quarta-feira, 6 de abril de 2016

No Rasto da Memória: A Fortaleza de Nisa

É sabido que uma luta fratricida converteu em montões de escombros a minúscula povoação que, com o nome de Nisa, se aninhava na encosta e sopé do monte de Nossa Senhora da Graça. Mas a lealdade dos nisenses é que nem a ferro e fogo foi abalada. Fiéis ao seu rei, os nossos antepassados perderam tudo menos a honra. E essa mesma inteireza de carácter, esse mesmo sentir de patriotas os animou quando receberam do Rei-Lavrador a justa recompensa do seu nobilíssimo rasgo de abnegação e fidelidade.
Para a nova vila trouxeram todos os seus pergaminhos de honradez, e aqui, no conforto das novas moradias, continuaram a ser dignos da memória dos que para sempre ficaram sepultados nas ruínas dos seus lares arrasados e incendiados.
Em descuidosa tranquilidade, fruíam a suave alegria de agenciarem sua vida de agricultores em campos de mais úbere fertilidade e não mais os preocupou o terror dos inimigos externos, confiados, como estavam na inexpugnabilidade dos muros de defesa e na protecção dos freires de Cristo alojados no antigo castelo de Ferron.
A solidez das fortificações parecia desafiar a investida dos séculos. Infelizmente não foi assim. O tempo e a incúria de sucessivas gerações foram deixando desmoronar, a pouco e pouco, o que D. Dinis fizera erguer com a quantiosa soma de seis mil réis, para continuarem as obras sem cessar...
E, no entanto, a fortaleza de Nisa, pelo que dela podemos ainda hoje ajuizar consultando o admirável trabalho de Duarte de Armas, devia ter sido das de maior valor estratégico e, sem dúvida, uma das que, na fronteira, mais concitariam a admiração e enlêvo de quantos nela pusessem os olhos de interessada e curiosa observação.
Já o perímetro quadrangular das muralhas não é muito vulgar; e essa disposição, com as altaneiras torres, devia contribuir bastante para dar maior relevo estético à obra monumental erguida por D. Dinis como galardão aos leais nisorros, homens duma só fé que deixaram arrasar os próprios lares só para não atraiçoarem o seu rei.
Do antigo castelo de Ferron ou dos Templários, junto do qual se levantou a vila dionisina, nada resta hoje. Sabe-se contudo, por um manuscrito da Torre do Tombo sobre as Comendas de Cristo, citado pelo Dr. Laranjo Coelho no seu estudo sobre as Ordens de Cavalaria do Alto Alentejo, que tinha interiormente magníficas instalações:  ampla sala térrea e câmaras sobradadas  destinadas aos aposentos do alcaide e comendador, muitos quartos e celas destinados aos cavaleiros da Ordem donatária, varandas, alpendres, diversos compartimentos térreos, cozinha, três estrebarias, amplo terreiro e pátio com um poço profundo.
Este poço foi localizado e desobstruído, quando o sr. dr. José Miguéns mandou construir a sua elegante vivenda no local do antigo castelo.
Nos últimos anos do século XIX estavam ainda de pé a maior parte das paredes, algumas delas assentes sobre resistentes e espaçosos arcos de granito; e da torre a nordeste ainda logrei ver alguns metros das suas quatro faces.
As outras, uma das quais, a de menagem, tinha dezassete varas de altura e onde havia a célebre porta da traição, foram totalmente arrasadas, quando em 1704, pela Guerra da Sucessão, os espanhóis no caminho para Portalegre, aqui acamparam e e permaneceram alguns dias.
Foi, como se disse, sob a égide do castelo e Preceptoria dos Templários que D. Dinis fez erguer a nova vila, cercando-a de fortes muralhas de quarenta palmos de altura e oito de espessura e com todos os elementos de defesa característicos das fortificações da Idade Média.
Além das quatro torres do castelo, levantavam-se, no recinto amuralhado, mais sete, umas seccionando em quadrelas; outras atalaiando as portas, que eram três: a da Vila, a de Montalvão e a de João de Évora. Havia ainda três postigos: o de S. Pedro, o do Canto do Adrião e o da Cadeia.
De todo o conjunto defensivo de Nisa-a-Nova, restam, além dos lanços de muralha, aproveitados para varandas de vários prédios, apenas as torres da Porta da Vila, a da Porta de Montalvão e os restos de outra no Canto João de Évora.
Para que este pouco chegado até nós, não desapareça de todo sob o camartelo do progresso é que o Estado fez dele seu património, elevando à categoria de monumentos nacionais aquelas duas elegantes portas e torres adjacentes.
Cessaram assim os vandalismos. Não mais foi permitido arrancar uma pedra nem praticar outros estúpidos atentados contra a página mais expressiva dos anais da nossa terra.
Mas, além de zelar pela integridade do existente, propôs-se a Direcção dos Monumentos Nacionais restituir o que resta da vetusta fortaleza ao seu antigo aspecto.
Para esse efeito, operários especializados reintegraram já, na sua primitiva traça, as torres da Porta da Vila, desafrontando-as de quanto as desfeava e tornando-as assim num monumento interessantíssimo, como em poucas terras haverá.
Fizeram-se outras reparações e foi interrompido há dias, não se sabe por quê, o trabalho de restauro da torre da Porta de Montalvão.
Ver-se-ia também com muito aprazimento a reconstituição da de João de Évora e de uma outra, no ângulo sudeste da muralha, na qual há uma pequena porta em ogiva; a maioria da população desconhece e só há pouco tempo me foi dado observar.
Para concluir, já quão tenho de lamentar a perda irreparável do castelo de Ferron, em que o fundador de Nisa porventura se acolheria nas suas bélicas digressões pelo Alentejo e onde talvez ficasse um pouco do celestial perfume da caridade da Rainha Santa; já que o conjunto das fortificações da minha terra, por vandalismos irreparáveis, jamais poderá ser restituído à sua pristina beleza e estrutura, que ao menos as torres e adarves sejam coroados de ameias onde for possível dar-lhes esse característico remate e que os técnicos procurem salvar quanto possam dos restos da nossa linda e inexpugnável fortaleza medieval, que, em plena integridade, não teria rival entre todas as da fronteira e seria émula condigna do relicário monumental de Óbidos.
J. Figueiredo in “Correio de Nisa” nº 19 – 2/12/1945

