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terça-feira, 10 de maio de 2016

NO RASTO DA MEMÓRIA - Vias de Comunicação

A estrada Crato-Vila Velha de Ródão numa interpelação parlamentar
A melhoria das vias de comunicação, estiveram sempre na primeira linha das preocupações, como principal motor do desenvolvimento regional. Em 8 de Fevereiro de 1867 e segundo o Diário das Sessões da Câmara dos Deputados, o representante do círculo eleitoral de Nisa, António Diniz Vieira, interpelou o Ministro das Obras Públicas sobre os atrasos da construção da estrada Crato -Vila Velha de Ródão.O texto aqui fica, respeitando a ortografia da época.
"O sr. Diniz Vieira: — Mando para a mesa uma nota de interpellação, que, dirijo ao sr. ministro das obras publicas, nos termos seguintes (leu). Como v. ex.a vê, esta interpellação diz respeito a um assumpto, de que já na sessão passada aqui tratei. A estrada de que pretendo falar na interpellação é conhecidamente da maior necessidade, não só pela junta geral do districto, pelos relatórios dos respectivos governadores civis, como pelo sr. ministro das obras publicas, quando, na sua portaria de agosto ultimo, declarou que na província do Alemtejo era de summa urgência; porque era a única que communicava às duas províncias, Beira Baixa e Alemtejo.                                                                                                                               Apesar de tão reconhecida ser a necessidade d'ella, o facto é que, tendo o reconhecimento sido feito em 1864, e ultimado, desde então até agora pode-se dizer que nada se tem feito alem do estudo; e digo quasi, porque no anno passado pude conseguir do sr. conde de Castro a approvação no conselho das obras publicas do primeiro lanço da mesma estrada, na extensão pouco mais de uma légua, pois tanta é a distancia da estação do Crato a Villa Velha do Ródão. Sendo pois a extensão total da estrada de 44 kilometros, o que ha feito é apenas uma oitava parte, onde se trabalha; no restante continuam os estudos, mas estudos que vem, que se devolvem, que tornam a vir e tornam a devolver-se. E tão malfadada aquella estrada que não pode passar de estudos.Portanto peço que das palavras e dos estudos se passe a obras; e é sobre isto que eu desejava chamar a attenção do sr. ministro das obras publicas.                                                      
N'esta estrada ha uma grande porção que effectivamente pôde passar sem obras, mas ha uma outra, qual é a que vae do alto da ribeira de Niza á ponte do Tejo, onde não é possível transitar nem a cavallo nem a pé. Sinto muito que o sr. ministro não esteja presente, mas peço a v. ex.a que o previna, a fim de se dar por habilitado para poder verificar a minha interpellação.                                                                                
Diário das Sessões da Câmara dos Deputados - 8/2/1867 – Pág, 364

