Rosário Matias e Ana da Cruz Maia, não vão esquecer tão cedo esta festa, a demonstrar que o amor não conhece idades e perdura pela vida fora, quando são puros e leais os sentimentos.
Parabéns!

Bodas de Ouro matrimoniais
Completaram no passado dia 8 de Agosto, 50 Anos de vida em comum, o casal nisense formado pela senhora Catarina da Graça Temudo Louro Mousinho e o senhor José da Cruz Mousinho.
A comemoração das Bodas de Ouro Matrimoniais decorreram na Capelinha das Aparições, em Fátima, sendo a cerimónia religiosa desse horário (10,30h) especialmente dedicada ao “jovem” casal, alvo de manifestações de carinho e de amizade, por parte dos familiares e amigos que de Nisa e outros pontos do país se deslocaram, para o efeito, a Fátima.
Mais tarde, numa das unidades hoteleiras da cidade, teve lugar um almoço de confraternização e de celebração, no qual foi partido e repartido o bolo das Bodas de Ouro, tendo os convidados cantado, com redobrada alegria, os Parabéns a Você e formulado votos de muita saúde e felicidade pela vida fora.
Aos primos, Catarina e José Mousinho, que sei apreciarem a discrição, preparei esta pequena surpresa. Não esqueço os anos da Guiné, o apoio e a amizade que sempre tive naquele lar, simples e modesto, mas repleto de fraternidade e alegria.
Parabéns e que pela vida fora encontrem novos motivos para prolongar a felicidade que irradiam.
Agosto de 2007