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quinta-feira, 28 de julho de 2016

CERENISA- Centro de Reabilitação Física de Nisa

20 anos a promover a saúde da população
A Cerenisa – Centro de Reabilitação Física de Nisa, completou 20 anos de actividade em prol da saúde da população do concelho. Paulo Bagulho, sócio-gerente e um dos fundadores da empresa traça-nos aqui o percurso destes 20 anos de existência.
Como e quando nasceu a Cerenisa e quais os seus objectivos?
“ A Cerenisa foi criada em 29 de Setembro de 1988, tendo como sócios-fundadores Paulo Bagulho e Alexandrino Pereira, que sairia três anos mais tarde.
O início da actividade teve lugar no Terreiro da Devesa, no consultório do Dr. Vinagre e os objectivos eram os da prestação de serviços na área da medicina física e reabilitação. O ano seguinte (1989) marca o futuro do Centro de Reabilitação com a ligação ao projecto termal por convite do então presidente da Câmara, dr. José Manuel Basso.
A Cerenisa coloca no balneário todo o equipamento terapêutico, desde os calores húmidos ao equipamento de electroterapia e de ginásio, ao serviço do prof. Ramiro Valentim que se encontrava a fazer o estudo médico hidrológico da água das termas de Nisa.”
Como é que evoluiu a empresa?“Em 1990, mudámos de sede social, para as actuais instalações na Rua Júlio Basso nº 25, uma alteração da sede eu nos trouxe alguma melhoria, em espaço e na localização, o que possibilitou o alargamento dos serviços prestados, desde consultórios médicos com várias especialidades, análises clínicas e electrocardiogramas, para além do serviço de medicina física e reabilitação.”
Como é que aparece a ligação à Etaproni?
“A ligação aparece em 1992, altura em que a Cerenisa participa activamente na elaboração do plano curricular do 1º Curso de Termalismo (nível II) desta Escola, que decorreu até 1996, sendo o curso responsável pela formação de toda a equipa de operadores de termalismo que viria a assegurar a execução dos tratamentos termais até à presente data.
Mais tarde, entre 1996 e 1999, a Cerenisa é responsável pela prestação de serviços na área da balneoterapia, enfermagem, recepção e fisioterapia do balneário termal da Fadagosa de Nisa. Em 1996, temos ao serviço, 10 operadores de termalismo, 2 enfermeiros, 3 recepcionistas para a época termal.
No ano seguinte e com a criação da Ternisa E.M., participamos no capital desta empresa municipal, com uma quota de 15%, que ainda mantenho., ficando ligado ao projecto termal.
Em 2005, a Etaproni e mais duas escolas profissionais (Chaves e S. Pedro do Sul) lança um novo concurso de Termalismo (nível III) que vem a ser o primeiro em todo o país. Participamos activamente na elaboração do mesmo, sendo, logo de seguida, escolhida como local de trabalho escolar e campo de estágio, para muitos dos alunos, consecutivamente, nas vertentes da massagem manual, cinésioterapia e electroterapia.”
A nível de serviços, o que é que a Cerenisa oferece de inovador?“Houve, de facto, algumas inovações. Em 2007 iniciámos duas novas áreas de serviços, com a criação de um Centro de Estética, Cosmética e Bem-Estar, a funcionar em estreita ligação com a sua área de saúde, através do apoio dado pelos profissionais de várias especialidades (nutrição, dermatologia, cardiologia, fisiatria e educação física).
A segunda área aparece através da ligação a dois lares, os da Santa Casa da Misericórdia de Montalvão e de Vila Velha de Ródão, locais onde desenvolvemos projectos de actividade física para idosos.
Estes projectos visam essencialmente o combate à inactividade a que estão sujeitos estes utentes, muito principalmente aqueles que se encontram na valência de internamento.
Para tal são elaborados programas individuais de actividade física, a desenvolver num espaço apropriado e equipado de forma específica.”
Que balanço é que faz destes 20 anos de actividade?
“Penso que temos crescido devagar mas com passos seguros. Tem havido uma boa resposta da população e posso dizer que actualmente registamos uma média de 80 pessoas por dia, que utilizam os nossos serviços, desde as análises clínicas até à estética e bem-estar.
É essa resposta positiva da população que tem viabilizado o nosso projecto e que nos obriga a fazer sempre mais e melhor, de modo a garantirmos a mesma atenção e qualidade, nos serviços que prestamos à população.
É para isso que cá estamos e assim queremos continuar.”
"Jornal de Nisa" - nº 265 - 22/10/2008