quinta-feira, 7 de abril de 2016

NO RASTO DA MEMÓRIA: O Bom Pastor *

Estas palavras são um tributo a todos os pastores. Foram muitos os que passaram pela casa do meu pai e com os quais tive oportunidade de conviver. As primeiras memórias vão para o início dos anos setenta. No Couto da Marfeira onde o meu pai era rendeiro, recordo dois grandes homens no pastoreio do gado. O primeiro é o Ti Zé Barra: O Ti Zé Barra era um homem altivo, não tinha o polegar da mão direita, usava chapéu de aba direita, era mestre no maneio do gado e o melhor na caça com pau. O outro pastor que recordo, primeiro no Azinhal e depois na Marfeira, foi o tio do meu pai, José Bento. A casa da Marfeira utilizada pelos pastores era de uma pobreza franciscana. Uma sala ampla com lareira e os respectivos utensílios; a tenaz, a trempe, panelas de barro, bancas de pau, uma pequena mesa (mesa de pastor) e a lenha ali ao canto do lume. Estacas de madeira espetadas na parede, serviam para pendurar qualquer coisa, o casaco, o barril de barro para manter a água fresca, o machado, etc. Acompanhando as ovelhas de pastagem em pastagem, o pastor era um autêntico nómada.
São também dessa época alguns episódios passados na Herdade da Nave da Cheira, entre Póvoa e Meadas e Castelo de Vide. Aqui a casa tinha outras condições, construída sobre um enorme rochedo de granito, tinha várias divisões e forno. Foi na Nave da Cheira onde os meus avós maternos estiveram a explorar a horta entre 1969 e 1976, sempre na companhia de pastores. Aos Domingos íamos jantar a esta propriedade, para podermos usufruir da sua companhia. O mobiliário era apenas o indispensável. A mesa das refeições era tão pequena que tínhamos de colocar o prato no colo. No canto oposto ao nosso o pastor preparava o seu jantar. Chamava-se José Domingos e era natural de Montalvão. A minha avó convidara-o para jantar connosco, o pastor agradeceu mas manteve-se à distância a preparar a sua refeição. Era muito pequeno, mas ainda hoje recordo aquela imagem, a silhueta do pastor a jantar uma salada de tomate.
Deslocar os animais de um local para outro era um trabalho cansativo mas divertido. Na medida do possível também ajudava nestas mudanças. Íamos a pé de Castelo de Vide para o Pai Lázaro (Montalvão), do Pai Lázaro para o Pinheiro (Pé da Serra), do Pinheiro para a Velada, etc. Posicionava-me à frente do rebanho e o pastor atrás ou vice-versa. No Pinheiro e no Vale Pedrão, as casas eram autênticos palheiros, sem um mínimo de condições. No Pai Lázaro onde a casa era um pouco melhor, os pastores eram por norma de Montalvão. Por ali passaram, entre outros, o Ti João Guanito, o Ti João Pássaro, o Manuel Pintor, o João Manuel e claro o tio do meu pai, José Bento. À noite lá ficavam os pastores junto do lume, com um rádio a pilhas e os seus cães. Não sei se por companhia tinham apenas a solidão, creio que não. Nas noites de céu limpo, eram aos milhões as estrelas que desciam sobre o monte. A sua luz iluminava o sonho do pastor. Quais seriam os seus sonhos? Quais seriam os seus projectos? No fim do dia, lá ia o Ti José Bento passar o serão com o Severino ao Monte Queimado ou ao Monte da Fonte dos Cantos. O Severino era o vizinho mais próximo. Mas para ir do Pai Lázaro ao Monte Queimado não era bem a mesma coisa que ir ali ao fundo da rua. Eram homens rijos, rijos no corpo e fortes no espírito, nada lhes metia medo. O João “Tanganho” é outro pastor que recordo, andava sempre a pé. Vinha a pé do Pai Lázaro para o Pé da Serra, do Rolengo (Nisa) para a Velada. Preferia andar a pé mesmo que lhe oferecessem transporte. O João tinha apenas um braço mas fazia todos os trabalhos relacionados com a sua actividade, o pior era quando se zangava. Às vezes nas mudanças do gado, as ovelhas saiam fora da rota, iam para todo o lado, excepto para onde nós queríamos. Nesses momentos o João gritava a bom gritar e o cão é que “pagava as favas” sem ter qualquer culpa.
Muitos desses pastores já partiram para a sua última morada. Nós na Terra quantas vezes continuamos à procura do Bom Pastor para nos indicar o trilho certo. Há dias sonhei com um pastor que já faleceu. Nos sonhos tudo é possível, não questionamos o que não faz sentido. Nesse sonho uma pessoa que me é próxima encontrava-se com uma doença grave, agonizava na cama sem qualquer esperança de cura. Reparo que no canto do quarto estava um dos pastores. Vou chamar-lhe simplesmente “José”. Dirijo-me a “José” e pergunto-lhe: Como era possível estar ali, dado que falecera há já tantos anos. O bom pastor respondeu-me nesse sonho. – “É verdade que já parti. Parti mas estou sempre presente. Estou aqui para ajudar”.Nos últimos trinta anos os hábitos mudaram, é a evolução natural dos tempos. Não sei se os pastores ainda dormem nos montes. Não sei se ainda se muda gado. Não sei se ainda há pastores. Sei sim que estou grato a todos os bons pastores, pelo privilégio do convívio e pela aprendizagem. Quem sabe se, os que já partiram, não estão a interceder junto das estrelas, de todas as estrelas do céu. Que nas noites de céu limpo desçam até à Terra. Desçam para nos iluminar e para nos mostrar o melhor caminho, a todos, homens e mulheres do mundo. Quem sabe se os sonhos não fazem sentido. Quem sabe se, não continuam a olhar por nós, por todos nós sem distinção. Nós, ovelhas tresmalhadas.
Luís Mário Correia Bento
  • Artigo publicado no "Jornal de Nisa" - 1ª Série

