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quinta-feira, 8 de junho de 2017

GENTE DE ALPALHÃO: Henrique Fortunato

"A minha vida dava um filme"
Jogou à bola, lembra os jogos entre Nisa e Alpalhão e as antigas rivalidades entre as duas vilas do concelho. Os bons ou maus momentos futebolísticos do "seu" Sporting dá-lhe pano para mangas para as conversas com os clientes, entre o vai e vem do pente e da tesoura. No corte da barba, é melhor esse tipo de conversas ficar de fora, "não vá o diabo tecê-las". É a gente a falar. Barbeiro há 56 anos, conversador nato e com uma risada a terminar cada frase, é assim Henrique Martins Fortunato, um homem pacífico e uma das figuras populares de Alpalhão. Com um sorriso de orelha a orelha, contou-nos um pouco da sua vida e profissão.
"Não tenho muito para contar, ou, então, se fosse a contar todas as peripécias da minha vida, dava para fazer um grande filme. Sou barbeiro há 56 anos e estou aqui nesta casa desde 1955, há 50 anos. A taberna abriu um pouco mais tarde, há 43 anos, tem sido esta a minha vida, vai dando para me governar".
Dado o mote para a conversa, Henrique Fortunato conta-nos como foi o começo da sua actividade como barbeiro.
"Aprendi a arte de barbeiro com o ti Fernando Bate-Certo e tinha que bater certo, não é verdade? Comecei a aprender com 13 anos e assim andei até ir tirar sortes, sem ganhar um tostão. Depois de acabada a tropa é que abri o estabelecimento aqui na rua do Castelo."
Clientela é coisa que parece não faltar a este barbeiro alpalhoense, que nos diz ter muitos clientes que "vêm de Nisa, Tolosa, Gáfete, Alagoa, Castelo de Vide, Póvoa e Meadas e até de Portalegre, sem contar com as pessoas de Alpalhão".
São clientes de muitos anos, "a maioria com mais de 40 anos de idade, mas também aparecem alguns jovens, porque há poucos barbeiros".
Henrique Fortunato diz gostar da sua profissão e daquilo que faz. Já foi presidente da Junta de Freguesia, mas durante pouco tempo.
"É um cargo que só dá chatices e eu não tinha feitio para me indispôr com ninguém. Assim resolvi pedir a demissão e dedicar-me àquilo que tenho feito sempre. Sempre gostei disto e de aprender, quando vou a algum lado reparo sempre como fazem as coisas. Numa ocasião, em Lisboa, vi uma senhora a cortar cabelo e que bem que ela cortava. Desde que se aprenda e queira fazer as coisas com perfeição, é uma profissão como outra qualquer. Só não percebo porque é que há cada vez menos gente a querer ser barbeiro".
Para além da barbearia e do atendimento na taberna, Henrique Fortunato tem outras "ocupações", uma delas, a da caça, que já não pratica com a intensidade de outros tempos.
"Fui caçador durante muitos anos. Agora, as pernas já não puxam muito. Sou o sócio mais velho da reserva de Alpalhão. Sempre gostei de actividade física, para além do futebol, gostava muito de jogar chinquilho".
Sportinguista dos quatro costados, o futebol é tema recorrente de muitas conversas, seja a nível nacional ou no plano local.
"Foi uma pena acabarem com o futebol em Alpalhão. As pessoas daqui gostam muito de desporto. Noutros tempos não "havia pai" para o ciclismo e tínhamos aí bons corredores. Aos domingos o povo gostava de ir ver a bola, divertíamo-nos um bocadinho e o Alpalhão chegou a estar na 3ª divisão. Agora parece que há aí uma malta que vai pôr o futebol outra vez em funcionamento".
Henrique não é só adepto do futebol. Foi jogador e não esquece os jogos intensos, vibrantes, nas décadas de 50 e 60. Com um sorriso rasgado, põe a memória a viajar e lembra a rivalidade com os vizinhos de Nisa.
"Eram grandes jogos, com muita gente a assistir. Jogava-se por amor à camisola, não havia prémios de jogo nem nada disso. Ainda joguei contra o Fatan. Uma vez estávamos a ganhar 2 - 0 e fomos perder 2 - 8. Joguei também contra o Vilela e lembro-me bem, o Vilela não me ganhava uma bola".
Recordações de quem deixou para trás mais de cinquenta anos entre barbas e cabelos, pentes e tesouras, sucessos e desilusões do "seu" Sporting e que agora só pensa em manter a saúde, sem dúvida a maior riqueza para um Henrique que, para além de barbeiro, tem uma Fortuna(to). Apenas no nome e na alegria que espalha, tá bom de ver.
Mário Mendes in “Jornal de Nisa” – Março de 2008

sábado, 18 de junho de 2016

NISA: Morreu o Ti Caetano!

