terça-feira, 5 de julho de 2016

In Memorian - TEMUDO BARRETO: A morte de um homem multifacetado (1998)

 Manuel Joaquim Temudo Barreto, faleceu no passado dia 8 de Junho, no fim de uma vida de 86 anos dedicados ao ensino, à cultura e à solidariedade social. Nascido em Nisa, Manuel Joaquim Temudo Barreto foi professor do ensino básico e director escolar. Desde cedo a sua personalidade multifacetada o encaminhou para vários campos da cultura e do saber, na procura sempre ávida de novos conhecimentos, mesmo para além-fronteiras. Assim lhe nasceu o gosto, entre outros, pelo rádio-amadorismo, em que foi pioneiro em Nisa, e pela fotografia, onde se destacou pela elevada qualidade dos seus trabalhos, quer ao nível das técnicas – de inegável primor para a época – quer, sobretudo, pelas temáticas desenvolvidas.
Nisa e o seu concelho, ficam a dever-lhe um importante e valiosíssimo acervo de fotografias testemunhando aspectos únicos das variadas fainas e ciclos agrícolas. O “Ciclo do Pão” é, indiscutivelmente, um dos seus melhores trabalhos, não apenas como retrato de uma época historicamente definida, como pela qualidade dos textos que lhe dão suporte. Igualmente de grande valor patrimonial e histórico para o concelho e região, são as suas fotos a preto e branco (foram sempre as preferidas) ilustrando outras actividades quotidianas do concelho, especialmente as de Nisa.
Um espólio de incalculável valor patrimonial, histórico e sentimental que não poderá perder-se e sobre a autarquia deverá envidar todos os esforços para que seja preservado e divulgado. São conhecidas as fotos que registou e de que nos deu conta numa belíssima exposição na Casa da Cultura, sobre olaria de Nisa, os monumentos e os bordados tradicionais. Bordados de que ele seria, afinal, um dos principais defensores e dinamizador quer pela acção que desenvolveu nesse campo na criação e manutenção da Escola de Bordados na Misericórdia de Nisa, quer ainda pelos inúmeros trabalhos de investigação sobre o artesanato nisense de que deixou colaboração dispersa em vários jornais e revistas e ainda na publicação, em 1986, da obra “Alinhavados de Nisa”, pequenos opúsculo que constitui hoje em dia, referência indispensável para todos os estudiosos desta matéria.
Para além destas actividades, Temudo Barreto desempenhou vários cargos directivos na Santa Casa da Misericórdia de Nisa, nomeadamente, provedor, vice-provedor e secretário em vários elencos e mandatos, experiências que lhe deram alguns conhecimentos desta problemática e sobre a qual se debruçou em profundidade, deixando inúmeros textos e colaboração dispersa por alguns jornais e revistas da especialidade.
A história e desenvolvimento da Misericórdia eram, de resto, uma das suas actuais preocupações e desejo de investigação, como o atesta um recente trabalho em que historia a fundação da Instituição e refere os principais momentos da sua vida até à actualidade. Um trabalho que terá deixado incompleto, bem como a sua vontade de colaboração no nosso jornal, manifestada dias antes da sua morte.
Morreu o director Barreto. O funeral realizado ao fim da tarde de 3ª feira constituiu uma sentida manifestação de pesar por parte da população, familiares, amigos, pessoal da Santa Casa, que não quiseram deixar de lhe testemunhar o último adeus.
Mário Mendes - Jornal de Nisa - 17/6/1998

