domingo, 10 de abril de 2016

ALPALHÃO: A arte da pedra de António José Pedroso

Durante quatro dias (17,18,24 e 25 de Outubro) a sala de entrada do antigo Jardim de Infância de Alpalhão abriu a porta para mostrar a exposição “Pedra com Arte” de António José Pedroso.
Nascido em Lisboa há 50 anos, António José Pedroso veio para Alpalhão ainda adolescente para trabalhar nas pedreiras.
Aqui acabou por namorar, casar e constituir família. Uma filha e um filho são as suas “raízes” alpalhoenses de 35 anos de vivência nesta vila, onde acabou por se associar às colectividades, à Paróquia, à autarquia e a todas as iniciativas de promoção desta terra que sente como sua.
Ligado às pedras e às pedreiras, desde pequeno, António José Pedroso é encarregado na empresa Granitos da Maceira, que extrai da terra os famosos granitos azuis de Alpalhão.
O gosto e a arte pela pedra, de aproveitar, com criatividade e “alma” artística, os rejeitos ou desperdícios da pedra, ganhou-o depois de ter frequentado um curso de formação em cantaria artística e ornamental.
“Antes eu já fazia algumas coisas por brincadeira, mas no curso aprendi a desenvolver algumas técnicas e nos tempos livres nunca mais parei. Tudo o que está nesta exposição (83 peças) foi feito por prazer, por pura recreação. Já me pediram para fazer peças por encomenda, mas a componente comercial, por enquanto, está fora de causa”.
Durante os quatro dias em que a exposição esteve aberta ao público, muitas foram as pessoas que passaram pela ampla sala do antigo Jardim de Infância, quase todas surpreendidas não apenas com a variedade e beleza das peças expostas, mas, sobretudo, por desconhecerem os dotes artísticos de António José Pedroso.
Janelas, nichos, figuras religiosas, fogões de sala, candeeiros, um magnífico presépio, tudo em granito esculpido, trabalhado com a paciência e o pormenor que fazem os artistas.
Artistas da pedra, que requer cuidado, esmero e canseira sem par.

“Esta foi a minha primeira exposição. Por diversas vezes me convidaram para mostrar os meus trabalhos em vários sítios, mas fui recusando, até que surgiu esta oportunidade, a fazer lembrar a Bienal da Pedra. É aqui que tenho trabalhado toda a vida, era aqui que fazia sentido fazer a minha primeira exposição, que pode ter sido a primeira de muitas exposições.”
António José Pedroso não esconde a alegria que esta mostra lhe causou, quer pelo número de visitas, quer pelas mensagens deixadas no “livro de “visitas”.
“ Foi muito bom ter vindo aqui tanta gente e também receber palavras de estímulo para continuar e de apreço por tudo o que viram. O que aqui está foi feito por prazer, não ganhei um tostão com estas peças. O ano passado, ofereci algumas peças pelo Natal, inclusive aos meus filhos. Eram prendas originais, em tempo de crise”.
A exposição foi organizada por Lídia Rolim, Maria d´Assunção e Maria José Alfaia, com o apoio da Junta de Freguesia de Alpalhão.
À falta da Bienal da Pedra, a arte de António José Pedroso, trouxe um pouco de animação e cultura, à terra dos granitos. Iniciativa que uma idosa alpalhoense “agradeceu” na singela quadra:
Ó estrelinha do norte
O pôr-do-sol aparece
Se queres saber o meu porte
Procura a quem me conhece!

Mário Mendes in "O Distrito de Portalegre"- 29/10/09

sexta-feira, 8 de abril de 2016

HOMENAGEM: António Eustáquio - Alpalhoeiro de "sangue na guelra"