quarta-feira, 13 de julho de 2016

PONTÁ BITÉFES: O nosso Cine Teatro

O Cine Teatro de Nisa completou, o ano passado, 75 anos de existência. Pouca gente deu pelo facto e disso não veio grande mal ao mundo. Mas a história do grande e vetusto edifício merece ser contada e conhecida de todos os nisenses, nem que seja para o apontar como exemplo - raro, na nossa terra - de bairrismo e de congregação de esforços para a prossecução de um objectivo comum. Este, em Nisa, chamou-se Teatro, Cinema e Cultura.
A história dos últimos dez anos do Cine Teatro, ou seja, após a sua remodelação, concluída em 1997, vem profusamente descrita na Agenda Cultural do Município, relativa ao mês de Outubro. Para “retratar” dez anos (10 anos a viver cultura), faz-se uma viagem até à centúria de oitocentos e aos primórdios das representações teatrais em Nisa.
Tão extensa descrição, esquece, no entanto, que as obras de recuperação da grande sala de espectáculos da vila, teve como protagonistas um elenco camarário (da mesma “cor”, por sinal, do vigente) que não tratou, apenas, de reerguer um edifício em acelerado estado de agonia, mas, antes, teve de desencadear um processo, não menos complexo e dificultoso, para a cedência, a título precário, do imóvel.
As obras demoraram, choveram as críticas, inclusive, sobre a oportunidade do investimento, e de “fazer filhos em mulheres alheias”, como chegou a apontar-se em sessões da Assembleia Municipal.
Nisa ganhou uma sala de espectáculos, considerada uma das melhores do Alentejo. José Manuel Basso e os elencos camarários a que presidiu, foram os responsáveis pela obra, mérito que também deve ser extensivo aos dirigentes da Santa Casa da Misericórdia de Nisa que se esforçaram por tornar o sonho realidade.
Uns e outros, compreenderam, como Brecht que “não construíram Tebas, a das sete portas” e não quiseram, por isso, e como é “moda” actual, o seu nome numa qualquer placa de granito, a assinalar o feito. A obra teve técnicos, projectistas, operários, foram eles que fizeram a grande transformação do Cine Teatro.
Assinalar “dez anos a viver Cultura”, é elevar, com redobrado júbilo, a excelência de uma casa e de um equipamento cultural de que nos devemos orgulhar, mas não pode constituir um pretexto para “apagar” do rumo da história aqueles que, de forma directa ou indirecta, contribuíram, de modo substancial, para dar nova vida ao sonho inicial de José Vieira da Fonseca e de Manuel Granchinho.
Assinalemos, com orgulho e alegria, os 75 anos da inauguração e os 10 anos de remodelação do nosso Cine Teatro, mas é bom que não sejamos “mais papistas do que o papa”...
Mário Mendes - in "Jornal de Nisa" - 17/10/2007