O CANTINHO DO EMIGRANTE: Lembranças da minha terra

Já lá vão muitos anos, em que um rapazinho em idade escolar, brincava com os outros meninos por todas as ruas de Nisa e já nessa altura ele imaginava que um mundo sem cor, seria monótono, lembrando-se logo das flores e das suas cores que indicam às abelhas que têm néctar.
A cor de que o rapazinho mais gostava era a cor do sol luminoso, que lhe dava a energia para brincar, esquecendo-se por completo dos afazeres da “chécola” (escola).
(Sabiam que os estudiosos lutam pelo ensino generalizado do mirandês? Esta “lhéngua” (língua) foi legalizada em 1999. Hoje o mirandês não é apenas uma língua oral que sobreviveu no rincão transmontano, no concelho de Miranda da Douro, mas sim a segunda língua oficial em Portugal, falada num território com uma área de 500 Km2 e teve origem num dos romances peninsulares, formados a partir do latim vulgar, nomeadamente do asturo-leonês, pelo que pertence ao grupo das línguas românicas.
A sua formação tem paralelo na origem galaico-portuguesa, estimando-se os falantes desta língua entre as 12 e as 15 mil pessoas. Em França existem 75 línguas diferentes, sendo 25 na Metrópole e as restantes nas colónias ultramarinas.)
Eu a falar no dialecto “nizorro” é como se fosse transportado ao lugar da minha infância e por isso vamos aqui recordar alguns episódios do meu percurso escolar.
“Drente” (dentro) das salas de aula, as paredes tinham a fotografia do Salazar, o homem forte do Governo que apostou na alfabetização em Portugal, autorizando os nossos professores a baterem-nos e a oprimirem-nos para que tivéssemos medo e fossemos obrigados a estudar, vindo-me à memória uma cena em que o professor chamou ao quadro, um aluno chamado Armindo, o qual, por não saber fazer os cálculos correctamente, foi submetido às tão originais reguadas, seis precisamente, três em cada mão.
O Armindo chorava, gritava, largando “escuma” pela boca e exclamando: “Não me bata senhor professor, que eu digo ao meu tio, que é ferreiro, que lhe faça uma régua de ferro!”.
Outros iam para casa e diziam aos pais, arriscando-se a não fazerem exame. Era assim naquele tempo.
A hora do recreio era como se fosse um balão de oxigénio que entrava pela “jenêla”, em que a miudagem brincava “à moda de Nisa”, sem brinquedos, claro! Uns jogava “à zuca”, outros ao “monte a cavalo”, uns ficavam “esmarzelados” ou “incardidos” devido às quedas, enquanto outros, ainda, iam “arreganhando a pinhoada” de os verem às cambalhotas e da retoussa , muitas vezes resultava que alguns tinham que ir ao “hospetél” cozer a cabeça partida.
Quando acabava o quarto de hora oficial do recreio, subíamos as “xecádias” a correr para não sermos os últimos, porque o último tinha sempre a régua à espera. Enquanto o senhor professor na sua “menza” de trabalho dava volta aos “papéles” para ver os exercícios que se seguiam, já nos pensávamos: quem será agora o que vai “bacaquié”?
Chegava, entretanto, a hora do almoço e por sinal estava a “morinhé”, pelo que, aqueles que não iam à cantina no Asilo do D. António, teriam que correr sem olhar que metiam os pés nos chaboucos, chegando a casa “incharcados”, na qual, os de recursos mais modestos teriam que enxugar a roupa no corpo.
- Mãe! Estou cheio de fome! – dizia eu.
- Não sejas “sôfrogo”, espera “maneirinhas” que os feijões se cozem! – respondeu a minha mãe.
Entretanto, às escondidas, “esbornoquei” um “anásse” de pão, que nem sequer cheguei a mastigar, porque levei logo uma “talouquéda” na cabeça, que até fiquei com o cabelo “arreféde”. Nisto, já eram quase horas da entrada na escola, pelo que tive de correr, chegando atrasado e com o dedo do pé a sangrar.
O professor teve tanta pena de mim e de me ver a chorar que me mandou à “farmaça” do doutor Aniceto tratar a mazela. A “amnistia” durou pouco tempo, porque ao fazer o ditado, o aparo da caneta fez um borrão e lá fui eu submetido à sessão das reguadas.
Os mais velhos e mais abonados, já frequentavam o colégio (Externato Durões Correia), mas também eram submetidos à disciplina salazarista, sendo obrigados a incorporar a Mocidade Portuguesa, tendo um uniforme que eventos religiosos, mantinham a ordem e o respeito.
Um dia, estudávamos a lição “A fauna e a flora” e o professor apontou com a ponta da cana da Índia para o livro que mostrava a imagem de uma zebra, perguntando ao José Maria Bizarro: que animal é este?
- É um burro às riscas, senhor professor!
O professor, com esta resposta, achou tanta piada que sorriu e não lhe bateu...
Falando em bom português e esquecendo o tempo da “mesêra”, em que chegava a dizer que gostava de estar doente, só para beber leite, ou o dos alunos de Tolosa daquele tempo que iam à azeitona e às favas para o seu professor.
Confesso que não estou arrependido de viver esta infância, em que saboreávamos os frutos exóticos das palmeiras do doutor Fraústo Basso, as amoras (que já não há) na Estrada com o mesmo nome, as tibórnas nos lagares, ou assistíamos, extasiados, à formação dos arcos-íris. Tudo isso fez ( e faz) parte do universo da minha infância, de uma memória que me faz recordar os professores Serafim, Pires, Pereira, António Paralta, Pires (de Arez), Porfírio e João Maria, ficando aqui a homenagem em forma de agradecimento e muito obrigado pelas “reguadas” que nos deram e muito bem nos fizeram...
António Mourato (Conicha)