terça-feira, 5 de abril de 2016

IN MEMORIAN: O Senhor Dom António

Fevereiro. Já lá vão quarenta anos *. E foi, num dia de Fevereiro, que esta Terra, a minha, se vestiu de luto, porque é de luto que todos vestem, quando a tristeza lhes enregela os ossos, quando a dor lhes amortalha a alma, quando a morte lhes rouba pedaços das próprias vidas.
Foi, assim, de luto, que esta Terra, a minha, se vestiu, nesse dia. Era Fevereiro e já lá vão quarenta anos. Ao cair da tarde, quando deviam anunciar as Trindades, os sinos dobraram do alto das torres das duas igrejas, espalhando crepes sobre os telhados da Vila. E, sem bater às portas, o silêncio entrou em todas as casas, da Porta de Montalvão à Fonte da Pipa, e, sem convite, a dor sentou-se a todas as mesas, do Dafundo ao cimo da Estrada de Alpalhão, e, sem força que a detivesse, as lágrimas assomaram em todos os olhos, do Canto dos Loureiros ao Largo da Deveza. A morte passou por aqui.
 Se, como escreveu Vieira, “ a morte tem duas portas: uma de vidro, por onde se sai da vida e outra de diamante, por onde se entra na eternidade”, então, nesse dia, era Fevereiro e já lá vão quarenta anos, alguém transpôs as duas portas de um só passo: deixou a vida e entrou na eternidade. Mas, na eternidade havia ele entrado, já, quando, num outro dia, de um outro Fevereiro, trocara os bens terrenos pelo bem-estar de todos quantos estavam mal, quando se despojara de tudo em benefício daqueles que nada tinham. O mesmo Vieira escreveu, também, “que os bens e as grandezas do mundo falsamente se chamam bens, porque são males, e sem razão se chamam grandezas, porque são pouquidades... e esses a quem o mundo chama grandes bens, só são grandes quando se deixam...”
O senhor Dom António (ainda que sempre presente, é a sua memória que evocamos, hoje) deixara-os. Todos. Todos os seus bens, todas as suas grandezas, toda a sua generosidade, o seu espírito culto, o seu intelecto benfazejo, a sua alma enorme e magnânima. E porque sempre que o sol se esconde de um lado, vai dar luz e calor a outro, os pobres desta Terra, a minha, a quem, ainda em vida, tudo dera, começaram a ter o sol e calor nas suas vidas. Os pobres a quem tudo legara, ficaram menos pobres.
E, insondável capricho, tornando-se pobre, Ele ficou mais rico. Entrou na eternidade, que não tem princípio nem fim, numa eternidade onde só os eleitos entram, porque a sua memória fica, para sempre, no coração dos homens. E a eternidade é isto. Por isso, hoje, em Fevereiro e já lá vão quarenta anos, esta Terra, a minha, que já foi pobre mas, nunca, ingrata, curva-se e, de joelhos e mãos erguidas, reza e chora e lembra e rende a homenagem mais sentida ao Homem que lhe quis, como se fosse sua, que a acarinhou, não sendo seu filho, e a presenteou como a única e muito querida filha.
Quando o calor lhes abrasa o peito, quando a saudade lhes afoga a alma, quando a felicidade lhes transborda a vida, os homens levantam as majestosas catedrais ao culto dos seus Deuses; erguem os mais ricos altares em louvor dos seus santos; constroem os mais grandiosos monumentos, em honra dos seus Heróis e escrevem as mais belas páginas, em louvor dos seus Eleitos. Dom António Lobo da Silveira (Alvito), o senhor Dom António, terá sido tudo isto. Mas tudo isto, também, seria desnecessário para o nobre mais plebeu, para o mendigo mais fidalgo, para o rico mais pobre e, ao mesmo tempo, o pobre mais rico, que cruzou as ruas desta Terra, a minha.
Fevereiro. Já lá vão quarenta anos. E, todos os dias, a sua sombra passa, ainda, mal pisando as pedras da velha rua da Cadeia, até ao covil dos Lobos. E, à tarde, quando a nortada começa a soprar dos lados de Espanha, a mesma sombra, afagando o chão, regressa ao solar, que teve o seu nome.
Sombra tutelar. Sombra, apenas, ainda que com a majestade de uma catedral, com a riqueza de um altar, com a grandiosidade de um monumento e com a beleza de um livro de oiro. Mas, um dia, quem sabe, talvez, num outro Fevereiro, o sol nasça de outro lado e os rouxinóis voltem a cantar nos loureiros do Canto de São Pedro.
Carlos Tomás Cebola – Fevereiro de 2001
* Nota
D. António Lobo da Silveira (Alvito) faleceu há 50 anos, em Fevereiro de 1961. O presente artigo de Carlos Tomás Cebola foi publicado na edição nº 78 do Jornal de Nisa (Fev. 2001) e a sua re-publicação destina-se a assinalar os 50 anos do falecimento de uma das figuras mais gratas que os nisenses não deixam de recordar com carinho e saudade.

Nisa reviveu a tradição do Senhor dos Passos



Realizou-se no passado domingo, em Nisa, a tradicional procissão do Senhor dos Passos.
O cortejo religioso saiu da Igreja Matriz, sob um céu cinzento e carregado de nuvens, a ameaçar chuva, percorrendo e detendo-se nas primeiras estâncias, junto à Matriz e na Praça do Município, ambas no Centro Histórico.
Estava cumprida a primeira parte do percurso na vila antiga e transposta a Porta de Vila um novo “passo” aguardava as centenas de fiéis que integravam a procissão.
A chuva entretanto fazia-se anunciar. Primeiro, levemente, depois em bátegas mais grossas, o que obrigou o cortejo a uma mais rápida passagem pelos locais do trajecto e a anular algumas solenidades previstas para este dia.
Ainda assim as centenas de fiéis que acompanharam a procissão não arredaram pé e cumpriram o percurso até ao Calvário.
Nisa reviveu a tradição do Senhor dos Passos, não com a participação de outros anos devido às más condições climatéricas, mas com o mesmo empenhamento e devoção a um evento do calendário religioso que cala fundo no coração dos nisenses.

