Mostrando postagens com marcador memória de nisa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador memória de nisa. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 5 de julho de 2016

MEMÓRIA: A Companhia Teatral Rafael de Oliveira em Nisa (1941)

O programa é de Julho de 1941 e por ele se mostra a grande afeição das gentes de Nisa ao teatro.
Por aqui passava e estacionava durante meses, a Companhia Rafael de Oliveira, com o seu Teatro Desmontável e que em Nisa e arredores deixou um impressionante registo de admiráveis actuações. As pessoas mais idosas da terra ainda se lembram bem da permanência de Toni de Matos, o grande cantor romântico português e que em Nisa (ou Niza como vem no cartaz) frequentou a Escola Primária. Outros talentosos artistas tiveram aqui e por via da Companhia Rafael de Oliveira, o seu "baptismo teatral".
O espectáculo de teatro "A Calúnia" como tantos outros, eram complementados com variedades musicais e neste dia actuou o cantor Toni de Matos, acompanhado à guitarra e à viola por dois amadores locais, os "exímios tocadores" José Velez Metelo e José de Oliveira Ramos, conhecido e popular enfermeiro que desempenhou as suas funções no antigo Hospital da Misericórdia, na rua Capitão Pais de Morais. Um outro artista local indicado no programa foi Laurentino Ramalhete, tratado como "distinto amador" e que interpretou a sua "genial criação" Eu sou um Alho.
Esta "noite de arte, sensação e prazer" tinha preços módicos que iam desde as "meias-entradas" a 1 escudo até às "cadeiras" a 6 escudos. A "geral simples" que comportava o maior número de espectadores, custava 15 tostões. Estávamos em 1941, o espectro da guerra a pairar sobre o país e o mundo, ainda assim os artistas não "desarmavam" e levavam o teatro à "província" em companhias desmontáveis, sem apoios de ADNs e Câmaras, nem tão pouco utilizando os espectáculos pagos pelo povo para destilarem qualquer ingrediente de verborreia demagógica.

terça-feira, 17 de maio de 2016

MEMÓRIA DE NISA: Há 70 anos faleceu D. Palmira Lobo da Silveira (Alvito)