Discurso proferido na Homenagem realizada em em 12/11/2005 em Alpalhão

"Hoje é um dia, particularmente, feliz, por estarmos aqui reunidos e podermos, de viva voz e publicamente, enaltecer as virtudes morais, sociais e humanitárias de um filho desta terra: o senhor António Joaquim Eustáquio. António Eustáquio, nasceu ali na Rua da Carreira, numa casa, pequenina, de que hoje resta, apenas o local. Uma casa pequenina, como tantas que conheci na "Vila" (em Nisa) e que albergavam famílias com dez, doze, catorze e mais pessoas.Eram casas pequeninas, com dois ou três compartimentos acanhados e onde, tantas vezes, ainda cabia o macho, o burrito, a cabrinha e o porco.Eram casas pequeninas, cheias de gente (o concelho, desculpem-me, chegou a ter nessas décadas de 40, 50 e 60, do século passado, quase 20 mil habitantes), cheias de miséria, mas transbordantes de amor, de carinho e afectos. A história da sardinha, dividida por não sei quantos, não é, não foi - infelizmente - uma fábula, mas sim uma realidade nua e crua, sentida por muitas famílias.Relembro o passado, para que possam perceber que, nascido no seio de uma família de dez irmãos, a António Joaquim Eustáquio não restava outra alternativa senão fazer-se à vida, bem cedo, na idade de todos os sonhos e brincadeiras.
O seu tempo de menino foi passado a trabalhar no campo, nos "barros" do Cano e do Ervedal, até ir para a vida militar. E, pela vida militar se deixou ficar até à ao posto de sargento-ajudante e a passagem à situação de reforma, com as idas e vindas do Ultramar, nos tempos de brasa da guerra colonial, de permeio. Aqui começa, verdadeiramente, a "segunda vida" de António Eustáquio. Não esqueceu a casa na Rua da Carreira, a família numerosa, as dificuldades que enfrentou e no remanso do lar, encaminhados os filhos, engendrou uma forma de ser útil à sociedade e ao mesmo tempo de combater o ócio que, não raras vezes, é o caminho mais curto e directo para o vício.
 Há uns bons anos, chamei-lhe, numa entrevista, "alpalhoeiro de sangue na guelra". O título, a meu ver, sugestivo, pretendia associar a sua origem, que nunca renegou e de que conserva os traços identitários inconfundíveis, como o sotaque e a vontade, granítica, de remover montanhas, com o espírito de iniciativa, pouco comum num jovem com mais de setenta anos. O sangue, ou, mais propriamente, a falta dele, fez despertar em António Eustáquio, um dador de muitos anos, o desejo, irreprimível, de constituir uma Associação, a nível distrital, que dinamizasse, de forma organizada, não só as recolhas benévolas de sangue, mas, sobretudo, pudesse agir num trabalho de sensibilização para cativar novos dadores e fazer ruir alguns dos mitos e tabús que ainda imperavam sobre as dádivas de sangue. Nascia, assim, em 1990, e por acção directa, decidida e voluntária de António Joaquim Eustáquio, a Associação de Dadores Benévolos de Sangue do Distrito de Portalegre. Ao longo destes 15 anos, a Associação tem desenvolvido um trabalho notável; percorreu um caminho não isento de escolhos e afirmou-se, ao serviço da comunidade, principalmente, pela força, vontade e determinação deste homem. Fazendo recolhas, regularmente, em 12 dos 15 concelhos que integram o distrito (as excepções são Campo Maior, Elvas e Gavião) a Associação de Dadores de Sangue do Distrito de Portalegre, recolheu neste espaço de tempo e sem contar com as dádivas feitas, directamente, nos serviços próprios do Hospital Distrital, cerca de dez mil dádivas benévolas de sangue, contribuindo para a satisfação das necessidades do Hospital Dr. José Maria Grande e dando um contributo relevante para suprir carências a nível de outras unidades de saúde da região e do país.