sábado, 4 de junho de 2016

NISA: Biblioteca Municipal - 25 Anos a promover a educação e cultura

É uma das mais pujantes estruturas culturais do município de Nisa. Por ali passam, diariamente, muitas dezenas de pessoas de todas as idades e ocupações. Vão pelos livros, pela leitura de jornais e revistas, viajam pela Internet ou, deleitam-se com os mais recentes êxitos musicais e cinematográficos, as exposições de arte e as representações teatrais.
Nem sempre foi assim. Há 25 anos, quando o sonho de muitos nisenses foi, finalmente, concretizado, e viram abrir-se, de par em par, as portas do antigo Clube Nisense, os serviços da Biblioteca Municipal, assentavam, basicamente, no empréstimo de livros.
Mas, desde logo, muitas centenas de crianças e jovens, ávidos de leitura e conhecimento, tomaram de “assalto” o vetusto edifício do antigo teatro, justificando, com a sua presença, a justeza do investimento municipal e augurando para a Biblioteca um futuro risonho, cheio de vida e de novas oportunidades.
O espaço tornou-se acanhado, para tanta gente sedenta de cultura, de histórias, de saber e de aventuras. Crianças e jovens, alguns adultos, que viajavam pelos livros, como hoje navegam pela Internet. A necessidade de novas, mais amplas e adequadas instalações passou de evidência a urgência, face ao número de leitores que frequentavam a Biblioteca e que tinha “disparado”.
A história destes 25 anos da Biblioteca Municipal de Nisa, que em 1993 mudou para as novas instalações da Praça da República é, pois, uma história de sucesso. Não tanto pelos livros e documentos que movimenta ou os serviços relevantes que presta à população do concelho, mas, porque, como garantem os seus animadores (não lhe vamos chamar funcionários), mais importante que os livros é fazer do local, um lugar de amigos.
O resto da história fica para Bento José Sabino Semedo, o actual responsável pela Biblioteca Municipal de Nisa, contar.
25 Anos é um percurso de vida com algum significado. No caso da Biblioteca de Nisa quais os traços mais salientes desde a sua criação até ao momento?
“Relativamente a esta questão destacaria três momentos que considero deveras importantes na vida da Biblioteca ao longo destes 25 anos.
Um primeiro momento é a decisão da Autarquia Nisense de permitir à população do Concelho o acesso aos livros e à leitura através da abertura da Biblioteca Municipal no dia 9 de Abril de 1982, nas instalações do Clube Nisense, local onde esteve até 1993.
O segundo aspecto determinante na vida desta instituição é a assinatura de um Contrato-Programa entre a Câmara Municipal e o Instituto Português do Livro e da Leitura, a 10 de Dezembro de 1987 tendente a instalar uma nova Biblioteca, melhor apetrechada e com maior dinâmica e cuja função passará pela prestação de um serviço cultural para toda a população do Concelho.
Finalmente o momento que eu considero, de momento, o mais importante para a vida deste espaço relaciona-se com a abertura das actuais instalações, na Praça da República, no dia 10 de Dezembro de 1993.
Não quero com isto dizer que não existam outras datas importantes, pois entretanto forma sendo criados novos serviços e consequentemente maior possibilidade de acesso à Biblioteca, mas são aqueles os momentos mais importantes na vida da Biblioteca Municipal de Nisa.”
A Biblioteca de Nisa foi criada como um pólo da difusão do livro e da leitura, mas ao longo destes anos assumiu-se, também, como uma importante - diria quase única - estrutura de dinamização cultural da sede do concelho. Como avalia o desempenho a este nível e até que ponto uma situação (a cultura, em geral) colidiu com, ou tornou complementar, a actividade base?