Finou-se em Lisboa, num destes últimos dias de melancólico Outono, a Senhora D. Palmira Fialho Lopes Tavares Lobo da Silveira (Alvito).
Dobraram por ela os sinos da minha terra, que não era a sua. Mas nem por isso a toada fúnebre e plangente caiu menos doloridamente no coração de quantos alguma vez se deram conta da acentuada simpatia, da manifesta predilecção da bondosíssima Senhora por Nisa e pela sua gente.
Casada com o Sr. D. António Lobo da Silveira (Alvito), fidalgo da mais alta linhagem pelo sangue e correcção no trato social, faleceu sem descendência e assim se extingue e desaparece uma família que a todos os nisenses mereceu sempre, por sua opulência de bens e de virtudes, o maior respeito e acendrada estima.
Foram seus pais, a popularíssima e e muito querida Senhora D. Catarina Fialho, nome por que abreviada e carinhosamente todos a conhecíamos, e o Sr. Dr. José Joaquim Lopes Tavares, espírito culto, magistrado distintíssimo e carácter do melhor quilate.
Também, nesta amarga conjectura, não quero esquecer a figura relevante de outro membro da mesma ilustre família: o Sr. Dr. José Fialho Ferro Lopes Tavares, irmão da finada Senhora D. Palmira, o qual, na carreira diplomática, conquistou, à força de talento e proficiência, o mais honroso e dignificante destaque.
Ao focar, nesta singela evocação, o aprumo, a distinção verdadeiramente fidalga, com que, nas suas anuais vilegiaturas nesta vila, pais e filhos conviviam com a elite local e não desdenhavam tratar despretenciosamente com os mais humildes, a uns prodigalizando requintes de aprimorada sociabilidade e com todos repartindo extremos de afectuosa bonomia sinto-me transportado aos dias da minha infância, em grande parte da qual eu e outro rapazio traquinámos no mesmo largo em que o primogénito, o menino Zico, fazia as suas travessuras...
E quantas vezes da janela, a que se recostava a respeitável Senhora D. Catarina Fialho, nos caía, das suas mãos ou das da sua azougada e gentil filha, um mimo para a nossa gulodice de garotos e se desprendia, do seu espírito folgazão, um incentivo para os nossos brinquedos!...
Como isto vai longe!
No seu magnífico solar, o sumptuoso palácio da Praça do Município, a dois passos da modesta casa em que nasci, (toda a vizinhança o sabia) viviam-se em pleno optimismo, as mais puras alegrias familiares. E a natural euforia, em que se comprazia o ditoso lar, irradiava e transmitia-se a quantos tinham a honra da sua convivência ou, por qualquer motivo, se acercavam de tão atraentes e insinuantes personalidades.
Mas, como tudo o que é humano, também esta pulcra florescência de bem-estar tinha de fenecer!...
Foi o primeiro a morte da benquista Senhora D. Catarina veneranda “dona de tempos idos”, que veio cobrir de perpétuos crepes o coração do marido extremoso e dos filhos amantíssimos.
Algum tempo depois, no regresso de Paris, onde servia na Embaixada de Portugal, a pneumónica vitima, na sua residência em Lisboa, em pujante maturidade intelectual e cívica, o ilustre diplomata José Lopes Tavares.
De então para cá, o pobre pai vive cada vez mais acabrunhado e, embora de quando em quando volva a matar saudades na sua casa de Nisa, são estas que o vão matando. E não lhes resiste.
De ano para ano a sua figura alquebrada verga mais e mais ao peso dos desgostosos e, para cúmulo do sofrimento, ia notando que a filha idolatrada, único ramo sobrevivente da sua árvore genealógica, se consumia ao fogo lento mas implacável de pertinaz doença.
Até que um dia caiu de vez. E lá o levaram da casa que lhe sorrira às mais reconfortantes alegrias domésticas, para a capital, a dormir um sono eterno junto daqueles que na mansão dos justos o esperavam.
E ficou apenas, transida de saudades e amarfanhada por seu irremediável padecimento, a sombra do que fora, noutros tempos, a gárrula, a inteligente, a espirituosa, a alegre e comunicativa D. Palmira.
Apesar de todo o carinho e extremos de solicitude do dedicado esposo, nada podia desviá-la do funesto desenlace. A passos rápidos caminhava para a morte e foi num destes dias últimos de melancólico Outono que a desditosa Senhora encontrou o termo da via dolorosa.
À sua alma, que Deus enriquecera de peregrinos dotes, queira Ele também dar a perenidade da bem- aventurança.
J. Figueiredo – “Correio de Nisa” nº 20 – 9/12/1945
Nota fúnebre
A Srª Dona Palmira Fialho Ferro Lopes Tavares Lobo da Silveira, esposa do Sr. D. António Lobo da Silveira (Alvito), faleceu no dia 26 de Novembro de 1945, na sua residência na Rua do Salitre, em Lisboa, conforme notícia do "Correio de Nisa" de 2/12/1945.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