A estas acções de recolha de sangue, programadas e descentralizadas por todos os concelhos ao longo do ano, e realizadas por uma equipa especializada, acresce o trabalho que vem sendo, ultimamente, desenvolvido na sensibilização para as dádivas de medula óssea, com a constituição de um banco de dados de possíveis dadores. Toda esta acção, pioneira, humanitária e humanista, de que beneficia toda a comunidade, não teria sido possível sem a dedicação, sem a vontade inabalável, e sem o empenhamento cívico deste cidadão da nossa terra. Apesar de não possuir uma grande preparação técnica na área da saúde, o programa que António Eustáquio mantém, desde há anos, às quartas-feiras na Rádio Portalegre - que julgamos, a este nível, pioneiro - não deixa de constituir uma original forma de comunicação, não só com o universo dos dadores de sangue, mas com o comum dos cidadãos, pela espontaneidade, pelos exemplos, pela força apelativa das mensagens. Muitos dadores, estou certo, foram "ganhos" desta forma. Outro aspecto saliente do programa é a "desmontagem", a clarificação, o esclarecimento de dúvidas, que Eustáquio faz de um modo muito directo, com exemplos práticos e sem artifícios de linguagem, supostamente técnica ou intelectual. (Abro aqui um parêntesis para convidar/sugerir às entidades responsáveis na Saúde para seguirem, também, idêntico caminho.).Para além de fundador e presidente da Associação de Dadores Benévolos de Sangue do Distrito de Portalegre, António Joaquim Eustáquio pôs de pé e dirigiu, até à passada segunda- feira, a delegação distrital da Liga dos Combatentes. Também aqui o seu trabalho foi bem visível, empenhado e fez ressurgir, com benefícios para todos os ex-combatentes, uma associação quase moribunda. O levantamento feito dos talhões dos ex-combatentes nos cemitérios do distrito; o arranjo, embelezamento e dignificação destes espaços, em colaboração com as Câmaras Municipais, como aquele que foi feito em Nisa; a organização das comemorações do Dia dos Combatentes e a representação e defesa dos interesses dos ex-militares perante as instituições governamentais, têm sido possíveis graças à organização e combatividade do Núcleo.
Mas é, sobretudo, através do trabalho desenvolvido à frente e com a Associação de Dadores, que queremos assinalar o mérito exemplar deste cidadão do concelho, do distrito, da região e do país, porque os benefícios resultantes das dádivas de sangue, não conhecem fronteiras nem extractos sociais: são de todos, de quem, voluntariamente, dá e de quem, no infortúnio da doença, recebe.
O labor altamente meritório da Associação de Dadores, tendo à frente e principal dinamizador, António Joaquim Eustáquio, permitiu suprir carências do preciso líquido e contribuir como poderoso lenitivo para atenuar a dor física e psicológica de muitos doentes e das suas famílias.A homenagem que aqui lhe prestamos, mais não é do que o reconhecimento público e devido, a um cidadão que recusou o conforto da situação de reforma e se empenhou, de forma voluntária, decidida e abnegada na criação e desenvolvimento de uma associação, dirigida para proporcionar ao seu semelhante um pouco mais de esperança e, quantas vezes, um novo sentido para a vida. Em vez de se limitar aos bancos do jardim, a "matar o tempo morto" que antecede a morte, Eustáquio preferiu transformar a experiência de vida acumulada, numa causa social ao serviço do seu semelhante, mostrando-nos que ainda há exemplos, despojados, que ajudam a acreditar que é possível um mundo melhor. António Eustáquio, com a força da sua determinação, do seu carisma e da sua entrega, merece que lhe tributemos, publicamente, o mais sincero e respeitoso agradecimento.
Obrigado, António Eustáquio!"
Mário Mendes - Director do "Jornal de Nisa"