Nisa perde uma das suas figuras mais populares
Morreu o ti Caetano! No dia 15 de Agosto, foi esta a notícia que percorreu as ruas de Nisa. No dia anterior e bem longe da sua "vila" que ele tanto amava, Caetano Tomás São Pedro, 87 anos, exalava o último suspiro. Era a despedida da vida de alguém que tanto a exaltou e fez dela, a vida, um acto permanente de animação e divertimento.
De origem humilde, humilde foi a existência do ti Caetano, pintor, publicista, caiador, vendedor de pão, homem de mil funções, protagonista de histórias sem conta, malabarista da palavra e dos trejeitos, dos esgares e das caricaturas, figura popular que marcou a vila do século passado.
"Este homem se fosse aproveitado dava um actor de revista de primeira água", escrevi num texto sobre o ti Caetano e cuja recolha constituiu, ela própria, um dos trabalhos para o jornal mais hilariantes com que fui confrontado.
Coisa que já esperava e que, conhecendo como conhecia Caetano São Pedro, me obrigou a estudar e a definir previamente várias estratégias, para conseguir "furar" a muralha inexpugnável que se "escondia" por detrás daquele rosto e pose incaracterística, que tanto prenunciava indiferença como uma abertura e familiaridade pouco comum.
Era o "jogo das máscaras", um "jogo" e manual de expressões faciais que Caetano São Pedro usava com a mestria de um grande actor. Estas "poses" e a mudança repentina de uma atitude para outra, desconcertava qualquer pessoa, fosse ela um professor, um funcionário público, um agente da autoridade ou uma figura política grada da terra.
Se estivesse na calha ser ridicularizada pelos "dotes artísticos" de Caetano Tomás São Pedro - um "servidor de vossa excelência" -, este não recuava, fazia o seu "número" ou rábula e deixava o opositor sem reacção, incrédulo, entre o espanto e o burlesco da situação.
Num tempo em que a liberdade de expressão era cerceada, esta atitude, esta forma humana de encarar a vida, vinda de alguém que não tinha uma vida económica desafogada, antes pelo contrário, é ainda mais admirável.
Morreu o ti Caetano. Nisa perde uma das suas figuras mais populares. Por este e outros locais onde escreva, Caetano Tomás São Pedro, o "primo Caetano", continuará a viver, cavalgando na crista das histórias mirabolantes que protagonizou.
Mário Mendes - in "Jornal de Nisa" - nº 261 - 23/8/2008