MEMÓRIA DE NISA: A Rua do Convento *

À memória de Isabel da Silva Casaca (Mourata) e de João da Graça Valente
A Rua do Convento foi o nosso primeiro mundo, um palco de aprendizagens, paixões, de todas as descobertas. Foi numa casa em frente à Casa do Povo que os meus pais se fixaram no ano de 1967. Numa época marcada por grandes dificuldades económicas, pela guerra colonial, por uma esperança de liberdade eternamente adiada. A rua funcionava como uma comunidade viva, aberta, dinâmica e acolhedora, fomentava-se a cooperação e a inter – ajuda entre vizinhos.
Na Casa do Povo o movimento era permanente, um entra e sai constante de utentes, médicos e funcionários. A figura mais marcante era o Sr. Aníbal Reizinho com as suas mangas pretas protegendo a camisa, acessório indispensável do funcionário público de então. A sua estatura impunha respeito, mas era sobretudo um homem muito afável, um amigo. A meio da rua, um lagar de azeite causava a natural azáfama sazonal, enquanto a pequenada sobre os carris de ferro brincava aos comboios.
Próximo da Fonte da Pipa, junto de um imenso campo de areia, a oficina de automóveis do Sr. Luís. Nas montanhas de areia, faziam-se buracos, corridas, o que originava muitas cabeças partidas e idas à Casa do Povo para os respectivos curativos. Em frente da oficina, a taberna do Sr. João Serra, peixe frito, ovos cozidos, copos de vinho, tristezas e alegrias. Por ali paravam muitos camionistas para a tão merecida refeição.
De volta à Rua do Convento, a nossa casa era a primeira, o número quatro, seguiam-se as casas do Sr. José Carita, das famílias "São Diogo", "Botas", Poeiras e Caldeira Valente. Do lado esquerdo da rua, a Tá Conceição, a família Bagulho, a Sra. Ana Maria e o Ti "Rei", entre outros. O Bairro da Cevadeira ainda não existia, o acesso à Escola Primária era feito pela Rua do Convento.
 A grande Tapada de oliveiras, que viria a ser o Bairro da Cevadeira era um autêntico campo de batalha onde os rapazes da Vila e os da Fonte da Pipa se degladiavam. No fim do dia de escola um qualquer líder mandava formar as tropas e ao grito de "calhoada" atiravam-se pedras, era preciso expulsar os da vila de um território que era nosso, era vê-los a fugir por entre as vacas do Sr. Moura Gaspar. Uma brincadeira que hoje nos parece tão pouco civilizada mas que na altura no enchia de contentamento.
Na estrada para o Monte Claro, a mercearia da Tá Conceição, cada gelado de groselha custava um escudo; mais para cima, o Ti Júlio canalizador está a chegar da horta, ar pachorrento, passo firme, com o seu fato de macaco azul-escuro, às vezes parecia-nos que o pequeno burro tinha dificuldade em acompanhar a sua vigorosa passada.
Nesses anos a casa do vizinho era uma extensão da nossa própria casa, com o Ti João Valente aprendemos a fazer contas, todos eram especiais. A noite caía sobre o Convento, as televisões são em número muito reduzido, já se ouve a musica que antecipa as aventuras de "Sandokan", corro a bater às portas, em pouco tempo a nossa sala fica apinhada de vizinhos.
E o Convento que deu o nome à rua? Onde estão os seus vestígios?
Diz-nos Motta e Moura na Memória Histórica de Nisa, "…que pensaremos ao avistar o sítio, onde estivera outr’ora um convento com o seu claustro, e cêrca, uma egreja com seu campanário e sinos… e no entanto tudo isto desappareceu sem nos indicar ao menos uma pedra sobre outra, que nos indicasse, onde fora a egreja, onde o convento, onde a cerca e o dormitório! é um campo raso e plano retalhado anualmente pelo arado…assim acontece a mui pequena distância da villa, no sitio chamado vulgarmente o Convento, onde out’rora esteve fundado um pequeno hospício de Frades Agostinhos Descalços, e hoje não há o mais remoto indicio de humana habitação."
Não sabemos o local onde se edificou o Convento. Seria na actual Escola Primária, na própria rua, ou no alto do lagar? Procuro a resposta. Procuro no meu arquivo, mas do escuro não se faz luz. Vou mais fundo, ao arquivo da minha memória, não encontro a porta de entrada. Outubro de 1974, primeiro dia de escola, no pátio as crianças cantam em coro a "Loja do Mestre André", estamos todos contentes. São professores no Convento, o professor Pires Marques, Joaquim Castanho e Lúcia Bicho, dos outros não me recordo.
Mudamos de residência em 1976. A porta fechou-se, não voltámos mais à nossa primeira casa. Tantas vezes tivemos vontade de voltar a entrar, percorrer novamente o quarto onde ouvimos as primeiras histórias para adormecer.
