sexta-feira, 10 de junho de 2016

JOSÉ LOPES CHAMBEL: Uma glória da Advocacia, viveu em Nisa

 JOSÉ CHAMBEL, nome profissional na OA: HONRA À SUA MEMÓRIA
Há poucos dias veio-me à memória a figura desse portento da advocacia, que viveu em Nisa, o Dr. José Lopes Chambel, ou Lopes Chambel para alguns, mas nome profissional na Ordem dos Advogados José Chambel, como era mais conhecido na barra.
Nasceu em 27 de Agosto de 1907 e faleceu após doença em 2 de Outubro de 1971.
Nomeado Delegado da Ordem dos Advogados na Comarca de Nisa em 10-1-1952.
Senhor de um saber profundo, de uma elegância e fino trato para todos, magistrados, funcionários, partes, testemunhas, Lopes Chambel ultrapassava com brilhantismo a figura normal de advogado, para se situar num plano superior dos deuses da advocacia, de uma simpatia, alegria e elegância no trato para com todos , mestre das instâncias... mas sempre preciso e inteligente e habilíssimo nas perguntas sabiamente dirigidas, sensato nos comentários , nas reclamações, com enorme delicadeza para com todos, devotando-lhe os magistrados o maior dos respeitos e admiração.
Detentor de forte simpatia pessoal quer em Nisa quer nas Comarcas onde fazia périplo com o Senhor Patrício, seu motorista na altura, Castelo Branco, Golegã, Castelo de Vide , e outras Comarcas para onde dera solicitado, por força do seu prestígio.
Foi por simpatia sua que nos transportou até Castelo Branco, teríamos 11 ou 12 anos, a uma consulta desse outro gigante em humanidade, e vulto da Medicina, o Senhor Dr. Afonso, oftalmologista, a bondade no atendimento, apesar já da sua doença, e depois o Senhor Campos, oculista Campos, outro homem de igual dimensão e igual bondade, pessoas que nos ficaram, e daí trouxemos o primeiro par de óculos, com o meu querido irmão António.
Lembro-me de ter prestado atenção ao estilo do Dr. Chambel, de certo modo deslumbrado com a sua natural empatia, como que expressando de forma natural a arte de bem conviver com todos, sendo o seu motorista , mais do que um trabalhador, um amigo pessoal.
Aliás meu irmão António refere que... em determinado julgamento, no Tribunal velho de Castelo Branco, o Colega da parte contrária se sentiu mal na barra, e o Dr. Chambel passou o dia em grande aflição que levou, transportou para o escritório, como se fosse, e era, um problema pessoal.
Esteve ligado segundo me dizem, e tenho isso impressivo na memória, a alguns grandes processos (por ex. creio que do sector das cortiças e outros) ombreando com outros vultos da advocacia, como Palma Carlos, sendo público o à vontade, domínio dos objectivos e liderança das situações e incidentes, com o público apreço mesmo das partes contrários e seus mandatários.
Igualmente interveniente na defesa das pessoas envolvidas na denominada greve do pão.
Um Distintíssimo Senhor igualmente em humanidade e grandeza de carácter.
Mais tarde, com a sua doença impressionava-me passar e ver na cadeira de rodas o Dr. Chambel, situação dolorosa para mim e que transmitia a minha mãe, ver assim um homem tão activo, e ele próprio nos via e gesticulava, o que era doloroso para nós.
Impôs-se-me assim recordar o nome e a memória desse gigante da advocacia portuguesa, era dado adquirido que se tratava de um profissional brilhante, mesmo fora de série, e ciente de que o auxílio imprescindível me viria de ti (apesar da dimensão em que estás, meu caro e bom Manuel - Manuel Sena, que o conheceste como poucos, meu grande e sincero amigo, e que essa informação me era indispensável, preciosa para homenagear com mais rigor e realce tal vulto tão brilhante de advogado, sob aspectos da vida forense e do escritório, que por certo com ele vivenciaste, e intimamente observaste nos teus anos no escritório, e de que falámos algumas vezes).
Mas logo se me aquietou o espírito, embora tenha consciência de não seja eu o mais digno e capaz para recordar tão elevada figura, mas que a tua bondade (... tão grande bondade que jamais esquecerei... meu bom Manuel ... me inspirará com a tua ajuda,... e o teu espírito transversal ao tempo me ajudará a “psicografar”, sem preconceitos, o dever deste testemunho, ou um texto minimamente digno da memória desse gigante dos Tribunais, da advocacia portuguesa, como jamais foi visto em poucos a esse tão elevado nível, e digno de repor a memória de alguém de plano superior na advocacia e no direito, como poucos alcançaram.