terça-feira, 31 de maio de 2016

NISA: A morte do professor Dionísio Cebola

Faleceu no passado dia 13, em Portalegre, após prolongada doença e sofrimento, o professor Dionísio da Graça Bicho Cebola. O funeral de tão insigne nisense, realizado na sua terra natal no dia 14 constituiu uma profunda manifestação de pesar para familiares, amigos, antigos colegas de profissão e antigos alunos.
Dionísio da Graça Bicho Cebola, após a conclusão dos estudos liceais, frequentou a antiga Escola do Magistério Primário de Évora onde obteve o diploma que o habilitou para o exercício da nobre profissão de professor, mister que desempenhou de forma profícua e distinta, ao longo de muitos anos e em diversas escolas da região e do país.
O seu carácter probo, disciplinado e disciplinador, a preocupação permanente com a escola e o meio escolar, a que juntava o estudo das questões relacionadas com a educação, granjearam-lhe a estima e consideração dos seus superiores, sendo sem surpresa que ascendeu ao cargo de inspector escolar e, mais tarde, ao de director escolar do Distrito de Portalegre, cargo com que se aposentou.
Após – e antes mesmo - da aposentação, dedicou-se à pesquisa de dados e elementos sobre o universo escolar do distrito e da região, numa pesquisa metódica e porfiada que resultaram em obras de grande valor e importância para a história da escola e da educação, num sentido mais lato, do distrito de Portalegre.
Em 1983, em colaboração com Acácio Fernandes Lopes Parreira e José Martins dos Santos Conde e sob o patrocínio da Assembleia Distrital, Dionísio Cebola publicou “O Ensino Primário no Distrito de Portalegre – Subsídios para a sua História”.
Mais tarde, em 1997 e com edição do autor, surgiu “Direcções Escolares” – Subsídios para a sua História” e em 2001, em edição da Câmara Municipal de Nisa, publicou “A Escola Primária no Distrito de Portalegre – Subsídios para a sua História”.
Escusado será dizer que estes “subsídios” – fruto de muitas horas e dias de estudo, compilação de dados e reflexões - têm constituído, ao longo destes últimos anos, um acervo documental de extrema importância e a que recorrem estudantes dos diversos graus de ensino, tanto para trabalhos de uso mais restrito, como para outros, mais elaborados, a nível de mestrados e doutoramentos, nos quais os temas da educação e a organização escolar no distrito têm servido, quantas vezes e à falta de documentação semelhante, para estudos que abarcam outros territórios.
À parte, o professor e o académico – que o foi e em larga medida – Dionísio Cebola era um homem sociável que apreciava o convívio entre amigos.
Com uma memória prodigiosa, não esqueço as infindáveis histórias que me contava sobre a sua infância e juventude, sobretudo, acerca da grande diversidade cultural e artística que existia em Nisa.
Algumas dessas histórias, simples e cheias de alegria, tive o prazer de as publicar no extinto “Jornal de Nisa”. As descrições que me fazia do seu pai, o senhor João Augusto e do seu avô, de nome Dionísio, como ele, e que eu conhecia como um homem, à primeira vista, austero, e, logo a seguir, de uma excentricidade a toda a prova, revelaram-me o modus vivendi da Rua Direita, a qual, a horas certas, se transformava num autêntico auditório, tal a sinfonia dos instrumentos musicais de amadores.
Isso pouco interessa, dirá o leitor. É verdade. Só amamos o que sentimos. Mas, estes “fragmentos” mostram, também, o carácter de um homem, o seu amor à terra-mãe, a lembrança dos espaços vividos e que, estou certo, acompanharam, Dionísio Cebola, enquanto professor, no calcorrear dos caminhos e veredas que o levavam à escola.
A Escola do Distrito de Portalegre, com a sua morte, fica mais pobre. E nós também.
Saibamos honrar a sua memória.
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 20/8/2014

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Na morte de Cruz Malpique ( 6/9/1992)