TRADIÇÕES: As Rendeiras de Niza *


 Nos confins do Alto Alentejo, encontra-se, localizada em Niza, uma antiga e curiosa indústria – a das rendas.

É interessante ver as rendeiras, sentadas em tripeças, junto das portas, vestidas com os trajos característicos – saias escuras com barras claras, roupinhas de pano, lenço traçado sobre o peito, e mantilha curta na cabeça ou o clássico chapéu nizense; adornadas com gargantilhas e fios de ouro, onde predominam os antigos hábitos de Christo, de ouro esmaltado.Umas, com o rebolo sobre os joelhos, vão fazendo as rendas de colchete, qual delas a mais complicada, ou desfiando no alvo pano de linho os entremeios tão caprichosos, produtos de extrema paciência; outras fazem rendas de agulha, que servem as mais das vezes para colchas que levam anos a compor e que passam gerações guardadas nos arcazes, servindo somente em dias festivos de bodas ou batizados.
A indústria de rendas de Niza – até há pouco restringida quasi ao uso local, - tem ultimamente exportado muitos e belos exemplares, notando-se por isso um certo desenvolvimento no labor das rendeiras, que oxalá não abandonem os modelos e desenhos que ainda seguem e imprimem às suas rendas um carácter acentuadamente regional.
NOTAS: Na fig. 1 estão representadas duas rendeiras trabalhando à porta de casa nas rendas de rebolo, o mesmo sucedendo na fig. 3, onde essas rendeiras são acompanhadas por outra mulher que desfia um entremeio. Na fig. 2, das três mulheres, tipicamente vestidas, a do meio trabalha em renda de agulha.
Luís Keil
* Este texto de Luís Keil deve remontar ao início dos anos 40 do século passado quando o autor elaborou o Inventário Artístico de Portugal (Distrito de Portalegre -1943)
Publicado no semanário "Alto Alentejo" - 3.8.2011