Onde está o Convento? Não existe um vestígio, uma pedra da antiga casa dos Frades Agostinhos Descalços! Não importa onde era. O Convento era a generosidade da vizinha Isabel, são as portas abertas, a escola, a Casa do Povo e as brincadeiras. O Convento somos todos, todos pertencemos à mesma irmandade. À semelhança dos antigos frades, também nós vimos o mesmo céu, pisamos a mesma terra, bebemos a mesma água. Recuo mais para trás, continuo a minha pesquisa, sigo as pegadas dos antigos monges, procuro a porta de entrada, o Convento está por ali.
Sabemos que os monges deixaram Nisa com destino a Portalegre, seguimos o seu caminho. Fomos a Portalegre ao Convento de Santo Agostinho, hoje quartel da Guarda Nacional Republicana. Vamos à procura de algo, de um símbolo, um rasto, um vestígio, uma luz no fundo do túnel. O Convento de Portalegre foi edificado em 1680, uma data que coincide com a data que nos é indicada por Motta e Moura para o abandono do Mosteiro de Nisa. O agente de serviço disponibilizou-se para uma rápida visita, fomos surpreendidos pelo cimento e outras alterações na estrutura. Ninguém sabe a localização da antiga capela, as salas estão agora ocupadas por pneus e automóveis. No corredor encontrámos uma porta adornada por grandes blocos graníticos, do lado de lá uma enorme sala rectangular que só poderá ser o espaço da antiga capela. Mais uma vez o cimento tomou conta do espaço, do piso e das paredes, através das enormes janelas, os raios solares não pedem licença para entrar, iluminam a sala. Por breves momentos consigo ouvir os cânticos dos monges, por ali passaram os antigos Agostinhos Descalços que um dia deixaram Nisa. Nos altos tectos da sala, muito alto, lá no cimo, bem alto, onde o cimento não chegou, vislumbramos uma pintura, já muito gasta, conseguimos ver as cinco quinas portuguesas e a águia de asas abertas, elemento sempre presente no brasão dos frades desta ordem. Não conseguimos visitar o primeiro piso do edifício, tal facto carecia de uma autorização formal da Guarda Nacional.
Estamos de regresso a Nisa, procuramos um vestígio do Convento. A resposta poderá estar na magnífica estrutura da Fonte da Pipa, qual a sua origem?
Sobre a fonte, escreveu Motta e Moura:
"fica mui próxima da villa para parte do occidente, e cuja agua quasi que iguala a da Cruz em bondade e sabor, infelizmente é de tão mingoado nascente, que secca logo nos princípios de Julho, e não torna a correr senão nos fins do Outomno; foi construída pelo alvaneo João Alvares no anno de 1706…".
Sobre o abandono da casa dos monges de Nisa, diz-nos o mesmo autor:
"além de pequena e pobre sempre teve poucos moradores; e foi por isto mesmo, que acabou e foi supprimida no anno de 1680, mandando-se recolher o seu espólio, e gente à de Portalegre, que então se havia concluído com muito esplendor e grandeza."
Se as duas datas apresentadas por Motta e Moura estiverem correctas temos um intervalo de apenas 26 anos entre o abandono do convento e a construção da fonte. A Fonte da Pipa é um dos monumentos mais bonitos de Nisa. Que segredos nos revelam as suas colunas e os seus capitéis? O que nos dizem os símbolos da base da cruz? Poderão estas pedras ter pertencido a um pequeno mosteiro, um convento muito antigo, tão antigo que segundo o cronista desta ordem religiosa terá sido edificado nos primórdios da nacionalidade.
A Fonte da Pipa, que se situa a curta distância da Rua do Convento, é a nossa última pista; é ali que terminam as pegadas, na fonte que mais parece uma ermida. Feita à imagem de um pequeno templo, tem tudo no lugar certo, colunas, tecto ovalizado e a cruz ao cimo.
Na cidade de Portalegre, no Convento de Santo Agostinho, numa sala que fora capela e onde outrora se falou com Deus, em lugar cimeiro e como se de uma estrela se tratasse, fomos encontrar um sinal. Nota-se muito bem, parece uma sombra com rasgos de colorido, o nosso olhar percorreu cada milímetro da pintura. Perante o complexo de riscos adulterados, pareceu-nos ver uma fonte ou seria uma ilusão!
Na nossa opinião a Fonte da Pipa poderá ser uma réplica, um símbolo, uma homenagem, uma memória do próprio convento.
A Fonte e a água. A água da vida. A água que corre da pipa. A Fonte que fora o meu primeiro mundo, o palco das primeiras brincadeiras, era a peça que me faltava. Do escuro já se fez luz. Fecho a porta.
* Luís Mário Correia Bento