O dr. Manuel da Cruz Malpique faleceu na cidade do Porto, a 6 de Setembro de 1992, próximo de completar 90 anos de idade.
O seu funeral, ao contrário do que ele próprio previra, transformou-se numa gigantesca manifestação de pesar, por força da presença de centenas e centenas dos seus ex-alunos, instituições e população que não quiseram deixar de lhe prestar uma derradeira e bem expressiva despedida.
Num dos dias subsequentes à sua morte, assim de lhe referia no semanário "O Arrais" (Peso da Régua) - um dos muitos jornais regionalistas a que Cruz Malpique deu a sua colaboração -), Camilo de Araújo Correia:
" Conheci, pessoalmente, o Dr. Cruz Malpique, há cerca de trinta anos, num almoço de encontro com meu pai, na Pousada do Marão. Pelo que posso recordar, esse encontro relacionou-se com a publicação do ensaio "Perfil Literário de João Araújo Correia", acabado de sair ou prestes a sair do prelo. Não me recordo bem. O que bem me recordo é da figura do Dr. Cruz Malpique, um homem magro a dar conta de tudo. Sem ser avassalador, teve sempre nos dedos o fio da conversa. Fiquei a compará-lo ao instrumento dominante de uma pequena orquestra de câmara.
Nessa conversa, que eu praticamente só escutei, não conheci o Dr. Cruz Malpique. Pressenti-o... Vim a conhecê-lo, depois, através dos livros e opúsculos, que teve a gentileza de me oferecer, e da infalível e brilhantíssima colaboração no "Arrais". A sua página, a "Página Cruz Malpique", como é conhecida entre os tipógrafos, educava e divertia a grande maioria dos leitores do nosso jornal. Um ou outro, de letras mais grossas, me dizia, a cada passo:
- Aquele Cruz Malpique... às vezes... não o entendo lá muito bem... mas gosto sempre de o ler!
Gosta-se sempre de ler Cruz Malpique. O jeito pedagógico, que fez dele o inesquecível professor do Liceu Alexandre Herculano, tudo nos serve, com raro encantamento, da sua inesgotável cultura.
Cruz Malpique homenageado pelos seus antigos alunos do colégio Salvador Correia de Sá (Angola)
De grande capacidade intelectual e de trabalho, pôde o Dr. Cruz Malpique no campo de investigação reflectir sobre os mais diversos assuntos de pedagogia, psicologia, sociologia e literatura. Na investigação literária, teve particular simpatia pelos Perfis (literários, psicológicos e humanísticos). A sua vasta galeria vai de Leonardo da Vinci a Gregório Maranon.
Ao longo da sua longa vida de estudioso e publicista, deu o Dr. Cruz Malpique à estampa cerca de duzentos títulos, a sobressair, luminosamente, na sua biblioteca cultural. Ao legar tão valioso manancial de cultura ao Liceu de Alexandre Herculano, conseguirá o Dr. Cruz Malpique acender tão gratificantes recordações nos antigos alunos que visitem a Biblioteca e dar valioso apoio a quem a frequentar.
Por serem últimas, não vai a direcção de "O Arrais" querer que sejam mais amargas as Chávenas de Café Quase Amargo, ainda inéditas. A pensar nos recentes e novos assinantes, irá certamente repetir aquelas que lhe parecerem mais oportunas e, no mesmo sentido, os trechos mais escolhidos, publicados sobre o título genérico Quando a Barlavento? Quando a Sotavento?
Não será tão pesado o nosso luto, se ficar por mais algum tempo, entre nós, o ilustre e querido companheiro de toda a vida do Arrais. "
- Camilo de Araújo Correia - in "O Arrais - 17/9/1992