MEMÓRIA: A Companhia Teatral Rafael de Oliveira em Nisa (1941)

O programa é de Julho de 1941 e por ele se mostra a grande afeição das gentes de Nisa ao teatro.
Por aqui passava e estacionava durante meses, a Companhia Rafael de Oliveira, com o seu Teatro Desmontável e que em Nisa e arredores deixou um impressionante registo de admiráveis actuações. As pessoas mais idosas da terra ainda se lembram bem da permanência de Toni de Matos, o grande cantor romântico português e que em Nisa (ou Niza como vem no cartaz) frequentou a Escola Primária. Outros talentosos artistas tiveram aqui e por via da Companhia Rafael de Oliveira, o seu "baptismo teatral".
O espectáculo de teatro "A Calúnia" como tantos outros, eram complementados com variedades musicais e neste dia actuou o cantor Toni de Matos, acompanhado à guitarra e à viola por dois amadores locais, os "exímios tocadores" José Velez Metelo e José de Oliveira Ramos, conhecido e popular enfermeiro que desempenhou as suas funções no antigo Hospital da Misericórdia, na rua Capitão Pais de Morais. Um outro artista local indicado no programa foi Laurentino Ramalhete, tratado como "distinto amador" e que interpretou a sua "genial criação" Eu sou um Alho.
Esta "noite de arte, sensação e prazer" tinha preços módicos que iam desde as "meias-entradas" a 1 escudo até às "cadeiras" a 6 escudos. A "geral simples" que comportava o maior número de espectadores, custava 15 tostões. Estávamos em 1941, o espectro da guerra a pairar sobre o país e o mundo, ainda assim os artistas não "desarmavam" e levavam o teatro à "província" em companhias desmontáveis, sem apoios de ADNs e Câmaras, nem tão pouco utilizando os espectáculos pagos pelo povo para destilarem qualquer ingrediente de verborreia demagógica.