Mário Mendes in "O Distrito de Portalegre" - 16/3/2010

segunda-feira, 4 de abril de 2016

NISA: A Porta da Vila nos anos 40

A Porta da Vila não está no roteiro da toponímia “republicana” do burgo, mas podia estar. O largo foi desde sempre, o principal ponto de encontro dos nisenses, principalmente da população rural, não só por ser a “linha de fronteira” natural entre a Matriz e o Arrabalde, mas por se situarem aí as principais referências comerciais da vila.
Quase todos os estabelecimentos, grandes ou pequenos que vieram a despontar em Nisa, tiveram a sua rampa de lançamento no designado Largo Serpa Pinto. Depois, conforme o êxito e progresso do negócio foram procurando outras artérias, mais consentâneas com o alargamento do espaço e da oferta de produtos.
Nos anos 40 e até finais dos anos 60 do século passado, muitas foram as firmas comerciais que passaram pela Porta da Vila, dando ao largo um permanente movimento e um frémito de vida que, a partir dos anos 70 se começou a desvanecer.
Ali nasceu, por exemplo e como augúrio de um tempo novo, pós guerra, que não chegou a materializar-se em terras portuguesas, o primeiro café de Nisa. Designava-se “Restauração” e foi inaugurado em 1 de Dezembro de 1945. Ali despontou também a Cervejaria do senhor António Alberto, um “monumento” de simpatia e que muitos nisenses recordam com saudade e uma imagem de carinho e ternura.
No largo e junto à padaria de João Mendes, se iniciaram os protestos sobre o racionamento do pão e que iriam levar a uma onda de repressão que se transformou numa das páginas mais negras da história de Nisa: a greve (ou revolta) do pão, em 12 de Dezembro de 1943.
Ali se realizou, anos depois do 25 de Abril, em 1981, uma grande manifestação, talvez a maior, em Nisa, de gratidão e reconhecimento, com a inauguração do busto ao Dr. António Granja, médico dos pobres e republicano assumido. O largo passou a ostentar, como homenagem, o seu nome
Não tinha muita luz, a Porta da Vila, nesses anos da década de 40. Um candeeiro central, ladeado por lindo canteiro de flores, iluminava, tenuemente, todo o largo, o que conferia ao espaço a imagem de uma praça medieval.
As casas tinham todas moradores, a maior parte residindo por cima dos espaços comerciais que exploravam.
Não havia a “febre automobilística” dos dias de hoje. A Porta da Vila era um lugar de passagem, permanência e convívio. Convívio esse, quase sempre vigiado, principalmente à noite, não se permitindo “ajuntamentos”.
A liberdade de movimentos era vigiada, ainda assim não faltava a alegria e o bulício de uma vila que mostrava alguma expansão e vontade de trilhar um rumo de futuro para os seus filhos.
Hoje, são poucas as lojas da Porta da Vila. As casas, na sua maioria estão fechadas, outras mostram sinais evidentes de desleixo e abandono. Não seria difícil à Câmara, ao abrigo da lei, sensibilizar ao menos os proprietários para que caiassem as frontarias dos prédios e devolvessem ao largo onde “mora” o Dr. Granja um pouco da brancura e alegria que teve noutros tempos.
O principal monumento de Nisa está ali. O espaço contíguo não pode dissociar-se desta realidade. É urgente um novo rosto para a Porta da Vila.
Quem aceita o desafio?
Mário Mendes - 8/11/2010

NISA: Brilho intenso nas Festas do Mártir Santo (2010)