quarta-feira, 6 de abril de 2016

No Rasto da Memória: A Fortaleza de Nisa

É sabido que uma luta fratricida converteu em montões de escombros a minúscula povoação que, com o nome de Nisa, se aninhava na encosta e sopé do monte de Nossa Senhora da Graça. Mas a lealdade dos nisenses é que nem a ferro e fogo foi abalada. Fiéis ao seu rei, os nossos antepassados perderam tudo menos a honra. E essa mesma inteireza de carácter, esse mesmo sentir de patriotas os animou quando receberam do Rei-Lavrador a justa recompensa do seu nobilíssimo rasgo de abnegação e fidelidade.
Para a nova vila trouxeram todos os seus pergaminhos de honradez, e aqui, no conforto das novas moradias, continuaram a ser dignos da memória dos que para sempre ficaram sepultados nas ruínas dos seus lares arrasados e incendiados.
Em descuidosa tranquilidade, fruíam a suave alegria de agenciarem sua vida de agricultores em campos de mais úbere fertilidade e não mais os preocupou o terror dos inimigos externos, confiados, como estavam na inexpugnabilidade dos muros de defesa e na protecção dos freires de Cristo alojados no antigo castelo de Ferron.
A solidez das fortificações parecia desafiar a investida dos séculos. Infelizmente não foi assim. O tempo e a incúria de sucessivas gerações foram deixando desmoronar, a pouco e pouco, o que D. Dinis fizera erguer com a quantiosa soma de seis mil réis, para continuarem as obras sem cessar...
E, no entanto, a fortaleza de Nisa, pelo que dela podemos ainda hoje ajuizar consultando o admirável trabalho de Duarte de Armas, devia ter sido das de maior valor estratégico e, sem dúvida, uma das que, na fronteira, mais concitariam a admiração e enlêvo de quantos nela pusessem os olhos de interessada e curiosa observação.
Já o perímetro quadrangular das muralhas não é muito vulgar; e essa disposição, com as altaneiras torres, devia contribuir bastante para dar maior relevo estético à obra monumental erguida por D. Dinis como galardão aos leais nisorros, homens duma só fé que deixaram arrasar os próprios lares só para não atraiçoarem o seu rei.
Do antigo castelo de Ferron ou dos Templários, junto do qual se levantou a vila dionisina, nada resta hoje. Sabe-se contudo, por um manuscrito da Torre do Tombo sobre as Comendas de Cristo, citado pelo Dr. Laranjo Coelho no seu estudo sobre as Ordens de Cavalaria do Alto Alentejo, que tinha interiormente magníficas instalações:  ampla sala térrea e câmaras sobradadas  destinadas aos aposentos do alcaide e comendador, muitos quartos e celas destinados aos cavaleiros da Ordem donatária, varandas, alpendres, diversos compartimentos térreos, cozinha, três estrebarias, amplo terreiro e pátio com um poço profundo.
Este poço foi localizado e desobstruído, quando o sr. dr. José Miguéns mandou construir a sua elegante vivenda no local do antigo castelo.
Nos últimos anos do século XIX estavam ainda de pé a maior parte das paredes, algumas delas assentes sobre resistentes e espaçosos arcos de granito; e da torre a nordeste ainda logrei ver alguns metros das suas quatro faces.
As outras, uma das quais, a de menagem, tinha dezassete varas de altura e onde havia a célebre porta da traição, foram totalmente arrasadas, quando em 1704, pela Guerra da Sucessão, os espanhóis no caminho para Portalegre, aqui acamparam e e permaneceram alguns dias.
Foi, como se disse, sob a égide do castelo e Preceptoria dos Templários que D. Dinis fez erguer a nova vila, cercando-a de fortes muralhas de quarenta palmos de altura e oito de espessura e com todos os elementos de defesa característicos das fortificações da Idade Média.
Além das quatro torres do castelo, levantavam-se, no recinto amuralhado, mais sete, umas seccionando em quadrelas; outras atalaiando as portas, que eram três: a da Vila, a de Montalvão e a de João de Évora. Havia ainda três postigos: o de S. Pedro, o do Canto do Adrião e o da Cadeia.
De todo o conjunto defensivo de Nisa-a-Nova, restam, além dos lanços de muralha, aproveitados para varandas de vários prédios, apenas as torres da Porta da Vila, a da Porta de Montalvão e os restos de outra no Canto João de Évora.
Para que este pouco chegado até nós, não desapareça de todo sob o camartelo do progresso é que o Estado fez dele seu património, elevando à categoria de monumentos nacionais aquelas duas elegantes portas e torres adjacentes.
Cessaram assim os vandalismos. Não mais foi permitido arrancar uma pedra nem praticar outros estúpidos atentados contra a página mais expressiva dos anais da nossa terra.
Mas, além de zelar pela integridade do existente, propôs-se a Direcção dos Monumentos Nacionais restituir o que resta da vetusta fortaleza ao seu antigo aspecto.
Para esse efeito, operários especializados reintegraram já, na sua primitiva traça, as torres da Porta da Vila, desafrontando-as de quanto as desfeava e tornando-as assim num monumento interessantíssimo, como em poucas terras haverá.
Fizeram-se outras reparações e foi interrompido há dias, não se sabe por quê, o trabalho de restauro da torre da Porta de Montalvão.
Ver-se-ia também com muito aprazimento a reconstituição da de João de Évora e de uma outra, no ângulo sudeste da muralha, na qual há uma pequena porta em ogiva; a maioria da população desconhece e só há pouco tempo me foi dado observar.
Para concluir, já quão tenho de lamentar a perda irreparável do castelo de Ferron, em que o fundador de Nisa porventura se acolheria nas suas bélicas digressões pelo Alentejo e onde talvez ficasse um pouco do celestial perfume da caridade da Rainha Santa; já que o conjunto das fortificações da minha terra, por vandalismos irreparáveis, jamais poderá ser restituído à sua pristina beleza e estrutura, que ao menos as torres e adarves sejam coroados de ameias onde for possível dar-lhes esse característico remate e que os técnicos procurem salvar quanto possam dos restos da nossa linda e inexpugnável fortaleza medieval, que, em plena integridade, não teria rival entre todas as da fronteira e seria émula condigna do relicário monumental de Óbidos.
J. Figueiredo in “Correio de Nisa” nº 19 – 2/12/1945