terça-feira, 5 de abril de 2016

IN MEMORIAN: O Senhor Dom António

Fevereiro. Já lá vão quarenta anos *. E foi, num dia de Fevereiro, que esta Terra, a minha, se vestiu de luto, porque é de luto que todos vestem, quando a tristeza lhes enregela os ossos, quando a dor lhes amortalha a alma, quando a morte lhes rouba pedaços das próprias vidas.
Foi, assim, de luto, que esta Terra, a minha, se vestiu, nesse dia. Era Fevereiro e já lá vão quarenta anos. Ao cair da tarde, quando deviam anunciar as Trindades, os sinos dobraram do alto das torres das duas igrejas, espalhando crepes sobre os telhados da Vila. E, sem bater às portas, o silêncio entrou em todas as casas, da Porta de Montalvão à Fonte da Pipa, e, sem convite, a dor sentou-se a todas as mesas, do Dafundo ao cimo da Estrada de Alpalhão, e, sem força que a detivesse, as lágrimas assomaram em todos os olhos, do Canto dos Loureiros ao Largo da Deveza. A morte passou por aqui.
 Se, como escreveu Vieira, “ a morte tem duas portas: uma de vidro, por onde se sai da vida e outra de diamante, por onde se entra na eternidade”, então, nesse dia, era Fevereiro e já lá vão quarenta anos, alguém transpôs as duas portas de um só passo: deixou a vida e entrou na eternidade. Mas, na eternidade havia ele entrado, já, quando, num outro dia, de um outro Fevereiro, trocara os bens terrenos pelo bem-estar de todos quantos estavam mal, quando se despojara de tudo em benefício daqueles que nada tinham. O mesmo Vieira escreveu, também, “que os bens e as grandezas do mundo falsamente se chamam bens, porque são males, e sem razão se chamam grandezas, porque são pouquidades... e esses a quem o mundo chama grandes bens, só são grandes quando se deixam...”
O senhor Dom António (ainda que sempre presente, é a sua memória que evocamos, hoje) deixara-os. Todos. Todos os seus bens, todas as suas grandezas, toda a sua generosidade, o seu espírito culto, o seu intelecto benfazejo, a sua alma enorme e magnânima. E porque sempre que o sol se esconde de um lado, vai dar luz e calor a outro, os pobres desta Terra, a minha, a quem, ainda em vida, tudo dera, começaram a ter o sol e calor nas suas vidas. Os pobres a quem tudo legara, ficaram menos pobres.
E, insondável capricho, tornando-se pobre, Ele ficou mais rico. Entrou na eternidade, que não tem princípio nem fim, numa eternidade onde só os eleitos entram, porque a sua memória fica, para sempre, no coração dos homens. E a eternidade é isto. Por isso, hoje, em Fevereiro e já lá vão quarenta anos, esta Terra, a minha, que já foi pobre mas, nunca, ingrata, curva-se e, de joelhos e mãos erguidas, reza e chora e lembra e rende a homenagem mais sentida ao Homem que lhe quis, como se fosse sua, que a acarinhou, não sendo seu filho, e a presenteou como a única e muito querida filha.
Quando o calor lhes abrasa o peito, quando a saudade lhes afoga a alma, quando a felicidade lhes transborda a vida, os homens levantam as majestosas catedrais ao culto dos seus Deuses; erguem os mais ricos altares em louvor dos seus santos; constroem os mais grandiosos monumentos, em honra dos seus Heróis e escrevem as mais belas páginas, em louvor dos seus Eleitos. Dom António Lobo da Silveira (Alvito), o senhor Dom António, terá sido tudo isto. Mas tudo isto, também, seria desnecessário para o nobre mais plebeu, para o mendigo mais fidalgo, para o rico mais pobre e, ao mesmo tempo, o pobre mais rico, que cruzou as ruas desta Terra, a minha.
Fevereiro. Já lá vão quarenta anos. E, todos os dias, a sua sombra passa, ainda, mal pisando as pedras da velha rua da Cadeia, até ao covil dos Lobos. E, à tarde, quando a nortada começa a soprar dos lados de Espanha, a mesma sombra, afagando o chão, regressa ao solar, que teve o seu nome.
Sombra tutelar. Sombra, apenas, ainda que com a majestade de uma catedral, com a riqueza de um altar, com a grandiosidade de um monumento e com a beleza de um livro de oiro. Mas, um dia, quem sabe, talvez, num outro Fevereiro, o sol nasça de outro lado e os rouxinóis voltem a cantar nos loureiros do Canto de São Pedro.
Carlos Tomás Cebola – Fevereiro de 2001
* Nota
D. António Lobo da Silveira (Alvito) faleceu há 50 anos, em Fevereiro de 1961. O presente artigo de Carlos Tomás Cebola foi publicado na edição nº 78 do Jornal de Nisa (Fev. 2001) e a sua re-publicação destina-se a assinalar os 50 anos do falecimento de uma das figuras mais gratas que os nisenses não deixam de recordar com carinho e saudade.

terça-feira, 8 de março de 2016

IN MEMORIAN - Ti José Cebola: Um “nisorro” centenário

Passou anos a fio a conduzir carretas, trabalhando de sol a sol, servindo a casa de vários “amos”, como Jacob.
Tem ainda, apesar da idade avançada, uma memória extraordinária, de onde, em conversa fluente e animada, saem milhentas histórias, episódios campesinos, recordações de uma infância que meteu “reis e republicanos”.
Aqui vos deixamos um pouco da vida de Ti José Cebola: Um “nisorro” centenário.
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José Dinis Caldeira Cebola nasceu a 7 de Outubro de 1890. O seu centésimo aniversário serviu de pretexto para uma visita a este ancião, nisorro dos quatro costados, que nos recebeu com simpatia e se dispôs a falar um pouco sobre a sua vida.
O seu desfiar de recordações traz à baila assuntos e acontecimentos tão díspares como a Implantação da República ou a “pneumónica”, episódios da sua passagem pela tropa ou da vida dura nos campos.
Íamos por breves minutos, ficámos por mais de duas horas e, como Fernando Pessoa, diríamos: valeu a pena!
Um atirador muito especial
Sr. José, lembra-se da República?
“Foi no ano em que eu fui para a tropa, mas não sei bem o que isso foi, pois andava a trabalhar no campo, em casa do senhor Inchado e foram-me dizer: “andas práqui e com tantas festas lá em Nisa, foguetes, música na rua e toda a gente a dar vivas?
Lembro-me que as pessoas cantavam uma moda que dizia assim:
“Lá vem a Maria da Fonte
Com a sua saia curta
Rebaixando a Monarquia
Dando vivas à República”
Nesse ano (1910) em Novembro, assentei praça em Portalegre (era “Caçador”, depois saiu um decreto e passou a Infantaria) e ao cabo de oito meses íamos à escola de tiro de Castelo Barnco, para atirador-especial.