Fogo de artifício, música, animação, solenidade, encontro e convívio, marcaram a festa em honra de S. Sebastião, o Mártir Santo, em Nisa.
Os festejos começaram no dia consagrado a S. Sebastião (20 de Janeiro) com uma procissão entre a capela do mesmo nome e a Igreja Matriz.
Na sexta-feira, no início da tarde, teve lugar o “acender do lume”, a monumental fogueira que iria perdurar e aquecer os mais friorentos ao longo do fim-de-semana.
Brilharam nesta noite, os dançarinos e dançarinas da Escola Silvina Candeias que deliciaram a vasta plateia, composta por pessoas de todas as idades, com diversas danças de um repertório clássico e alegre que a todos contagiou, merecendo por inteiro as calorosas salvas de palmas com que foram presenteados.
A música de baile conquistou jovens e menos jovens em festiva animação. Os bares não tiveram mãos a medir e a capela, luminosamente decorada atraiu aqueles que preferiram o refúgio na oração e na meditação.
A noite de sábado registou uma enchente como há muito não se via no largo e imediações da capela consagrada ao Mártir Santo.
As actuações de Josélito Maia e de Zé Águas levaram ao rubro gente de todas as idades, numa noite agradável e que convidava à festa e ao divertimento.
Resposta muito positiva da população de Nisa e visitantes para o esforço desenvolvido desde há cinco anos pela Comissão Organizadora, composta na sua maioria, por jovens e que têm como único objectivo manter viva a tradição e adquirir fundos para melhoramentos na capela. Estes, tais como as contas, estão, aliás, bem visíveis.
O lançamento do balão, momento sempre aguardado e o deslumbrante fogo de artifício, deram ainda mais beleza a uma noite mágica que se prolongou pela madrugada fora.
No domingo, realce para a entrega e arrematação dos “ramos”. O artista popular Diogo Guerra no seu estilo inconfundível ia marcando os ritmos e os preços das várias ofertas da população. “Cesta com pão, laranjas, cacholeiras, uma garrafa de vinho, doces, está em 15 euros. Quem dá mais?”. E lá seguia “puxando” as mais valias aos produtos, para aumentar as ofertas. Uma, duas, vinte, trinta vezes, sempre no mesmo tom bem disposto e prazenteiro.
Aos ramos e à fogueira seguiu-se uma vez mais a música. Atiraram-se ao “balho” aqueles a quem ainda restava uma folga no espírito e no físico.
A festa terminou ao cair da noite. Três dias de folia e um de solenidade mais profunda, no respeito e devoção por um santo que foi mártir e que continua bem presente no coração do povo.

Mário Mendes in "O Distrito de Portalegre" - 31/1/2010

À FLOR DA PELE - A emigração nisense nos anos 60

 Este parte, aquele parte / E todos, todos se vão. / Galiza, ficas sem homens / Que possam cortar teu pão.Rosália de Castro (poetisa galega)
A emigração portuguesa para França, nas décadas de 60 e 70 do século passado, particularmente, a dos norte-alentejanos, em busca da esperança e de melhores condições de vida, representou uma autêntica epopeia, escrita com palavras de sofrimento, coragem e saudade. Está por fazer, ainda, o retrato dessa época em que as aldeias e vilas do Alentejo começaram a ficar desertas e a verem partir, pela calada da noite, os braços válidos e activos dos homens a quem o país negava o essencial de uma vida digna.