José Lopes Chambel ultrapassou, e esteve para além de um advogado comum , estava para além dos horizontes normais do dia a dia dos Tribunais do seu tempo, tecnicamente muito bom mas excepcional em processo, perfeito nas alegações, incisivo, porém educado e nobre nas instâncias em que era mestre e senhor, detentor do segredo da palavra certa e oportuna, ultrapassando com ligeireza patamares de alta exigência profissional e científica, apesar da elegância e simpatia que punha em tudo, sendo sua marca característica a anedota actualizada para descontrair , aliviar tensões, aproximar e convocar todos para um trabalho sereno e concentrado, advogados, partes contrárias, magistrados e funcionários, indispensável a boas e serenas decisões .
Com interesse ...” em 14 de Fevereiro de 1960: Dr.Manuel Flamino F.Martins, na passada segunda feira, realizou-se perante o Sr. Dr. José do Carmo, Conservador do Registo Civil de Castelo Branco, devido a encontrar-se doente o Sr.Dr. Alberto Franco Falcão, juiz substituto, o acto de posse do novo Juiz da nossa Comarca, Sr. Dr. Manuel Flamino Martins, que tem desempenhado as funções de Juiz Ajudante do Círculo Judicial de Castelo Branco.
Encontravam-se presentes no acto de posse, entre outras individualidades, os Srs. Dr. José Lopes Chambel, advogado, Moisés dos Santos Martins, estudante de Direito e irmão do empossado. (Creio que foi escrivão em Nisa e se terá formado ainda durante a sua actividade aí em Nisa, pelo menos é essa ideia que tenho).
No seu brilhante discurso o Sr. Dr. Juiz Flamino Martins referiu-se ao conceito de justiça e à dificuldade que muitas vezes surge na sua aplicação...
Ao novo Juiz da nossa Comarca, cujo valor intelectual e profissional há muito se impôs a todos que o conhecem, endereça o “Beira Baixa” as suas felicitações dom o desejo das maiores prosperidades no desempenho do seu novo cargo.”
Passava pois e muito por Castelo Branco, onde tinha escritório, o labutar deste senhor da advocacia, e seria certamente fácil colher testemunhos escritos sobre este Distinto Advogado, dos mais ilustres de Portugal, a quem nos cumpre rememorar tão Ilustre Memória.
Não recordar e honrar a memória de tal valor altíssimo e glória da advocacia portuguesa seria grave omissão do dever de respeito pela sua ilustríssima memória que aqui fica humilde, mas veneradamente respeitada, por um aliás humilde nisense.
Reproduz-se a seguir parte de decisão judicial (sentença) de um outro brilhante Juiz de direito na Comarca de Nisa, José dos Santos Silveira, e em que possivelmente o Exm.º Senhor Dr. José Chambel poderá ter intervindo: “Na presente acção ordinária, intentada pela Junta de Freguesia da Comenda contra a Firma Barreira e Companhia (Irmãos ) com sede em Lisboa, intervindo, por chamamento à autoria a sociedade inglesa, Henry Bucknall and Sons, Limited, com sede em Londres, as rés nas suas contestações, levantaram as seguintes questões:
1.º A nulidade da petição inicial, por ineptidão;----2.º A excepção da ilegitimidade da Autora;....3.º A excepção da ilegitimidade da Ré Barreiros ;...4.º A nulidade , quanto à petição inicial , por inobservância.........no que concerne ao pedido secundário; 5.º A excepção do caso julgado...6.º-A excepção peremptória de prescrição aquisitiva ou usucapião...............................
Entremos na apreciação das questões postas: 1.ª questão.... sabe-se o que pretende e porque pretende. Logo, não existe ineptidão. Pelo exposto se desatende arguida nulidade;2.ª questão, a questão deixou de subsistir, desde que a A. na sua réplica veio reduzir o pedido secundário, em virtude da excepção apresentada; 3.ª questão...Não tem razão a ré ... Entendemos que o domínio sobre os baldios pertence às entidades a que na lei se atribui a sua administração, pelas razões....; 4.ª questão...Sabe-se qual é o pedido e a causa de pedir....Não houve inobservância...e, por isso, se desatende a arguida nulidade; 5.ª questão...Entre a relação jurídica apreciada nas anteriores acções e a que é objecto da presente causa não há qualquer vínculo de dependência...Por tudo o que fica dito, se desatende a excepção do caso julgado;6.ª questão...A ré Bucknall exercia sobre as malhadas das Costas posse, não só por virtude do registo, mas ainda pela prática de actos de uso e fruição, pelo menos durante os meses de Outubro, Novembro e Dezembro, usufruindo o povo da Comenda os pastos e lande nos restantes meses do ano...Pelo exposto, se desatende a excepção de prescrição alegada pelas rés.....O direito de compáscuo do povo da Comenda, em relação às malhadas das Costas, a existir no momento em que o Código Civil entrou em vigor, teria sido abolido pelos mencionados artigos 2264.º e 2265.º. Atento o que foi resolvido no que concerne ao pedido principal, encontra-se prejudicada a questão relativa ao pedido acessório ou secundário dos frutos. Pelo exposto, improcedendo a acção, absolvem-se os réus dos pedidos.
Nisa , 9 de Julho de 1957 (a) José dos Santos Silveira).”
E com esta luz resplandecente fecho a homenagem a tão brilhantíssimo senhor da advocacia portuguesa.
João Castanho - 25/11/2010