“Como sabe o conceito de Biblioteca foi-se alterando ao longo dos tempos e as funções inerentes a uma instituição deste género que passavam quase exclusivamente pela disponibilização de livros para leitura passaram a ter outras dinâmicas que para além do aspecto inicial que levou à sua edificação trouxeram consigo acções de dinamização cultural, as quais não poderiam passar despercebidas à população.
Sabendo-se que em concelhos como Nisa onde a população é envelhecida e existem elevados índices de iliteracia compete à Biblioteca Municipal criar dinâmicas que permitam o acesso sem restrições de toda a população e nada melhor que encetar acções de animação cultural para atrair novos públicos a esta instituição.
Não é objectivo da Biblioteca sobrepor-se a qualquer actividade de animação sócio-cultural, pelo contrário tem sido palco de acções dinamizadas por Associações, Instituições ou grupos informais, mas uma vez que possuímos espaços concebidos para a realização desses eventos devemos aproveitá-los da melhor forma porque um potencial leitor poderá, amanhã tornar-se num leitor activo.”
Como tem sido a evolução do número de leitores da Biblioteca Municipal ao longo deste período de actividade? Quem são os frequentadores/utilizadores da Biblioteca Municipal?
“Em traços gerais posso dizer que estamos no bom caminho e para ilustrar esta informação destaco o número de utilizadores que usufruíram da Biblioteca ao longo destes 25 anos de actividade.
Em termos de evolução da utilização posso informar que no ano seguinte à abertura da Biblioteca (1983) tivemos uma frequência de 3.407 utilizadores os quais requisitaram 5.993 documentos. Em 1993, ano da mudança de instalações da Biblioteca para o actual espaço, contámos 17.56 utilizadores, os quais requisitaram 28.52 documentos, finalmente, em 2006 contabilizámos 64.155 utilizadores, requisitando 40.059 documentos.
Relativamente a estes números podemos dizer que são o resultado de uma aposta no serviço que a Biblioteca presta à comunidade onde se insere, rentabilizando ao máximo os espaços que dispõe.
Relativamente ao perfil do utilizador deste espaço e fazendo fé nas recolhas estatísticas que vimos efectuando podemos dizer que o escalão etário que mais frequenta as instalações da Biblioteca situa-se entre os 30 e os 50 anos, sendo que no geral são os utilizadores do sexo feminino quem mais recorre aos nossos serviços.”
Apesar do êxito assinalável que constituiu a actividade deste pólo cultural, há, ainda, muita gente que, por um motivo ou outro não vem à Biblioteca. O que tem sido feito para atrair novos leitores ou utilizadores?
“ Quando apresentamos números como os que anteriormente mencionei é gratificante verificar que o grupo de utilizadores da Biblioteca está situado no escalão referido o que por si só quer dizer que fizemos um bom trabalho de base, isto porque se subtrairmos as idades aos anos de vida da Biblioteca verificamos que conseguimos captar aqueles que eram, à partida, potenciais leitores e que se vieram a fidelizar ao nosso trabalho.
Sabemos, no entanto, que temos um longo caminho a percorrer e para tal devemos dedicar especial atenção a alguns grupos que ainda não enraizaram o gosto pela leitura, e nos quais destaco as senhoras que por terem muitos afazeres não se deslocam com a mesma facilidade à Biblioteca que outros. Devemos ainda ter sempre presente os nossos utilizadores mais jovens pois incrementar o gosto pela leitura começa desde a mais tenra idade e embora nos últimos anos tenha sido uma grande aposta das actividades da Biblioteca, esta deverá assim continuar para que amanhã possamos ter leitores activos.