Na morte de Cruz Malpique ( 6/9/1992)

O dr. Manuel da Cruz Malpique faleceu na cidade do Porto, a 6 de Setembro de 1992, próximo de completar 90 anos de idade.
O seu funeral, ao contrário do que ele próprio previra, transformou-se numa gigantesca manifestação de pesar, por força da presença de centenas e centenas dos seus ex-alunos, instituições e população que não quiseram deixar de lhe prestar uma derradeira e bem expressiva despedida.
Num dos dias subsequentes à sua morte, assim de lhe referia no semanário "O Arrais" (Peso da Régua) - um dos muitos jornais regionalistas a que Cruz Malpique deu a sua colaboração -), Camilo de Araújo Correia:
" Conheci, pessoalmente, o Dr. Cruz Malpique, há cerca de trinta anos, num almoço de encontro com meu pai, na Pousada do Marão. Pelo que posso recordar, esse encontro relacionou-se com a publicação do ensaio "Perfil Literário de João Araújo Correia", acabado de sair ou prestes a sair do prelo. Não me recordo bem. O que bem me recordo é da figura do Dr. Cruz Malpique, um homem magro a dar conta de tudo. Sem ser avassalador, teve sempre nos dedos o fio da conversa. Fiquei a compará-lo ao instrumento dominante de uma pequena orquestra de câmara.
Nessa conversa, que eu praticamente só escutei, não conheci o Dr. Cruz Malpique. Pressenti-o... Vim a conhecê-lo, depois, através dos livros e opúsculos, que teve a gentileza de me oferecer, e da infalível e brilhantíssima colaboração no "Arrais". A sua página, a "Página Cruz Malpique", como é conhecida entre os tipógrafos, educava e divertia a grande maioria dos leitores do nosso jornal. Um ou outro, de letras mais grossas, me dizia, a cada passo:
- Aquele Cruz Malpique... às vezes... não o entendo lá muito bem... mas gosto sempre de o ler!
Gosta-se sempre de ler Cruz Malpique. O jeito pedagógico, que fez dele o inesquecível professor do Liceu Alexandre Herculano, tudo nos serve, com raro encantamento, da sua inesgotável cultura.
Cruz Malpique homenageado pelos seus antigos alunos do colégio Salvador Correia de Sá (Angola)
De grande capacidade intelectual e de trabalho, pôde o Dr. Cruz Malpique no campo de investigação reflectir sobre os mais diversos assuntos de pedagogia, psicologia, sociologia e literatura. Na investigação literária, teve particular simpatia pelos Perfis (literários, psicológicos e humanísticos). A sua vasta galeria vai de Leonardo da Vinci a Gregório Maranon.
Ao longo da sua longa vida de estudioso e publicista, deu o Dr. Cruz Malpique à estampa cerca de duzentos títulos, a sobressair, luminosamente, na sua biblioteca cultural. Ao legar tão valioso manancial de cultura ao Liceu de Alexandre Herculano, conseguirá o Dr. Cruz Malpique acender tão gratificantes recordações nos antigos alunos que visitem a Biblioteca e dar valioso apoio a quem a frequentar.
Por serem últimas, não vai a direcção de "O Arrais" querer que sejam mais amargas as Chávenas de Café Quase Amargo, ainda inéditas. A pensar nos recentes e novos assinantes, irá certamente repetir aquelas que lhe parecerem mais oportunas e, no mesmo sentido, os trechos mais escolhidos, publicados sobre o título genérico Quando a Barlavento? Quando a Sotavento?
Não será tão pesado o nosso luto, se ficar por mais algum tempo, entre nós, o ilustre e querido companheiro de toda a vida do Arrais. "
- Camilo de Araújo Correia - in "O Arrais - 17/9/1992