Falar de emigração
Nisa, três da tarde, num dia de calor sufocante. A casa, no Boqueirão, onde funcionou durante anos a delegação concelhia da Assistência Nacional aos Tuberculosos, de triste memória, serve agora de Centro de Convívio onde idosos de várias idades podem jogar às cartas, xadrez, dominó, ver televisão ou ler jornais e revistas.
Aí encontrámos um grupo de nisenses, com uma história de vida comum, a da emigração. Três deles demandaram terras de França, e são viúvos. O outro, abalou até Lisboa. Todos, à procura de uma vida melhor.
Percursos de vida que quiseram partilhar connosco e que constituem pequenas amostras da realidade social e política vivida em Portugal nos anos 60.
Joaquim da Graça Basso, o mais velho do grupo, tem 81 anos, 22 dos quais a trabalhar em França na região de Tours.
“Fui para França em 1965 à procura de trabalho e de melhores condições de vida. Em Nisa estive até aos 35 anos, partia e fornecia pedra para as obras. A minha mulher vendia peixe. Era uma vida de sacrifício e pouco rentável, mas íamos sobrevivendo, até que começou a faltar trabalho e fui obrigado a emigrar. Estive três meses a trabalhar sem contrato, como servente. Depois as coisas compuseram-se e ganhei a minha reforma a trabalhar na construção civil.”
Joaquim Basso não gosta de recordar o que passou para chegar a França e prefere, antes, lembrar o que a vida de emigrante lhe proporcionou.
“Trabalhávamos muito e no duro, mas se não tivesse emigrado nunca poderia ter construído o prédio que tenho e ter pago os estudos ao meu filho que se formou em Medicina. Acho que os emigrantes deviam ser homenageados em Nisa, com um monumento, para que as pessoas não esqueçam o regime que tivemos e a história dos milhares de nisenses que foram obrigados a partir, uma história escrita com sangue, suor e lágrimas”.
Manuel Quintino da Silva Dinis (Manuel Comporta), com 70 anos, é o mais novo dos quatro, e talvez por isso, o que tem mais “fresco” na memória, o drama da emigração.
“Fui para França, “a salto”, clandestinamente, em 1966. Trabalhava no campo e ganhava-se pouco. Segui o rumo de outros conterrâneos e do que passei para chegar a Toulouse, fiz umas quadras para registo dos mais novos. Em França trabalhei 3 anos na construção civil e mais tarde numa estação de serviço da Móbil onde passei à reforma, em 1996. Dois dos meus filhos nasceram em França, um foi de cá com mês e meio de vida. Reparto a minha vida entre França e Portugal. Venho muitas vezes a Nisa matar saudades, os meus filhos gostam da terra e também cá vêm.”
Manuel Dinis fala da França com orgulho e gratidão. “Deu-me trabalho, uma vida melhor e mais digna. Deu-nos a liberdade que cá não tínhamos e por isso também penso que se justifica uma homenagem aos emigrantes, aos filhos de Nisa que abalaram para França, para outros países e também para Lisboa e outras terras portuguesas. Um monumento seria de inteira justiça, pelo que nós sofremos e pelo que demos ao país.”
António Maria Marquês, 80 anos, não precisou de passaporte de turista, nem de ir “a salto” para rumar até à capital.