Para captar novos leitores temos vindo a criar alguns novos serviços para os quais as pessoas estão mais despertas e dentro dos quais destaco a Internet ou o Audiovisual, para além de um acervo documental que tenta manter-se actualizado, sempre de acordo com as solicitações dos nossos utilizadores, e ainda nestes últimos anos alargámos os nossos horizontes e temos disponíveis para leitura livros em diversos espaços públicos da vila como são cabeleireiras, residenciais, associações, e ainda durante a época de Verão levamos livros até às Piscinas Municipais.”
Considera o número de funcionários da Biblioteca suficiente para o trabalho que desenvolve? Se sim, como explica que, numa determinada fase, se tenha procurado alargar os horários de funcionamento (abertura na hora do almoço e aos sábados de tarde) e, quase sem explicação plausível, essa perspectiva tenha sido abandonada?
“O trabalho na Biblioteca tem vindo a evoluir ao longo dos anos e aquilo que anteriormente era um serviço para “desenrascar” actualmente, devido ao profissionalismo dos funcionários da Biblioteca, os quais habituaram os utilizadores a um serviço de excelência, passou a ser considerado como uma imagem de marca desta instituição, pelo que considero que o número actual de funcionários é o ideal para um bom desempenho deste serviço pois o volume de acções e de frequência assim o determina.
Relativamente à questão do horário trata-se de uma pergunta pertinente que os responsáveis pela Autarquia estão a tentar dar a devida resposta sempre considerando os superiores interesses da população aos quais se dirige este serviço.
A redução do horário de abertura ao público da Biblioteca teve em consideração diversas situações que observámos, de entre as quais a reduzida afluência em determinados períodos, bem como outras condicionantes de carácter funcional que naqueles momentos não nos era possível ultrapassar, mas quero dizer que num futuro, talvez a curto prazo, possamos retomar um novo horário para assim poder servir melhor os nossos utilizadores.”
O que será a Biblioteca de futuro, nos próximos 25 anos?
“Tal como todas as outras Bibliotecas a evolução estará sempre ligada às novas tecnologias. Como sabemos, actualmente surge-nos uma série de informação que é urgente tratar e disponibilizar. A Internet é um manancial de informação e os e-books são os aspectos que de momento começam já a ter alguma visibilidade.
O futuro será certamente a Biblioteca Digital, onde poderemos aceder a toda a informação que consigamos disponibilizar e em especial aquela que mais directamente diz respeito ao Concelho.
Como sabemos existe um grande número de documentação de autores do concelho, ou sobre assuntos que estão directamente relacionados com o nosso quotidiano que urge tratar e disponibilizar.
O futuro da Biblioteca será, certamente, trabalhar em cooperação com outras congéneres e alargar os seus horizontes para abarcar o maior número de utilizadores, o que poderá passar por levar as nossas práticas a todos os locais do concelho para nos tornarmos uma instituição de e para todos.”
Como responsável deste serviço, que mensagem gostaria de deixar aos leitores da Biblioteca Municipal?
“A Biblioteca possui um slogan que eu considero humano e que passa pela relação directa com os leitores ou utilizadores: “Muito mais que livros, um lugar de amigos”.
Esta é a forma como encaramos a nossa actividade fazendo deste espaço um lugar aberto onde todas as opiniões devem ser consideradas pelo que a mensagem que deixaria para todos os leitores actuais ou potenciais é para que nos visitem, pois trata-se de um local em que as portas estão abertas para todos sem quaisquer restrições, e depois verá se gosta de se juntar a este grande grupo que são a razão da nossa existência: os nossos leitores/utilizadores.”
in "Jornal de Nisa" - Abril de 2007