MEMÓRIA DE NISA: As festas de Santo António em 1950

É um documento já amarelecido pelo tempo. Nele se dá conta do programa dos festejos em honra de Santo António, em Nisa, no ano da graça de 1950. O programa, impresso na Tipografia Borges Henriques (a antecessora da Tipografia Nisense) descreve, a par e passo, as principais iniciativas dos festejos, dando particular destaque à presença da Banda de Nisa. Realizadas durante dois dias (17 e 18 de Junho) , as festas de Santo António foram organizadas por uma comissão de que faziam parte José do Rosário Valente, António Maria Moura e Antero da Cruz Casaca, ajudados por “um grupo de gentis meninas” que tudo fizeram para que às mesmas não faltasse a quermesse, o vistoso fogo de artifício e as solenidades religiosas.

Eram assim as festas em Nisa em meados do século passado!

quinta-feira, 21 de abril de 2016

MEMÓRIA: O Ciclone de 1941 em Nisa




Há 70 anos, no dia 15 de Fevereiro de 1941, o território português foi fustigado por um violento ciclone. Por todo o país e especialmente nas zonas costeiras, o temporal causou avultados prejuízos materiais e um numeroso rol de vítimas.
O distrito de Portalegre e o concelho de Nisa, em particular, não escaparam à fúria dos ventos ciclónicos, acompanhados de chuva torrencial que provocaram danos de grande monta, sobretudo em edificações e na perda de milhares de árvores, arrancadas num ápice pela força colossal dos ventos.
Na sessão da Câmara de 20 de Fevereiro, a vereação presidida por José Augusto Fraústo Basso e composta por Jorge Beato Caldeira Miguéns e José de Barros Gouveia aprovou um "voto de profundo sentimento pela tragédia que assolou todo o país no dia 15 do corrente mês e que tantas vítimas e estragos materiais causou de norte a sul."
De seguida, a vereação camarária tomou conhecimento dos avultados prejuízos causados pelo ciclone no concelho, enumerando os vários edifícios escolares, edifícios e bens municipais, inclusive no edifício dos Paços do Concelho, no cemitério e no jardim desta vila e em várias estradas, decidindo que deviam "prosseguir com a maior actividade as necessárias obras de reparação em todos os locais afectados, referindo que algumas das quais já se encontram iniciadas."
Não se ficaram por aqui as decisões quanto aos efeitos do ciclone e a Câmara tendo em consideração os grandes prejuízos causados em inúmeros prédios urbanos e em muitos muros e vedações e outras edificações do concelho, e tornando-se necessário auxiliar e activar, na medida do possível, a reparação de tais prejuízos, decidiu isentar do pagamento de quaisquer licenças municipais "todas as obras de reparação que forem efectuadas e concluídas até ao dia 15 de Abril próximo, desde que os interessados se limitem a repor as cousas no estado anterior ao do ciclone e isso mesmo seja verificado pela fiscalização municipal."
Ainda sobre o mesmo assunto, resolveu a edilidade "tomar as necessárias providências para que possam ser avaliados, com a possível aproximação, os prejuízos causados neste concelho pelo ciclone referido nas deliberações anteriores".
Na sessão de 3 de Abril, a Câmara tomou conhecimento de que o ciclone de 15 de Fevereiro causou no concelho e de acordo com os elementos obtidos até esta data, além de inúmeros pequenos prejuízos em edifícios urbanos que não foi possível avaliar e de muitos outros prejuízos de elevado valor que também não foi possível avaliar em árvores que ficaram com as pernadas partidas e derramadas, o arrancamento ou inutilização total de 42.475 árvores em prédios particulares, assim descriminadas em harmonia com o mapa que fica arquivado na secretaria:
Oliveiras: 16537; sobreiros: 4.802; azinheiras: 3.753; pinheiros: 10.560; figueiras: 1437; carvalhos:350; outras árvores de fruto: 85; árvores ornamentais: 30.
Na mesma sessão foi dado conhecimento de que "se encontram quase completamente reparados os estragos causados pelo dito ciclone em edifícios municipais e em edifícios cuja conservação está a cargo do Município, e de que tais prejuízos foram muito importantes, principalmente em várias escolas e nos Paços do Concelho."
Legendas das fotos (De cima para baixo)
1 - Capa do jornal "O Século" - 16/2/41
2 - Estragos na praia Vasco da Gama (Sines)
3 - Capa do "Século Ilustrado"
4- Memorial às Vítimas do Ciclone - Serra da Cabreira
* Texto publicado inicialmente em Fevereiro de 2011

domingo, 17 de abril de 2016

MEMÓRIA DE NISA: A Barraca da Ti Parreira

Nas Festas da Póvoa na década de 60 havia uma ou duas barracas que sempre marcavam presença. A da Ti Parreira de Nisa era a alegria da pequenada. Vendia tremoços, amendoins e, entre muitas outras coisas, umas garrafinhas de refresco de groselha com palhinha. A palhinha já não era de palha, mas ainda não era de plástico como hoje. Era de um material quebradiço e, por isso, de vez em quando estragavam-se.
Logo no primeiro dia de festa a Ti Parreira, que vinha de carroça, montava a sua barraca de pano às riscas e balcão forrado a papel rendado e colorido, normalmente em frente à Igreja da Misericórdia. Do outro lado ficava a barraca da massa-frita, outra que nunca faltava.
Por cinco tostões a malta pequena regalava-se com as garrafinhas de groselha.
Nestes tempos de play-stations e telemóveis é difícil compreender como coisas tão simples podiam fazer a alegria de tantas crianças.
É com saudade e carinho que recordo hoje a Ti Parreira.
Um agradecimento especial ao amigo Mário Mendes de Nisa que fez o favor de fornecer a foto. 
Jorge Rosa
NR: Maria Antónia Parreira (a Ti Parreira) nasceu em Nisa em 1912 e tal como refere o texto-recordação de Jorge Rosa foi uma mulher dinâmica que palmilhou as feiras e festas da região, fazendo a alegria da pequenada. Era presença constante e obrigatória na romaria da Senhora da Graça e este artigo mais do que a memória de uma época, constitui também, uma homenagem às pessoas simples, que, com as suas "artes e engenhos" tornavam a vida um pouco melhor, mais alegre e menos penosa.