“Tinha 34 anos quando abalei para Lisboa. Trabalhava no campo, nem sempre havia trabalho, ganhava-se mal e era preciso sustentar a família. Trabalhei na Presmalte e na Fábrica de Fogões Portugal, na Póvoa de Santa Iria. Reformei-me aos 65 anos e regressei a Nisa. Como me sentia com forças e durante algum tempo ainda trabalhei como servente de pedreiro.”
Gosta de passar a tarde no Centro de Convívio, quando há companheiros e ali se entretém a jogar dominó e a olhar de soslaio algum programa de televisão.
De França, ouve com atenção o que os companheiros lhe contam e dá o seu assentimento à ideia de um monumento aos emigrantes, ele que também foi emigrante no seu próprio país.
António Maria Salgueiro, abalou para França em 1966. Fixou-se na zona onde residem e trabalham a maioria dos nisenses em terras gaulesas, a vila de Azay-le-Rideau, na região de Indre et Loire, no centro de França. Emigrou pelas mesmas razões dos seus companheiros, tendo trabalhado na construção civil e numa fábrica de tijolo.
Reformado, 79 anos, divide a sua vida entre Portugal e França.
“ A França deu-me a vida que tenho. Cá andava sempre com uma mão detrás e outra à frente. Tenho três filhos, dois estão em França e a minha filha está na Policia, em Lisboa. Gosto de vir a Nisa e encontrar-me com os meus “artilheiros”, passar um pouco de tempo no jardim, no centro de convívio ou a fazer qualquer coisa no campo. Quem se habituou ao trabalho nunca se desabitua. Em França para se ganhar e poupar alguma coisa tínhamos que trabalhar no duro. Não pensem que nos davam o salário e as condições de mão beijada. Não. Por isso, concordo com o que disseram sobre o monumento aos emigrantes e acho que já devia estar feito.
Os nisenses estão bem vistos e integrados em França, principalmente na região de Tours, onde moro. É justo que reconheçam o que nós fizemos pelo país”.

Jaime Cortesão em “Os Emigrantes” escreveu: “ Partir é quase morrer. / Pode ser p´ra nunca mais: / Dentro do peito a bater / Um sino toca a sinais.
Manuel Dinis (Comporta) deixa-nos um relato, em verso, do que foi a epopeia da emigração portuguesa clandestina para França. Um drama que ele próprio viveu e sentiu na pele. Em busca de um futuro melhor!
A ida de um clandestino de Portugal para França – Anos 60
Abalei da minha terra
Sem dinheiro nem passaporte
Com destino para França
Sujeito a encontrar a morte

Foi de Nisa que parti
Com os olhos todos molhados
Deixando a minha mulher
Há pouco tempo casados.