CRUZ MALPIQUE: Chávenas de café quase amargo (1)

ENAMORADOS DE ROCOCÓ
Há vidas que vão, de um ao outro extremo -- desde que alvorecem até que se extinguem -- com ininterrupto esforço de vontade. São carros numa subida sem fim, carros que marcham em prise permanente. São vidas que não conhecem um minuto de descanso, fazendo pontaria sem tréguas a um alvo distante, do qual só tiram os olhos quando a morte lhos fecha.
As vidas dessa casta decorrem na clave da heroicidade. Não sabem o que é um desfalecimento. Em ambiente de facilidades, sentir-se-iam murchar. Apetecem, por natureza, os lances difíceis. A vitória que alcançassem, sem risco, tê-la-iam por vergonhosa.
Um Flaubert, por exemplo, no mundo dos escritores, abominava com facilidade. Se uma linha lhe saía de um jacto logo ele desconfiava da fartura... Nunca escreveu como quis – mas nunca renunciou à vontade de ver se poderia alcançar o seu ideal negaceante da prosa sem pontos mortos, da prosa flagrantemente ajustada à viva realidade. A sua pena correu-lhe sempre heróica sobre o papel -- ladeira, para ele, ultra-íngreme. A colocação de um adjectivo atormentava-o. "Para fazer uma boceta derribava uma floresta" -- disse Dumas, a respeito do autor de Madame Bovary . Condensar o estilo era a sua obsessão. Detestava o farfalho retórico. Remendos de púrpura, muito do agrado de primários, não os podia ver. A frase definitiva seria, para ele, aquele a que, declamada com voz natural, não alterasse o ritmo espontâneo da respiração.
A perfeição do estilo foi nele uma tortura, um milagre de vontade. Incontentadiço, como era, cortava constantemente, na ânsia febril de encontrar a frase justa. "Ah!, eu sei o que são os terrores do estilo! Sinto que o pescoço se me parte, de tanto suportar a cabeça inclinada. As repetições de palavras, os todos, os mas, os porques, os entretantos que tenho de eliminar...
Tarefa sem fim". O gosto da execução impecável era, em Flaubert, a mais cruciante das obsessões. Suava, amarfanhava-se, primeiro que se desse por satisfeito. Madame Bovary levou-lhe o melhor de seis anos a compor, e Salammbô quatro. Trabalhando sete horas por dia, escrevia vinte páginas num mês. Páginas houve que lhe levaram cinco dias!
Com vontade indomável lutou sempre, nunca soube o que foi uma vitória fácil em literatura.
Esta venceu-o, de fadiga. Ele, porém, ganhou a posteridade.
Muitos têm dito mal de Boileau, considerando que nunca foi um inspirado, e tudo conseguiu a golpes de vontade no mundo da forma literária. Não consta, no entanto, que Flaubert fizesse coro com esses maldizentes. Moralmente, não podia. Sentia-o seu irmão nas angústias da perfeição formal.
O estilo de Flaubert (um prodígio da vontade) é naturalmente simples. O sublime, o termo solene, rebuscado, para impressionar leitores ingénuos, são falhas de que o não podemos acusar. A simplicidade custou-lhe uma vida de canseiras. Daria duas, três vidas, para a alcançar. Só os beócios vivem enamorados do rococó.
APAGAR-SE

Santa Margarida Maria de Alacoque, escrevendo, em 1686, a um seu irmão, dizia: -- Tenho apenas um desejo: amar a Deus, esquecer-me e apagar-me".
Como este programa contrasta com o de boa maioria de humanas criaturas! O desejo destas -- o seu ardente desejo -- é precisamente o de se fazerem notadas, o de amarrem as simples temporalidades, o de fazerem constar que gens sunt, et cavalgare sabent. Apagar-se, esquecer-se, desaparecer na voragem do mundo, fugir do tumulto, seria, para esses tais, o suplício dos suplício. A exibição é sua constante preocupação. Dela, nela, por ela, e para ela vivem.
MUDAR

Quem de um campo (político, religioso, estético...) para outro muda, fica sempre na tristíssima contingência de ser furiosamente atacado por aqueles a quem abandonou, sem deixar de merecer suspeitas àqueles para quem se passou.
Não vejo, porém, razão para censuras, se a mudança foi inspirada por sinceros motivos. Não se vê que, tendo um homem assentado praça no sector A, permaneça para todo o sempre, no referido sector. Se razões de consciência o persuadirem a mudar -- não vejo que haja incoerência na mudança. Incoerência existiria, se teimasse em ficar onde primeiro sentou praça -- apenas para evitar a crítica. A imutabilidade absoluta é privilégio dos mortos.
Não se acobertem, porém, como esta prosa, os que de um para o outro campo desertam, apenas em função dos pruridos de estômago e vísceras adjacentes. A nossa prosa mira muito mais alto.
Cruz Malpique

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A Misericórdia de Nisa nos 500 anos da sua fundação e nos 50 anos da inauguração do Hospital.