domingo, 20 de março de 2016

MEMÓRIA DE NISA: O Rossio de "fora" e o Rossio de "dentro"

As grades do jardim público de Nisa- Alguns elementos para a sua história *
Tal como os edifícios, as pontes e outras obras de engenharia - civil ou militar - também as pequenas estruturas que modelam o espaço urbano ou rural, têm a sua história.
A do gradeamento do jardim público não deixa de ser curiosa, por estar (ficar) ligada a alguns factos e circunstâncias políticas, desde a sua implantação até, agora, à sua remoção (arranque). Uma história que se conta com o recurso à consulta de documentos do acervo do Arquivo Histórico de Nisa. Tantas e gostosas histórias que o mesmo encerra...
Um gradeamento "monárquico" e "republicano"
A ideia de implantar, no Rossio de Dentro, um gradeamento sobre o muro de suporte, partiu do último executivo municipal monárquico que serviu o concelho de Nisa, tendo à frente o dr. Mário de Miranda Monteiro, a quem se deve, entre outras obras, o aformoseamento do Rossio (actual zona da Alameda) com a plantação de plátanos.

Lançado o concurso para a feitura e colocação do gradeamento, ainda durante a Monarquia, foi já no período da República que a obra teve lugar e foi concluída, no início de 1911.
Há 93 anos, que o gradeamento do Rossio de Dentro, primeiro, e do Jardim Público, depois, a partir de 1932, se encontrava implantado no espaço nobre da vila.
Agora (2005), tal como no poema, "jaze morto e apodrece". Um golpe profundo, vil, foi desferido na memória e no sentimento de muitos nisenses, ficando a manchar - tal como, aliás, outras "soluções" arquitectónicas e urbanísticas com que, ultimamente, temos sido "presenteados" -, uma obra há muito desejada, mas feita sem a participação, nalguns casos, à revelia, dos seus principais destinatários: a população de Nisa.
O derrube "filipino"
Por coincidência - ou talvez não - o último troço que restava do gradeamento, foi arrancado no passado dia 1º de Dezembro, como a querer assinalar o fim do domínio filipino, em 1640. Só que esta obra - a implantação do artístico gradeamento - não foi feita por "espanhóis", mas sim projectada e realizada por nisenses.
Não a deixaram completar 100 anos, como aconteceu com o Coreto, que vai manter-se no local e fica a assinalar uma época, a nível da arquitectura e da promoção da cultura, através da música.
Que viva a música. Que estralem os foguetes e morram os "velhos do Restelo". Sobre os escombros das grades e da memória, surgirá a modernidade, voarão em vertiginosa velocidade os "skates" e outras enormidades importadas dos States.
O espaço vivido terá mesmo vida. Não será um espaço de todos? Que importa? Importante é requalificar, erguer de novo, destruir pela raíz, não deixar qualquer marca do regime anterior. Daqui a uns meses, quando a obra estiver pronta, "linda", inaugurada, na véspera da disputa dos votos, quem se vai lembrar de umas grades "monárquicas" e "republicanas" de 1911?
DOCUMENTOS
Concurso para fornecimento e collocação de uma grade e oito candieiros, tudo de ferro.
Aos quatro dias do mez de Setembro de 1910, Jayme Marçal Pimentel Fragoso, vereador servindo de presidente da mesma Câmara e tendo dado onze horas da manhã. Foram apresentadas cinco propostas.
Edital: Vedação, sobre o muro de suporte existente no Rocio de Dentro, desta villa.
1º A grade deve ter o comprimento de 118 metros, sendo uma pequena parte em curva, onde o muro faz volta entre duas ruas que se cruzam em angulo recto.
2º A grade terá os supportes necessários para sua conveniente fixação; 3ª Os candieiros serão de collunas, decorativos, e serão colocados 2 nas extremidades da grade, 2 nos lados da escada de cantaria, que fica aproximadamente a meio da grade e os restantes, intermédios, servindo todos de supporte e apoio à grade, dispensando, portanto, em taes pontos de supporte de fixação.
Verba orçamental 350$000 reis
Nisa,10/8/1910 - O Presidente da Câmara: Mário Monteiro
Foram apresentadas várias propostas: Abel M. de Carvalho & Irmão, do Crato; Lino Martins Cardoso, da Figueira da Foz; Empreza Industrial Portuguesa, de Lisboa; Joaquim Porto Basso, de Niza; José Maria Rafael Malhado, de Niza, 348$000 reis.
Auto de adjudicação, do fornecimento e collocação de uma grade e oito candieiros, tudo de ferro, no Rocio de Dentro, d´esta villa de Niza, feita a José Maria Raphael Malhado pela quantia de 348$000 reis.
Aos tres dias do mez de Outubro do anno de mil novecentos e dez, n´esta villa de Niza, paços do Concelho e secretaria da Camara Municipal, compareceu o Senhor Doutor Mario Augusto de Miranda Monteiro, presidente da mesma Camara, comigo secretario d´esta, e pelo mesmo senhor presidente foi declarado, em virtude da deliberação hoje tomada pela referida Camara, que adjudica, para todos os effeitos legaes, a José Maria Raphael Malhado, casado, ferreiro, residente n´esta villa e n´este acto presente, o fornecimento e colocação de uma grade e oito candieiros de illuminação, tudo de ferro, com as condições do respectivo concurso.
Prazo de execução, fornecimento e colocação: até 31 de Dezembro, podendo, todavia prorrogar-se o dito prazo se isso for necessário, ao que tudo se obrigou o senhor José M R. Malhado.
Mário Mendes in "Jornal de Nisa" 