NISA: Balão do Mártir Santo no "Pirilampo" (2010)



A tradição do lançamento do balão nas festas do Mártir Santo em Nisa, mereceu honras de destaque (3 páginas) no "Pirilampo" nº 19 - Fevereiro de 2010 - boletim da Turma Lusa de Lisboa, associação dedicada ao estudo e divulgação da prática balonista em Portugal. Aqui reproduzimos as três páginas do boletim dedicadas ao Balão do Mártir Santo de Nisa.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Artes da Terra: A OLARIA DE NISA

 Moringue em barro - António Pequito - Museu Nacional de Etnologia
Olaria Empedrada
A olaria pedrada é uma tradição bastante antiga e intimamente ligada à preservação da água. É típica na região do Alto Alentejo, nomeadamente em Nisa e Estremoz - que apresentam técnicas decorativas de incrustação no barro distintas -, e na região da Alta Estremadura espanhola, nomeadamente na localidade fronteiriça de Ceclavín.
Assim, a olaria de Nisa tem como principal função a conservação da água fresca para uso doméstico e o seu transporte pelos viajantes e trabalhadores rurais.
Na composição da pasta entram dois tipos de barro, o barro branco e o barro preto, utilizando-se ainda para o acabamento da peça o barro vermelho.
Nas incrustrações empregam-se fragmentos de quartzo. As decorações são levadas a cabo por mulheres, sendo os motivos mais frequentes são as flores e plantas típicas da região.
Jarra em barro - Museu Nacional de Etnologia
A partir dos anos 60 deu-se uma crescente procura destas peças para fins decorativos. Esta procura originou uma adaptação na tipologia de peças executadas e na sua decoração. Deste modo, para além do tradicional vasilhame, começaram-se a produzir artefactos decorativos tais como pratos, travessas, cinzeiros, pequenas réplicas de animais, entre outros. No que toca à decoração, mesmo nas peças mais tradicionais, começou-se a utilizar pedra de menor calibre (chamada de 1ª e de 2ª) e em apenas uma linha ou ida, como dizem os populares.
Pote de Roça - António Pequito - Museu Nacional de Etnologia
Potes de Roça
Produz-se igualmente em Nisa os chamados potes de roça ou potes roçados, cuja técnica de execução e o resultado final são bastante distintos dos da restante olaria nisense.
Através desta técnica apenas se produzem potes.
O barro é trabalhado em cima de pó de quartzo, ficando visível apenas na superfície externa da peça. Estas peças são extremamente resistentes e refrescarem mais a água do que os potes lisos, uma vez que o quartzo torna barro mais poroso, acelerando o processo de arrefecimento.
Cristina Ruivo in http://azulporcelana.blogspot.pt