terça-feira, 8 de março de 2016

ALPALHÃO: No Rasto da Memória (1) - 1885

Moradores pedem revogação de postura
O documento é de 1885 e nele os moradores de Alpalhão pedem ao presidente e demais vereadores da Câmara Municipal, a revogação de uma postura sobre o trânsito de carroças em várias ruas da vila.
“Os abaixo assignados, moradores na Villa de Alpalhão, deste concelho de Niza, achando-se em vigor o novo código de Posturas d´este concelho, veêm representar a Vªs Exc.ªs quanto se lhes torna prejudicial a disposição do # único do artigo 80 na parte em que considera estreitas as ruas Direita, da Cadeia e do Castello, para o effeito de ser prohibido o carregar ou descarregar carros ou carretas nas mesmas ruas; pois que estas ruas  teêm na maior parte do seu comprimento, a largura sufficiente para por ellas passarem duas carretas uma a par d´outra, e mesmo nos curtos espaços em que a não teêm , a pequeníssima distancia existem largos para evitar sem custo ou delonga mutua, quasquer embaraços de transito, e d´este modo uma tal disposição se torna desnecessária, e está causando graves incommodos aos habitantes das mesmas, sem razão que justifique a sua existência.
Assim, pois, esperam que Vªs Excªs  attendendo aos interesses dos supplicantes, hajam por bem revogar a postura na parte que fica declarada, enviando essa declaração ou deliberação, sem perda de tempo, à estação superior de cuja approvação carece: e portanto, Ilusºs e Exmos  Senhores Presidente e demais Vereadores da Câmara Municipal d´este concelho, que se dignem deferir-lhes.
Alpalhão, 8 de Julho de 1885.”
Assinavam o documento, entre outros, os seguintes alpalhoenses:
António Gonçalves Themudo Frade, António José d´Andrade Sequeira (Sénior), António José d´Andrade Sequeira (Junior), João Semedo Maia, Joaquim de Andrade Bastos, António d´Andrade Sequeira, José Maria Pereira, Nuno Ribeiro Duarte, Joaquim Ribeiro Duarte, João Lopes Subtil, José da Costa, num total de mais de duas dezenas de assinaturas.

* Publicado no "Jornal de Nisa" nº 255 -