MEMÓRIA: A Procissão dos Passos em 2008

Grande manifestação de religiosidade
A população de Nisa saiu à rua na tarde do domingo (dia 2) para acompanhar o Senhor dos Passos naquela que é, nesta vila e desde há séculos, uma das mais impressionantes manifestações de fé: a Procissão dos Passos.
Num dia de sol, as flores e as cores de cada Passo sobressaíram na sua luminosa simplicidade. De simplicidade e de apelo à reflexão, à compaixão e amor ao próximo falaram as mensagens em cada paragem ou estância.

Foi assim desde o início da procissão, na Igreja Matriz, com muito povo a acompanhá-la, e a banda de música da Sociedade Musical Nisense, a fazer-se ouvir nas suas marchas fúnebres condizentes com a solenidade do evento.
O cortejo religioso desceu a rua Direita, a antiga rua da Cadeia e voltou pela rua Dr. Graça à porta de entrada da antiga vila. Paro por aqui. Vou viajar no tempo e dar a palavra ao professor José Francisco Figueiredo.
Vamos supor que ele assistiu, no passado domingo, à Procissão dos Passos na vila onde ambos nascemos...
“Muito antes da hora marcada para a Procissão começa a fluir ao Calvário o pulcro (lindo, belo) e numeroso bando de anjos e, regorgita de irrequietos querubins, ansiosos por que o organizador do préstito lhes entregue os diferentes instrumentos e símbolos da Paixão de Cristo, que, em salvas de prata ou bandejas, devem conduzir.

Vai à frente o guião, empunhado por moço de forte pulso e, logo a seguir, as sete insígnias, intervaladas por filas de anjinhos, o último dos quais – o anjo da cruz - tem de ser menina robusta, para não soçobrar ao peso do santo lábaro em todo o longo itinerário. Antigamente, incorporava-se também a Verónica, donzela que concitava a admiração geral pela compostura e grave seriedade que tinha de manter durante o percurso. Hoje as prescrições litúrgicas não permitem tal figuração.
Após as imagens de Nossa Senhora do Pé da Cruz e S. João, segue o palio, sob o qual um sacerdote conduz o santo lenho, e, no couce da procissão, a filarmónica e a grande massa dos fiéis. Assim organizado, entra o préstito na igreja Matriz onde é pregado o sermão do Pretório, depois do qual a procissão sai pela mesma ordem, seguindo então o andor do Senhor dos Passos à frente do de Nossa Senhora e S. João. Em todo o trajecto, até ao regresso ao Calvário, ouvem-se os acordes plangentes de sentidas marchas fúnebres. E os sinos não cessam de dobrar, até que, no púlpito exterior do Calvário, o pregador encerra a solenidade exaltando, em comovente oração, os merecimentos da Paixão do redentor.
A segunda-feira de Passos, noutros tempos, era de folga nas oficinas e trabalhos rurais. Nas escolas dava-se o mesmo porque, de costume, confessavam-se os alunos nesse dia e visitavam depois a Senhora da Graça”.