quinta-feira, 7 de abril de 2016

GENTE DA MINHA TERRA: Joaquim Correia Mourato

 “ É preciso sarar as feridas da guerra do Ultramar”_ Joaquim Mourato, ex-combatente na Guiné
Cerca de nove mil mortos, mais de quinze mil e quinhentos ex-combatentes portadores de deficiência, e mais de 140 mil sofrendo distúrbios pós-guerra, afectados com deficiências motoras, sensoriais, orgânicas e mentais, homens marcados física e psicologicamente para o resto das suas vidas, arrastando nesses processos pós traumáticos as próprias famílias e os amigos.
A história de 13 anos de guerra colonial, iniciada em Angola há 50 anos (Fevereiro de 1961) está por fazer.
Em “Gente da Minha Terra” publicamos, hoje, o relato de um ex-combatente, herói anónimo entre tantos outros da guerra do Ultramar.
Joaquim Maria Correia Mourato, 66 anos, nasceu e reside em Nisa e foi um, de entre o milhão e quatrocentos mil homens que demandaram terras africanas de Angola, Moçambique e Guiné.
Uma história, a sua, que é também uma homenagem aos militares que perderam a vida e às famílias que não esquecem os entes desaparecidos.
Do campo para a vida militar
“A minha família era numerosa e eu trabalhava no campo quando fui chamado para o serviço militar. Apresentei-me em Elvas no Batalhão de Lanceiros, onde fiz a recruta. Daqui fui para Estremoz para o Regimento de Cavalaria 2 para tirar a especialidade. Levava comigo, sem o saber, um louvor do comandante de companhia e fui escolhido para integrar um grupo de operações especiais.
A preparação foi feita já na Guiné para onde tínhamos embarcado. Estive naquela antiga província de 1966 a 1968 e fazia parte do Batalhão de Cavalaria 1897.”
Joaquim Mourato percorreu muitas regiões da Guiné, como Mansabá, Mansoa, Cufar e outras. Terras de balantas, beafadas, fulas e mandingas, etnias cujos nomes pouco ou nada dirão aos portugueses. Andou por tabancas (aldeias) comeu bianda (arroz) pisou a pé muitos quilómetros de capim e de bolanhas, viu camaradas seus a tombarem e sentiu algumas vezes a morte a rondar-lhe o corpo.
Ia preparado para a guerra e nenhuma situação o fez vacilar. Destemido, ganhou a confiança dos seus camaradas de armas e a sua coragem em combate foi reconhecida pelos mais altos comandos militares.
“ O meu batalhão era chamado para muitas zonas e operações onde se fazia sentir mais intensamente a presença do inimigo. Participámos na célebre “Operação Fabíola” em Abril de 1967, entrámos várias vezes nos Morés, que era considerado um dos “santuários” do PAIGC. Nunca senti medo e em qualquer situação avançava sempre. Mas eu gosto pouco de falar desse tempo...”
Corajoso e humilde, Joaquim Mourato foi louvado pelo Comandante do Comando Territorial Independente da Guiné e do louvor consta que “em todas as situações de combate tem demonstrado invulgares qualidades de coragem, espírito de sacrifício, entusiasmo e sangue frio (...). De registar a sua atitude no decorrer da “Operação Fabíola”, em que na exploração de um sucesso, tendo avistado a grande distância alguns terroristas armados, em fuga, instantaneamente se lançou numa corrida veloz sobre eles através dum capim altíssimo e denso movendo-lhes perseguição aturada”.
A distinção não lhe mudou a vida, nem as condições próprias de um soldado raso. Continuou a viver como os seus companheiros, o dia a dia difícil, de combatente, numa terra distante, estranha e de clima ingrato.
“ Estávamos em guerra, tínhamos sido mobilizados para combater e o que queríamos todos era cumprir a comissão e se possível regressarmos sãos e salvos à Metrópole”.
Nem todos conseguiram esse desiderato. Milhares, de um lado e do outro, perderam a vida, os sonhos de constituírem família ou de abraçarem os entes queridos.
Louvores e exemplo para a unidade
Entretanto, Joaquim Mourato voltava a ser distinguido, agora por desempenho na operação “Efusão III”.
“É daquelas coisas em que nem sequer temos tempo para pensar. Íamos numa picada e o guia nativo que estava na frente tinha sido ferido com bastante gravidade e mesmo debaixo de fogo, não pensei duas vezes, a não ser em lhe prestar os primeiros socorros. Esqueci-me de tudo o resto, mas felizmente o homem acabou por salvar-se.”
O facto não passou em claro e a Ordem de Serviço do Batalhão de Cavalaria 1897 regista, em louvor, o sentimento de “gratidão e humanidade excepcionais”, reafirmando que esta praça é “aprumada, correcta e leal, um exemplo constante que muito prestigia e honra a unidade a que pertence”.
Em Março de 1968, por despacho do Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné, general António de Spínola, Joaquim Maria Correia Mourato é condecorado com a Cruz de Guerra de 4ª classe, condecoração que só viria a receber alguns anos depois.
“Regressei da Guiné e fui trabalhar para França, para a região de Tours. Em 1974, após o 25 de Abril ainda me convidaram, com viagens pagas e tudo para vir receber a Cruz de Guerra no dia 10 de Junho, mas a cerimónia não se realizou e lá fiquei à espera.
Voltei de França em 1989 e retomei a actividade que lá aprendi, pedreiro e estucador. Já tenho a Cruz de Guerra, os diplomas e os louvores que me passaram, mas a minha vida continua a ser de trabalho. As condecorações não me melhoraram a vida. A guerra colonial já lá vai, provocou danos irreparáveis a muitas famílias, muitos camaradas ficaram feridos e muitos outros nunca mais puderam ver as suas terras e as suas gentes.
Os governantes e a gente mais nova parece que esqueceram a guerra do Ultramar, mas é bom que saibam que durante esse tempo não pudemos escolher o nosso destino e sonhar com o futuro, sem ter o compromisso da guerra pelo meio.”
A história de Joaquim Mourato é o pretexto para lembrarmos outros ex-combatentes nascidos no concelho de Nisa e em todas regiões do país. Muitos, morreram, defendendo o conceito de “Pátria” vigente. Outros, feridos, nunca mais puderam retomar os sonhos da juventude. Uns e outros, todos, merecem ser lembrados pelas entidades municipais e governativas.
Para que não se passe uma esponja sobre uma guerra que tanto sofrimento e angústia trouxe a milhares de famílias.
O 10 de Junho – Dia de Portugal
O dia 10 de Junho, Dia de Portugal, - hoje também de Camões e das Comunidades Portuguesa – foi, até ao 25 de Abril de 1974, o dia das paradas militares, de exaltação nacionalista, da apologia guerreira e da atribuição de condecorações, por feitos em combate ou de bons serviços nos territórios ultramarinos.
Desfilavam “rapazes”, alguns “atletas ginasticados”, carne para canhão de uma guerra injusta.
Era o “cortejo das viúvas” de que fala o Rui Veloso numa das suas canções, mulheres ainda jovens, na flor da idade, vestidas de luto e que iam ao Terreiro do Paço para receberem, a título póstumo, as condecorações atribuídas aos maridos, filhos ou irmãos.
Era o tempo dos “soldadinhos de chumbo” regressados num caixão de pinho como cantou, de modo pungente, o Adriano Correia de Oliveira.
Dramas esquecidos de uma guerra que tantos jovens vitimou e sobre a qual o país não soube, ainda, lamber as suas feridas.
Mário Mendes in "Fonte Nova" - 15/2/2011