sexta-feira, 8 de abril de 2016

HOMENAGEM: António Eustáquio - Alpalhoeiro de "sangue na guelra"

Discurso proferido na Homenagem realizada em em 12/11/2005 em Alpalhão

"Hoje é um dia, particularmente, feliz, por estarmos aqui reunidos e podermos, de viva voz e publicamente, enaltecer as virtudes morais, sociais e humanitárias de um filho desta terra: o senhor António Joaquim Eustáquio. António Eustáquio, nasceu ali na Rua da Carreira, numa casa, pequenina, de que hoje resta, apenas o local. Uma casa pequenina, como tantas que conheci na "Vila" (em Nisa) e que albergavam famílias com dez, doze, catorze e mais pessoas.Eram casas pequeninas, com dois ou três compartimentos acanhados e onde, tantas vezes, ainda cabia o macho, o burrito, a cabrinha e o porco.Eram casas pequeninas, cheias de gente (o concelho, desculpem-me, chegou a ter nessas décadas de 40, 50 e 60, do século passado, quase 20 mil habitantes), cheias de miséria, mas transbordantes de amor, de carinho e afectos. A história da sardinha, dividida por não sei quantos, não é, não foi - infelizmente - uma fábula, mas sim uma realidade nua e crua, sentida por muitas famílias.Relembro o passado, para que possam perceber que, nascido no seio de uma família de dez irmãos, a António Joaquim Eustáquio não restava outra alternativa senão fazer-se à vida, bem cedo, na idade de todos os sonhos e brincadeiras.
O seu tempo de menino foi passado a trabalhar no campo, nos "barros" do Cano e do Ervedal, até ir para a vida militar. E, pela vida militar se deixou ficar até à ao posto de sargento-ajudante e a passagem à situação de reforma, com as idas e vindas do Ultramar, nos tempos de brasa da guerra colonial, de permeio. Aqui começa, verdadeiramente, a "segunda vida" de António Eustáquio. Não esqueceu a casa na Rua da Carreira, a família numerosa, as dificuldades que enfrentou e no remanso do lar, encaminhados os filhos, engendrou uma forma de ser útil à sociedade e ao mesmo tempo de combater o ócio que, não raras vezes, é o caminho mais curto e directo para o vício.
 Há uns bons anos, chamei-lhe, numa entrevista, "alpalhoeiro de sangue na guelra". O título, a meu ver, sugestivo, pretendia associar a sua origem, que nunca renegou e de que conserva os traços identitários inconfundíveis, como o sotaque e a vontade, granítica, de remover montanhas, com o espírito de iniciativa, pouco comum num jovem com mais de setenta anos. O sangue, ou, mais propriamente, a falta dele, fez despertar em António Eustáquio, um dador de muitos anos, o desejo, irreprimível, de constituir uma Associação, a nível distrital, que dinamizasse, de forma organizada, não só as recolhas benévolas de sangue, mas, sobretudo, pudesse agir num trabalho de sensibilização para cativar novos dadores e fazer ruir alguns dos mitos e tabús que ainda imperavam sobre as dádivas de sangue. Nascia, assim, em 1990, e por acção directa, decidida e voluntária de António Joaquim Eustáquio, a Associação de Dadores Benévolos de Sangue do Distrito de Portalegre. Ao longo destes 15 anos, a Associação tem desenvolvido um trabalho notável; percorreu um caminho não isento de escolhos e afirmou-se, ao serviço da comunidade, principalmente, pela força, vontade e determinação deste homem. Fazendo recolhas, regularmente, em 12 dos 15 concelhos que integram o distrito (as excepções são Campo Maior, Elvas e Gavião) a Associação de Dadores de Sangue do Distrito de Portalegre, recolheu neste espaço de tempo e sem contar com as dádivas feitas, directamente, nos serviços próprios do Hospital Distrital, cerca de dez mil dádivas benévolas de sangue, contribuindo para a satisfação das necessidades do Hospital Dr. José Maria Grande e dando um contributo relevante para suprir carências a nível de outras unidades de saúde da região e do país.