"Este compromisso e privilégios queremos e mandamos que se cumpra e guardem na Confraria da Vila de Nisa, assim tão inteiramente como ele se contém, porque assim havemos por bem. Feito aos 17 de Novembro de 1520. André Pires o fez. El-Rei".
A Santa Casa da Misericórdia de Nisa, instituição com cerca de 500 anos, vive agora um período de maior acalmia, passados que foram os anos da existência de uma Comissão Administrativa, nomeada após a um período não menos conturbado e que levou a divisões entre os Irmãos da Instituição.
Com um total de 106 trabalhadores, número que inclui um médico e dois enfermeiros, a Misericórdia de Nisa é a segunda entidade empregadora do concelho, prestando apoio social e assistência a 187 utentes, não contando com o sector de educação que abrange 74 crianças, repartidas pela creche e pré-escola.
São números que obrigam a um gestão criteriosa dos recursos e não é de admirar que uma das palavras mais ouvidas do Provedor seja contenção.
“No anterior mandato estive com vontade de abandonar devido à minha profissão, mas insistiram para aceitar e aceitei devido às circunstâncias.
Nós tomámos posse em Julho de 2007 na sequência de uma Comissão Administrativa e a primeira medida que tomámos foi pagar os subsídios de férias ao pessoal. Não havia dinheiro, tivemos que fazer uma livrança e temos vindo a equilibrar as contas.
Os resultados, líquidos, do exercício de 2009 são de 47 mil euros e podemos dizer que a situação financeira está ligeiramente equilibrada, isto apesar de termos investido na instalação de painéis solares, mais de 80 mil euros, sendo 43 mil pagos pela Misericórdia, num período de 8 anos. Adquirimos ainda quatro carrinhas, sendo uma paga a pronto e as restantes em sistema de leasing.
Este ano vamos ter que proceder a obras de adaptação no Jardim de Infância, para responder às exigências de novos métodos pedagógicos.
Na última Assembleia Geral foi aprovada a venda de alguns bens, prédios rústicos e urbanos de valor diminuto, quer económico, quer agrícola.
Para 2010, o Plano de Actividades que elaborámos tem em conta a situação financeira, definimos algumas prioridades e não entramos em projectos que sabemos não poder concretizar. Vamos adquirir um fogão industrial para a cozinha da instituição e uma caldeira a gás para o aquecimento central.
Pretendemos construir um pavilhão na Herdade da Marfeira e outro na Herdade da Fajã, para além de prosseguirem as vedações em diversas herdades, numa extensão de 15 mil metros.”
É este, segundo José Dinis, o plano possível, atendendo às dificuldades económicas, que não são maiores porque, garante, “os balões de soro da actividade agrícola vão aguentando, e este ano estamos a contar com uma boa receita através da venda de cortiça.”
Questionado sobre os 50 anos da inauguração do Hospital da Misericórdia e a sua posterior transformação em Centro de Saúde, o Provedor refere que “o novo Centro de Saúde vai ser construído nos terrenos anexo ao antigo hospital, pertença da Misericórdia” e que a Câmara “irá pagar 180 mil euros, conforme avaliação feita pela própria autarquia e que nós aceitámos. O pagamento vai ser diferido no tempo, em tranches, e uma coisa posso garantir: esse dinheiro será para aplicar integralmente na transformação e beneficiação da unidade de cuidados continuados.”
Quisemos saber qual o futuro aproveitamento das instalações ocupadas actualmente pelo Centro de Saúde e José Dinis explicou-nos que não tinham ainda um objectivo específico, mas que “ as mesmas iriam integrar-se na função social que a Misericórdia desempenha, não estando excluída a ideia de poderem ser instalados consultórios médicos e de se firmarem protocolos com outras entidades, visando o aproveitamento e rentabilização das instalações”.
Dúvidas existem sobre o destino a dar á designada Casa da D. Adelina, tendo o Provedor da Misericórdia esclarecido alguns dos problemas que se têm colocado acerca do edifício.
“ A casa da D. Adelina foi adquirida para funcionar como Centro de Noite, projecto que nunca se concretizou. Havia a ideia de ali instalar um Centro para Doenças Degenerativas, foi apresentado um projecto às entidades competentes, mas o projecto veio indeferido.