NO RASTO DA MEMÓRIA: O Bom Pastor *

Estas palavras são um tributo a todos os pastores. Foram muitos os que passaram pela casa do meu pai e com os quais tive oportunidade de conviver. As primeiras memórias vão para o início dos anos setenta. No Couto da Marfeira onde o meu pai era rendeiro, recordo dois grandes homens no pastoreio do gado. O primeiro é o Ti Zé Barra: O Ti Zé Barra era um homem altivo, não tinha o polegar da mão direita, usava chapéu de aba direita, era mestre no maneio do gado e o melhor na caça com pau. O outro pastor que recordo, primeiro no Azinhal e depois na Marfeira, foi o tio do meu pai, José Bento. A casa da Marfeira utilizada pelos pastores era de uma pobreza franciscana. Uma sala ampla com lareira e os respectivos utensílios; a tenaz, a trempe, panelas de barro, bancas de pau, uma pequena mesa (mesa de pastor) e a lenha ali ao canto do lume. Estacas de madeira espetadas na parede, serviam para pendurar qualquer coisa, o casaco, o barril de barro para manter a água fresca, o machado, etc. Acompanhando as ovelhas de pastagem em pastagem, o pastor era um autêntico nómada.
São também dessa época alguns episódios passados na Herdade da Nave da Cheira, entre Póvoa e Meadas e Castelo de Vide. Aqui a casa tinha outras condições, construída sobre um enorme rochedo de granito, tinha várias divisões e forno. Foi na Nave da Cheira onde os meus avós maternos estiveram a explorar a horta entre 1969 e 1976, sempre na companhia de pastores. Aos Domingos íamos jantar a esta propriedade, para podermos usufruir da sua companhia. O mobiliário era apenas o indispensável. A mesa das refeições era tão pequena que tínhamos de colocar o prato no colo. No canto oposto ao nosso o pastor preparava o seu jantar. Chamava-se José Domingos e era natural de Montalvão. A minha avó convidara-o para jantar connosco, o pastor agradeceu mas manteve-se à distância a preparar a sua refeição. Era muito pequeno, mas ainda hoje recordo aquela imagem, a silhueta do pastor a jantar uma salada de tomate.
Deslocar os animais de um local para outro era um trabalho cansativo mas divertido. Na medida do possível também ajudava nestas mudanças. Íamos a pé de Castelo de Vide para o Pai Lázaro (Montalvão), do Pai Lázaro para o Pinheiro (Pé da Serra), do Pinheiro para a Velada, etc. Posicionava-me à frente do rebanho e o pastor atrás ou vice-versa. No Pinheiro e no Vale Pedrão, as casas eram autênticos palheiros, sem um mínimo de condições. No Pai Lázaro onde a casa era um pouco melhor, os pastores eram por norma de Montalvão. Por ali passaram, entre outros, o Ti João Guanito, o Ti João Pássaro, o Manuel Pintor, o João Manuel e claro o tio do meu pai, José Bento. À noite lá ficavam os pastores junto do lume, com um rádio a pilhas e os seus cães. Não sei se por companhia tinham apenas a solidão, creio que não. Nas noites de céu limpo, eram aos milhões as estrelas que desciam sobre o monte. A sua luz iluminava o sonho do pastor. Quais seriam os seus sonhos? Quais seriam os seus projectos? No fim do dia, lá ia o Ti José Bento passar o serão com o Severino ao Monte Queimado ou ao Monte da Fonte dos Cantos. O Severino era o vizinho mais próximo. Mas para ir do Pai Lázaro ao Monte Queimado não era bem a mesma coisa que ir ali ao fundo da rua. Eram homens rijos, rijos no corpo e fortes no espírito, nada lhes metia medo. O João “Tanganho” é outro pastor que recordo, andava sempre a pé. Vinha a pé do Pai Lázaro para o Pé da Serra, do Rolengo (Nisa) para a Velada. Preferia andar a pé mesmo que lhe oferecessem transporte. O João tinha apenas um braço mas fazia todos os trabalhos relacionados com a sua actividade, o pior era quando se zangava. Às vezes nas mudanças do gado, as ovelhas saiam fora da rota, iam para todo o lado, excepto para onde nós queríamos. Nesses momentos o João gritava a bom gritar e o cão é que “pagava as favas” sem ter qualquer culpa.
Muitos desses pastores já partiram para a sua última morada. Nós na Terra quantas vezes continuamos à procura do Bom Pastor para nos indicar o trilho certo. Há dias sonhei com um pastor que já faleceu. Nos sonhos tudo é possível, não questionamos o que não faz sentido. Nesse sonho uma pessoa que me é próxima encontrava-se com uma doença grave, agonizava na cama sem qualquer esperança de cura. Reparo que no canto do quarto estava um dos pastores. Vou chamar-lhe simplesmente “José”. Dirijo-me a “José” e pergunto-lhe: Como era possível estar ali, dado que falecera há já tantos anos. O bom pastor respondeu-me nesse sonho. – “É verdade que já parti. Parti mas estou sempre presente. Estou aqui para ajudar”.Nos últimos trinta anos os hábitos mudaram, é a evolução natural dos tempos. Não sei se os pastores ainda dormem nos montes. Não sei se ainda se muda gado. Não sei se ainda há pastores. Sei sim que estou grato a todos os bons pastores, pelo privilégio do convívio e pela aprendizagem. Quem sabe se, os que já partiram, não estão a interceder junto das estrelas, de todas as estrelas do céu. Que nas noites de céu limpo desçam até à Terra. Desçam para nos iluminar e para nos mostrar o melhor caminho, a todos, homens e mulheres do mundo. Quem sabe se os sonhos não fazem sentido. Quem sabe se, não continuam a olhar por nós, por todos nós sem distinção. Nós, ovelhas tresmalhadas.
Luís Mário Correia Bento
  • Artigo publicado no "Jornal de Nisa" - 1ª Série

quarta-feira, 6 de abril de 2016

TEMAS E PROBLEMAS: O Centro Histórico de Nisa (1)