A estas acções de recolha de sangue, programadas e descentralizadas por todos os concelhos ao longo do ano, e realizadas por uma equipa especializada, acresce o trabalho que vem sendo, ultimamente, desenvolvido na sensibilização para as dádivas de medula óssea, com a constituição de um banco de dados de possíveis dadores. Toda esta acção, pioneira, humanitária e humanista, de que beneficia toda a comunidade, não teria sido possível sem a dedicação, sem a vontade inabalável, e sem o empenhamento cívico deste cidadão da nossa terra. Apesar de não possuir uma grande preparação técnica na área da saúde, o programa que António Eustáquio mantém, desde há anos, às quartas-feiras na Rádio Portalegre - que julgamos, a este nível, pioneiro - não deixa de constituir uma original forma de comunicação, não só com o universo dos dadores de sangue, mas com o comum dos cidadãos, pela espontaneidade, pelos exemplos, pela força apelativa das mensagens. Muitos dadores, estou certo, foram "ganhos" desta forma. Outro aspecto saliente do programa é a "desmontagem", a clarificação, o esclarecimento de dúvidas, que Eustáquio faz de um modo muito directo, com exemplos práticos e sem artifícios de linguagem, supostamente técnica ou intelectual. (Abro aqui um parêntesis para convidar/sugerir às entidades responsáveis na Saúde para seguirem, também, idêntico caminho.).Para além de fundador e presidente da Associação de Dadores Benévolos de Sangue do Distrito de Portalegre, António Joaquim Eustáquio pôs de pé e dirigiu, até à passada segunda- feira, a delegação distrital da Liga dos Combatentes. Também aqui o seu trabalho foi bem visível, empenhado e fez ressurgir, com benefícios para todos os ex-combatentes, uma associação quase moribunda. O levantamento feito dos talhões dos ex-combatentes nos cemitérios do distrito; o arranjo, embelezamento e dignificação destes espaços, em colaboração com as Câmaras Municipais, como aquele que foi feito em Nisa; a organização das comemorações do Dia dos Combatentes e a representação e defesa dos interesses dos ex-militares perante as instituições governamentais, têm sido possíveis graças à organização e combatividade do Núcleo.
Mas é, sobretudo, através do trabalho desenvolvido à frente e com a Associação de Dadores, que queremos assinalar o mérito exemplar deste cidadão do concelho, do distrito, da região e do país, porque os benefícios resultantes das dádivas de sangue, não conhecem fronteiras nem extractos sociais: são de todos, de quem, voluntariamente, dá e de quem, no infortúnio da doença, recebe.
O labor altamente meritório da Associação de Dadores, tendo à frente e principal dinamizador, António Joaquim Eustáquio, permitiu suprir carências do preciso líquido e contribuir como poderoso lenitivo para atenuar a dor física e psicológica de muitos doentes e das suas famílias.A homenagem que aqui lhe prestamos, mais não é do que o reconhecimento público e devido, a um cidadão que recusou o conforto da situação de reforma e se empenhou, de forma voluntária, decidida e abnegada na criação e desenvolvimento de uma associação, dirigida para proporcionar ao seu semelhante um pouco mais de esperança e, quantas vezes, um novo sentido para a vida. Em vez de se limitar aos bancos do jardim, a "matar o tempo morto" que antecede a morte, Eustáquio preferiu transformar a experiência de vida acumulada, numa causa social ao serviço do seu semelhante, mostrando-nos que ainda há exemplos, despojados, que ajudam a acreditar que é possível um mundo melhor. António Eustáquio, com a força da sua determinação, do seu carisma e da sua entrega, merece que lhe tributemos, publicamente, o mais sincero e respeitoso agradecimento.
Obrigado, António Eustáquio!"
Mário Mendes - Director do "Jornal de Nisa"