Então pensámos em não avançar com mais projectos que significam gastar mais dinheiro. A Mesa Administrativa tem intenção de proceder a algumas consultas, ouvir o parecer de entidades e associações de modo a que haja propostas de ideias que levem ao aproveitamento do edifício. Se temos alguns protocolos na área da Geriatria com a ADN não vejo por que não possamos ter a nível de um concurso de ideias para a casa da D. Adelina.”
O aproveitamento da Praça de Touros foi outra das questões que colocámos a José Dinis.
“A Praça de Touros é gerida directamente pela Misericórdia. Cedemo-la, gratuitamente, a algumas associações com objectivos sociais e de solidariedade, como é o caso dos Bombeiros e a outras entidades, a um preço simbólico. Devo dizer que é uma infra-estrutura que nos dá prejuízo, quer com os custos de manutenção, quer ainda com os custos devidos por inspecções e alterações a que periodicamente estamos sujeitos.”
Um dos projectos mais falados durante anos foi a instalação do Museu Augusto Pinheiro, pintor naif natural de Nisa e que faleceu como utente da Santa Casa, tendo deixado a esta instituição um acervo apreciável de quadros de sua autoria.
O Provedor da Misericórdia foi claro ao afirmar que “houve, de facto, um projecto que nunca foi levado à prática e que entretanto, caducou. O Museu estava projectado para ocupar o espaço da antiga oficina de carpintaria na rua capitão Vaz Monteiro e como nunca foi concretizado, hoje temos dúvidas, face às dificuldades económicas que atravessamos, que este seja realmente um projecto para ser implementado pela Misericórdia.
O mesmo se põe em relação ao património arqueológico e à arte sacra, onde temos um valioso espólio, que no entanto não temos divulgado devidamente, por vários motivos, um deles a falta de condições de segurança.
Fizemos um protocolo com a União das Misericórdias e vai ser feito um levantamento de todo o património com valor cultural e artístico.”
Voltando à função social da Santa Casa e tendo em conta os princípios defendidos por D. António Lobo da Silveira, procurámos conhecer quais os critérios de admissão de utentes.
“ A Santa Casa tem uma enorme lista de espera, sendo a maioria constituída por mulheres.
Gerir as entradas não é fácil, pois há pessoas inscritas há 8 e 9 anos. O processo de admissão é, quanto a mim, transparente, sendo feito um inquérito pela técnica social, que depois é avaliado em função das necessidades de assistência pela assistente social que faz a proposta, sendo a mesma ratificada por três elementos da Mesa.
As prioridades são definidas de acordo com o Compromisso, dando a vez aos familiares dos mesários e empregados. Neste momento não temos vagas, ainda que disponhamos de lugares para utentes designados como temporários, situações de emergência por 15 dias e lugares para outro tipo de temporários, por um período de 3 meses que poderão ser renovados.”
Sobre as respostas que poderão dar no futuro, José Dinis acredita que “é possível avançar para o alargamento da extensão Lar, melhorar a Unidade de Cuidados Continuados, mas tudo isso vai depender dos investimentos e candidaturas que sejam aprovadas. Por nós, como disse, teremos uma “almofada” de 180 mil euros para início de trabalhos, mas não sabemos em que sentido vão evoluir as políticas sociais. O que posso dizer é que a sustentabilidade da Santa Casa tem sido conseguida através das comparticipações da Segurança Social. De outro modo seria impossível. As comparticipações são revistas anualmente em função das valências que temos."
"Equilíbrio das contas é fundamental"
 José Dinis Moura Semedo, 55 anos, Chefe de Finanças, natural de Nisa é o Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Nisa, eleito em 13 de Fevereiro do corrente ano.
Um cargo que assumiu um pouco a contra gosto, por já ter integrado o anterior elenco directivo, como vice-provedor e em parte pelo inesperado falecimento do anterior Provedor, António José Correia.
Na conversa que manteve com “O Distrito de Portalegre”, José Dinis revisitou um pouco da história desta instituição prestes a completar 500 anos de existência, num mês em que se assinalam (24.4.1960) os 50 anos da inauguração do Hospital da Misericórdia, que constituiu durante décadas, uma importante estrutura na saúde e assistência aos habitantes do concelho e de povoações vizinhas.
Para o Provedor da Santa Casa, a ideia-chave é contenção e equilíbrio das contas, ou não fosse ele um técnico das contribuições e impostos.
Mário Mendes in "O Distrito de Portalegre" - 30/4/2010