Era assim a Procissão dos Passos. Que começava, no dia anterior, à noite, quando a imagem do Senhor dos Passos era conduzida, em camarim fechado, para a Igreja Matriz e seguida por milhares de pessoas que com profusão de vela e tochas davam ao préstito um grande cenário feérico e de religiosidade.
Ah! E havia também as amêndoas, o visitar das montras, isto nos anos 60, o papeliço (papeluço) das amêndoas para as namoradas...
Muitos passos se davam em louvor do Senhor dos Passos. Passos para a vida, passos no caminho do futuro.
E, hoje?

Mário Mendes – 11/3/2008

segunda-feira, 14 de março de 2016

MEMÓRIA: Há 70 anos era inaugurado o busto ao Dr. Francisco Miguéns

Foi há 70 anos, a 27 de Maio de 1945. Em Portugal e na Europa raiava um sol brilhante e promissor, o céu tingia-se de um azul de esperança, prenunciando o fim da 2ª Guerra Mundial.
Em Nisa, no Jardim Municipal, era inaugurado um busto de homenagem e reconhecimento ao Dr. Francisco Miguéns, pelo trabalho desenvolvido enquanto médico municipal.
O busto foi erguido após subscrição pública sob a iniciativa de alguns homens bons de Nisa, entre estes, o professor José Francisco Figueiredo, que a propósito editou uma pequena brochura intitulada "O Monumento" na qual faz a evocação do ilustre médico nisense e recorda os passos dados para a concretização da iniciativa.
Não por acaso e fruto de idênticas circunstâncias - o reconhecimento pelas qualidades profissionais e humanas, e dedicação à causa pública - trinta e seis anos mais tarde, em Agosto de 1981, outro médico, o Dr. António Granja, foi alvo de impressionante manifestação de júbilo e agradecimento por parte da população do concelho, na presença do Presidente da República, Ramalho Eanes, que inaugurou o busto implantado no coração da Porta da Vila, largo que passou a ostentar o nome do ilustre clínico.  
Uma vida ao serviço da comunidade
O doutor Francisco da Graça Miguéns, médico notável e bondoso, nasceu em Nisa, a 2 de Abril de 1854, filho de Brás Miguéns Beato e de Maria da Cruz. Exerceu durante 34 anos com grande amor, sentido profissional e exemplar dedicação à sua terra e às populações do concelho, o cargo de médico municipal.
Frequentou o Liceu de Santarém onde se revelou como um aluno brilhante. Formou-se em Medicina e Filosofia na Universidade de Coimbra, tendo conquistado diversos prémios e distinções. Após a obtenção do seu diploma universitário, foi convidado pelo Corpo Docente da Universidade para prosseguir como professor de Medicina naquele prestigiado estabelecimento de ensino, convite que declinou, tendo preferido voltar à sua terra, sendo nomeado médico municipal a 11 de Agosto de 1880, tomando posse do cargo nesse mesmo dia.
Desde Agosto de 1880 e durante 34 anos, o doutor Francisco da Graça Miguéns, trabalhou com desvelo, bondade e abnegação, mostrando sempre a mesma disponibilidade para tratar dos seus conterrâneos e acudindo a todas as situações para que fosse solicitado, tanto de dia como de noite.
Tendo em conta os serviços relevantes prestados ao concelho, a Câmara Municipal decidiu, em 24 de Julho de 1919, atribuir o nome do ilustre médico e benemérito à antiga Rua Direita e colocar o seu retrato no salão nobre dos Paços do Concelho, de onde foi retirado por expressa solicitação do próprio clínico.
Vítima de doença, faleceu a 10 de Outubro de 1933.
 Dr. Francisco da Graça Miguéns
Viveu a sua vida socegada,
Entregue ao bem e ao culto da sciência,
E quando a morte veiu, - a consciência
Tinha a pureza e a luz de uma alvorada.

Sua alma foi, na terra, a enamorada
De tudo o que há de belo na existência,
Tudo o que, pela forma ou pela essência,
Do Ideal atinge a r´gião imaculada.

E sempre em torno dele, suavemente,
Um murmúrio de prece esvoaçou:
- Era o coro de bênçãos, puro e ardente,

De tantas criancinhas que afagou,
De tanto pobrezinho e tanto doente
Que o seu coração de oiro consolou.
12/10/1933 – Dias Loução