quarta-feira, 9 de março de 2016

SALAVESSA: Histórias da charneca (1)

O filho de Paiva Couceiro
Em 1911 quando a República era ainda uma criança, a tentar dar os primeiros passos, António, um jovem de Lisboa foi incorporado no Exército Português, mas as suas convicções políticas levá-lo-iam a desertar. Nesse mesmo ano, fugiu para Itália. No Verão de 1912 António Augusto encontrava-se em Roma mas as coisas não lhe corriam bem. Gastara quase todo o seu dinheiro e o futuro apresenta-se pouco risonho. Tomou, então a decisão de regressar. Mal tratado, fraco, e desprovido de posses foi com grandes dificuldades que viajou para Portugal. Entrou no país em Novembro de 1912, pelo concelho de Nisa, mais concretamente por terras de Montalvão. Ainda que cansado percebeu que não era chegada a hora de parar. Montalvão era demasiado grande para esconder um fugitivo. Rumou para Oeste, atravessa as charnecas e avistou as casas de uma pequena aldeia, iniciando a descida para a aldeia de Salavessa.
Os habitantes da aldeia recearam, a princípio, esta figura singular. Quem era? De onde vinha? O que pretendia? António Augusto respondeu aos salavessenses: "Chamo-me António Augusto de Jesus e sou filho de Paiva Couceiro". Henrique de Paiva Couceiro nasceu em Lisboa em 1861. Militar, ganhou fama devido aos combates em que esteve envolvido no final do Século XIX em Angola e Moçambique. Acérrimo defensor da Monarquia, bateu-se pela causa Monárquica, após a implantação da república, tendo-se envolvido em várias acções para derrubar o novo regime. O recém-chegado dizia-se filho deste militar sendo o seu nascimento fruto de uma aventura amorosa.
Com o passar do tempo acabou por se integrar na estrutura social da aldeia. António Augusto lança-se no desafio de ensinar às crianças as primeiras letras. Acanhados, os miúdos lá foram aparecendo. Começa com dois, depois mais dois, até que se constitui aquilo a que hoje chamaríamos uma turma. O novo "professor" prepara as crianças para o exame da terceira classe. Carismático, fez sucesso a ensinar.
Tudo parecia correr bem, mas António era um desertor. Em 1915 as autoridades detectam a sua presença e foi preso em Salavessa. A aldeia viveu momentos de choque, não queriam os seus habitantes acreditar que o senhor António Augusto estava a ser levado pela Guarda. As crianças, sem tempo para se despedirem, acompanharam o seu mestre até ao ribeiro de Fiverlo, já no caminho para o Pé da Serra. O professor leva as mãos amarradas, não pode dizer adeus, vira o rosto sobre o ombro e ensaia um último olhar. As crianças permanecem na margem direita do Fiverlo, não arredam pé, continuando no local até que, finalmente, deixam de ouvir o bater dos cascos dos cavalos sobre as pedras do caminho. O seu sonho terminara.
António Augusto de Jesus é julgado e de imediato é deportado para a África Portuguesa. É de África que escreve algumas cartas para Salavessa. Numa das cartas envia uns desenhos. São esboços a carvão. O professor desenhara umas crianças saídas de um quadro que insistira em permanecer na sua mente, a imagem de umas crianças paradas junto às encostas escarpadas do ribeiro de Fiverlo, alunos despedindo-se do mestre.
Em Moçambique, António Augusto cumpriu a sua pena. Na terra onde o pai fora o primeiro, o filho é, agora, um prisioneiro. Mas a história não termina em África. Após cumprir o castigo, António Augusto regressou a Portugal. Ao chegar a Lisboa partiu de imediato. Partiu para o Alentejo, para Nisa, para Salavessa. Foi recebido com alegria e entusiasmo. Apesar de não ser professor oficial, ali permaneceu e ali continuou a fazer o que mais gostava, ensinar crianças e prepará-las para os exames.
Em 1922 o Governo aprovou a construção de uma escola oficial em Salavessa. A nova escola primária ficou pronta e recebeu os primeiros alunos em 1923. Com a escola apareceram os primeiros professores formados e a missão de António Augusto terminou, abandonando definitivamente a aldeia. A partir desta altura afirmaria sempre, no decurso das suas viagens, ser natural de Salavessa, a aldeia que tão bem o acolhera. A aldeia que lhe dera protecção e lhe matara a fome sem olhar ao seu fato roto ou à sua barba esquálida.
Era realmente filho de Paiva Couceiro? Creio que nunca o saberemos. Mas que importa isso. O mais importante foi a formação que proporcionou às crianças, semente lançada à terra, semente do saber e do conhecimento, de importância suprema em todas as sociedades e em todos os tempos. O sonho das crianças não terminou na margem escarpada do ribeiro de Fiverlo. O sonho de saber ler e escrever concretizou-se e serviu de certo modo para contornar obstáculos numa vida de privações.
Quem mo disse foi uma criança. Uma criança de noventa anos. Uma criança que assistiu à sua captura. Acompanhou o professor até onde foi possível, até à velha ponte. Ali permaneceu até ao anoitecer. Até deixar de ouvir o bater dos cascos dos cavalos sobre as pedras do caminho. Quem mo disse esteve lá. Disse-lhe adeus. Ali, no caminho de Salavessa para o Pé da Serra. Em cima do velho pontão do Fiverlo trocaram o que pensaram ser o último olhar. Naquele momento a velha ponte foi fronteira de separação, para o aluno entre o sonho e a realidade, para o mestre entre o cárcere e a liberdade.
* Luís Mário Bento- in "Jornal de Nisa"