Memória e tradições de Nisa: AS CAPELAS



Ainda se lembram?
Dantes era tradição e hábito, por alturas dos santos populares, as mães fazerem capelas para os filhos e ou netos. Uma tradição que ainda se mantém, em Nisa, se bem que as capelas seja em menor número do que antigamente.
Escreve o prof. José Francisco Figueiredo, a este propósito, que pelo S. João e " às primeira horas da manhã do dia 23 e até à tarde, era certo, andarem as crianças de casa em casa a pedir flores para as capelas, que as mães confeccionam aprimoradamente, revendo-se depois, com orgulho, nas cabecinhas engrinaldadas dos filhinhos estremecidos".
Mais diz o autor da "Monografia da Notável Vila de Nisa" que as capelas "ficam toda a noite ao relento, isto é, penduradas em pregos às janelas das habitações. Deambulando pela vila, o transeunte fica inteirado de quantas crianças receberam da alegria das mães as coroas entretecidas de sorrisos e beijos. Basta olhar para as janelas!..."

segunda-feira, 27 de junho de 2016

NISA: Conheça os poetas do concelho (II) - Januário Maria Valentim

QUERIA VER A TUA LETRA
Queria ver a tua letra
Queria ver a tua letra
Queria ver a tua letra
Queria ver a tua letra

Em suave perfume de flor
Comparei-te com uma rosa
E tu sempre desdenhosa
Por eu te falar em amor
Não me achaste merecedor
D´uma condição secreta
Não me vale ser poeta
Para vencer bem e depressa
Podes crer que ia à festa
Se tivesse visto a tua letra

Eu queria ser como o passarinho
Voar sem nunca descansar
Em teu peito ia pousar
E cantando devagarinho
Para salvar o meu destino
Aquilo que a todos nos sujeita
Ver na tua mão direita
Qual o destino marcado
Mesmo que fosse de má vontade
Queria ver a tua letra

Mostrei-te o meu coração
Quis contar-te o meu segredo
Mas depois eu tive medo
Quando senti a comoção
Mesmo com a tua mão
Não quiseste pegar na caneta
Fizeste-me ficar alerta
Quando vi que não davas por isso
Mas se tivesses mais meiguice
Mostravas-me a tua letra

Desde que eu te conheci
Que de ti fiquei gostando
Andei sempre evitando
De me dirigir a ti
Até que mais não me susti(ve)
Sem ter uma ideia certa
Quando da luz do planeta
Recebi um afecto assim
Desculpa se te ofendi
Em querer ver a tua letra
JMV