A Castelo Branco cheguei
Para o passador encontrar
Daí tomámos o rumo
Para um rio atravessar.

Estivemos no meio de um mato
Uma noite e um dia
Cheio de frio e fome
Com a barriga vazia.

Chegámos a uma terra
Que se chamava Naves Frias
Aí estivemos fechados
Cinco noites e cinco dias.

Éramos catorze homens
Dentro deste palheirão
À espera que nos dessem
Um bocadinho de pão.

Daí seguimos viagem
Cansados mas sorridentes
De catorze já passámos
A ser mais de duzentos.

Quando foi à noitinha
Toda a gente se pôs de pé
Foi esta a maior etapa
Quarenta e quatro horas a pé.

Éramos só dois de Nisa
Tinha um bom companheiro
É um rapaz que se chama
O amigo José Salgueiro.

Ao fim de quarenta e quatro horas
Aí parámos então
Para descansar um pouco
À espera de um camião.

... Chegámos então a França
A um monte fomos parar
À espera do bilhete
Para o comboio apanhar.

Doze dias eu demorei
Para este país encontrar
Não desejo a ninguém
Este sacrifício passar.

Todos estes sofrimentos
Toda esta amargura
Para deixar o país
No tempo da Ditadura.

Só os ricos é que mandavam
Nós nem podíamos falar
Podemos “agradecer”
A um chamado Salazar.

É isto que me dá pena
É isto que me revolta
O autor destes versos
Chama-se, Manuel Comporta.

Sem dinheiro para a viagem
Para pagar ao passador
Foi a minha avó Pelota
Que me fez este favor.

Com isto vou terminar
Manuel Comporta me assino
Para que toda a gente saiba
O que foi um Clandestino!
Manuel Comporta - 6 Março de 1966
 Texto e fotos de Mário Mendes in "Alto Alentejo"  

domingo, 3 de abril de 2016

MOTIVOS ALENTEJANOS: O Relógio

Uma... duas... três... quatro... cinco... seis badaladas que, poucos segundos depois, o relógio repete matematicamente.
A aurora começa a raiar e, com o seu advento, um novo dia de trabalho se inicia.
Em casa, as mulheres lavam a cara e fazem o “almoço”
Em seguida, já vestidos com o fato de “trazer”, chegam-se à lareira e tomam a refeição com apetite voraz.
 Vão para o trabalho.
É que o Relógio da Torre é o “manageiro” supremo de toda a população, a única entidade a quem todos obedecem, sem a mínima hesitação.
Desde o rural ao médico, passando pelo padre e pelo professor, todos pautam a sua vida por aquele enorme amontoado de cordas, balanceiros, carretos, mostrador e ponteiros..
E, que seria das gentes se não existisse aquele amigo, sempre pronto a dizer-nos “às quantas andamos”?
Lá longe, no campo, é ainda o velho relógio, cujo som forte e amigo se faz ouvir por muitos quilómetros em redor, quem avisa os camponeses da hora do “jantar”, da hora da “sesta”, da hora da “cigarrada” e, finalmente, do momento de “soltar”.
Há-os de vários tamanhos e feitios, com um, dois, três ou quatro mostradores, iluminados ou não, conforme a época de construção ou restauro.
Dos mais curiosos que existem na nossa província, um deles é o da antiga Torre de Cabeço de Vide, concelho de Fronteira e Distrito de Portalegre.
O seu mostrador é de mármore branco e nele se vê gravada a data de 1570. Tem apenas um ponteiro, que representa uma mão com o dedo indicador apontando as horas.Por vezes eram construídos nas frontarias das igrejas, como o da Sé de Portalegre e, mais geralmente, no edifício da Câmara Municipal.
O da vila de Nisa, que tem um som dos mais bonitos que tenho ouvido, ergue-se numa torre da chamada Porta da Vila, antiga entrada da povoação, quando esta era ainda amuralhada.
Ainda que hoje em dia tenha relógio, de bolso ou de pulso, o Relógio da Torre continua sendo imprescindível, principalmente nas vilas, aldeias e pequenos aglomerados populacionais.
João Ribeirinho Leal in “Motivos Alentejanos”