 É preciso restituir-lhe a vida e a dignidade! 
 Nisa velhinha / Uma porta e uma janela /Tanta gentinha / Quase mal cabendo nela
Os versos, da autoria do poeta nisense José Gomes Correia dão o mote a uma das populares marchas do Rancho das Cantarinhas de Nisa e retratam a realidade dos anos sessenta do século passado.
Nesse tempo, a vila antiga, o “Japão”, como era designado, fervilhava de gente e de vida. Faltavam as infra-estruturas básicas. Poucas casas dispunham de água e esgotos. Havia a “Aletrina” (latrina), um espaço situado paredes-meias com o núcleo urbano e que servia como aterro sanitário. As condições sanitárias e ambientais deploráveis não impediam o pulsar de agitação e de vida que as ruas mostravam. As crianças enchiam os largos como a Praça, o Canto do Poço, o São Pedro e a Porta de Montalvão de risos e brincadeiras. Era essa a imagem da vila antiga antes do grande êxodo de nisenses para França à procura de uma vida melhor.
O Centro Histórico “nasceu” mais tarde, depois do 25 de Abril e “baptizaram-no” assim na esperança, vã, de lhe atenuarem as dores e os sinais já latentes de uma degradação e abandono que haviam de se acentuar com o correr do tempo.
É certo que a Câmara implementou algumas acções de valorização e de revitalização da zona intra-muros, tendo na altura e para o efeito criado um Gabinete Técnico Local.
Sensibilizaram-se os moradores sobre técnicas e materiais de construção a aplicar, a importância do património e os processos de obras. Recuperaram-se umas tantas casas, apoiou-se um número significativo de pessoas e implementou-se um projecto de luta contra a pobreza. O projecto passou, a pobreza ficou e o chamado "centro histórico" de Nisa, continuou a morrer lentamente.
Os moradores continuaram a debater-se, sem justificação, com uma teia burocrática inenarrável, sempre que quisessem fazer obras.
Tudo isto porque a seguir ao "boom" das reconstruções patrocinadas pela Câmara, vieram as imposições de materiais, as restrições nos projectos de remodelação e, mais recentemente, novas directrizes centralizadoras emanadas da tutela: para construir ou remodelar no Centro Histórico é preciso pedir pareceres e contra-pareceres a Évora.
As consequências estão à vista: de um momento para outro, tudo parou, o silêncio sepulcral abateu-se sobre um espaço vivido de Nisa, a degradação, o desleixo e o abandono tomaram conta do “casco histórico”.
Não houve uma política de atracção ou, sequer, de fixação, dos moradores mais jovens. Os velhos vão morrendo e por cada idoso que morre é uma casa que se fecha, por vezes, definitivamente.
O espaço dentro das muralhas é indigno de ter o nome de Centro Histórico. É a zona mais despovoada da vila, a mais degradada e insegura. É irrefutável que dispõe de diversos motivos monumentais e arquitectónicos dignos de visita. Mas, os centros históricos, no seu todo, não são, não devem ser, um museu apenas para turista ver. Devem privilegiar, acima de tudo, a qualidade de vida dos seus moradores. São eles que lhe dão vida e razão de existência.
Para isso, é preciso um novo olhar, um conceito mais arrojado para os centros históricos. Construir ou remodelar nesta zonas sensíveis tem que deixar de ser um "bico-de-obra" e uma monstruosidade burocrática, quando o fundamental será desburocratizar, explicar, planear com os residentes, sensibilizar e ajudar.O poder central – se não quiser, como já acontece em muitas localidades -  que os “centros históricos” se  transformem em zonas quase inacessíveis, desabitadas e de má fama, tem que descentralizar nesta área, verbas e competências, sobretudo estas, para as autarquias locais.
De outro modo, aquilo que já hoje é a “imagem de marca” de muitas zonas e núcleos históricos, tenderá a aumentar e a transformar espaços residenciais e monumentais com potencialidades de desenvolvimento, em locais fantasmas, degradados e abertos apenas à intervenção arqueológica.
E quando uma terra deixa morrer o coração e o útero que a gerou, nada de bom se lhe pode augurar...
Mário Mendes - 13/8/015