Estive em Lisboa por três vezes, a fazer serviço às “cortes” e na Cova da Moura. Dormíamos em Belém, muito mal, em cima de sacas velhas.
Voltámos para Portalegre onde chegámos no 1º de Maio. Lembro-me porque havia grandes festas nas ruas. Nessa altura o comandante disse-nos que os que quisessem passar á reserva podiam sair. Nem olhei para trás, voltei para Nisa e para o trabalho da lavôra (lavoura).
Uma vida de carreteiro
“Estive em casa da srª Joaquina à Bicha e no senhor José Carujeiro, por duas vezes. Na primeira vez saí ao fim de três anos. Pedi mais jorna e por 20 escudos por mês deixaram-me abalar.
Andei semanas inteiras a acarretar pão. Cheguei a apanhar seis moios de pão num dia. De madrugada já estava no termo de Castelo de Vide a carregar. Descarregava no Alto de Palhais e carregava o pão já debulhado. Naquele tempo não havia máquinas como há hoje, a debulha era feita toda à “unha de vaca”. Andavam os “ratinhos” a malhar.
Carregava em Palhais e chegava aqui pela hora do calor, subia dois andares de escadas, vezes sem conta com sacas de pão, as camisas podiam torcer-se com o suor.
Era uma vida dura, a desse tempo?
Em casa de lavradores não havia sábados nem domingos, era trabalhar e quem queria, queria, senão... Ganhava-se muito mal, 5 alqueires de centeio e dez escudos e era para quem queria. Os campos pareciam jardins. Havia searas de centeio, de trigo, grandes milharadas, tudo feito a braço do homem.
Com um a vida assim como é que se divertiam?
JC (risada) – Divertir? “Olhá lé ou” (expressão popular de Nisa). Eu tinha a “pensão” com o gado. Tinha que ir ceifar para dar comida aos animais. Os criados vinham à vila e só depois deles voltarem é que eu podia ir. Ia à vila para arranjar a fatada?
E para ver as cachopas, não?
JC (risadas) – Eu namorei praí um ano. Casei com 23 anos. Nos domingos, ao fim de tarde, havia bailes nas ruas. No Canto do Poço, no Largo da Devesa, no Largo do Mártir. As moças cantavam e apareciam tocadores de harmóni, gaitas de beiços e cigarrinhas. Pelo Carnaval os bailes eram dentro de casa à luz da candeia, mas eu gostava pouco de bailes...
Casei e o quintal de festa foi no Ti Manel da Martinha. Apanhei 40 cabeças de gado (badanas). Nessa altura uma badana valia 5 escudos e um alqueire de trigo, 6 escudos.
Lembranças da pneumónica
Senhor José, lembra-se da entrada para a escola?
- “À escola? Vá lá que fosse aí uma semana. Depois saí. Quem é que ia à escola naquele tempo? Só se fosse gente abastada!...
Quando tinha dez anos já andava em cima de uma burra, a apanhar leite gordo de uma queijeira. Foi sempre a trabalhar e sem regalias. A vida era muito dura. Éramos sete irmãos e todos faziam falta ao sustento da casa. Houve a guerra de 14 e a “pneumónica”...

Foi uma grande epidemia?
“Nem queira saber. Morreu muita força de gente. Famílias inteiras, casas que fecharam. Queimava-se rama de eucalipto nas ruas para alevantar a peste.
Senhor José, como é que chegou a esta idade? Alimentava-se bem?
Pró campo levava uma talega com feijões pretos para toda a semana. Era feijões de manhã e à noite. Não sabíamos o que era um bocadinho de carne. Mesmo assim nunca tive nenhuma doença. Só no último patrão onde estive, o Dr. Jaime, tive o mal da tensão. Dizia que me ia embora... e agora é como me vê.
Ti José Cebola, uma vida a trabalhar no campo. Uma lucidez espantosa, uma memória notável que se faz notar em pormenores. 100 anos. Uma vida. Quantas lições?
NOTA: Texto publicado no semanário Fonte Nova em Outubro de 1990