CANTINHO DO EMIGRANTE: O comboio da esperança

 Já lá vão muitos anos, mesmo muitos, quando eu sonhava em ver o comboio pela primeira vez.
Foi num dia de Verão de 1962, quando a carroça azul e a égua do senhor Manuel Badanéla serviu de táxi, para me levar à linha do Leste, à estação de Vale do Peso.
Na aurora da manhã daquele dia, as ferraduras da “égua vermelha” ecoavam no asfalto a um ritmo acelerado, para chegarmos a tempo à estação e para eu apanhar o comboio. No caminho tive ainda o privilégio de ver Alpalhão pela primeira vez.
A minha bagagem era uma mala de cartão, comprada na loja do senhor Isaac Araújo, que eu ainda hoje guardo preciosamente, uma bolsa de farrapos com um quarto de pão cortado ás fatias e uma lata de cera que servia de marmita, guarnecida com um ovo frito e um bocado de chouriço, às rodelas, um barril de barro pedrado, cheio de água, onde podíamos ler: “Recordação de Nisa”, comprado no Ti Batata da Devesa. O barril não durou muito tempo, porque o comboio fez uma travagem, partindo-o.
O meu destino era a Grande Lisboa, aquela terra que soava em todos os peitos das crianças, deixando para trás a minha mãe e as minhas irmãs que me acenavam, pelo meio da fumaceira que o comboio largava, até me perderem de vista, chorando, como se eu fosse para uma viagem sem regresso.
À medida que o comboio avançava, eu ia descobrindo novos horizontes e paisagens, até muito longe, o comboio parou apitando três vezes, fazendo-me logo lembrar do filme com o Gary Cooper: tratava-se da travessia do Tejo, com a célebre ponte do “Corta-Cabeças”, pois foi assim baptizada.
Eu ia sempre à janela, pois não tinha fome, entusiasmado por tudo o que via, o meu rumo era a capital e sentia-me feliz por ir ver os prédios altos e os automóveis nas avenidas.
Ao chegar a Santa Apolónia lá estava o meu irmão á minha espera, que mal me conhecia porque eu estava todo “infarrusquéde” pelo fumo e o vapor produzido pelo comboio.
Fui morar para uma pensão, no Campo Pequeno, o meu salário nem sequer dava para pagar a mensalidade e eu tinha que aviar recados para poder recompensar a dona da pensão.
Nas horas vagas tinha o hábito de ir para a entrada da Feira Popular, ali perto, só para ver as luzes a apagar e a acender, fazendo-me lembrar o Circo “Prin et Fréres” que meses antes tinha visto na tapada municipal da Devesa.
Num desses dias, para não atravessar a Avenida da República, que se tornava perigosa com o trânsito, passei para o outro lado pelo túnel do Metro, e foi quando vi o chão juncado de milhares de panfletos. Comecei a apanhar, a apanhar... até que fui abordado por um homem que me levou preso por um braço para a esquadra da polícia do Campo Grande, a algumas centenas de metros dali. Lá, encontrava-se um polícia bastante gordo que escrevia sobre a secretária, não dando atenção à nossa chegada e sem mais nem menos o homem à civil perguntou-me: “quem é que te deu os papéis para tu distribuíres?”.
Respondi-lhe que ninguém me tinha dado papéis e disse-lhe que na minha terra quando passava a caravana da Volta a Portugal, eu era dos “cachopinhos” que apanhava mais reclames. E na festa do Mártir Santo lá na minha rua também apanhava muitas canas dos foguetes.
Ali reparei que o polícia gordo deu uma gargalhada, mas o homem à civil era rude e tinha cara de poucos amigos. Falou-me brusco e com arrogância, perguntando-me se eu era açoriano e apontando-me o seu dedo indicador para um dos papéis:
- Que emblema é este?
Eu, com a minha ignorância, respondi: isto é uma foice, igual à da minha mãe, quando corta o milho lá em Nisa e isto é um martelo, que o meu mestre “Padá” utiliza para pregar pregos.
- E o que quer dizer estas iniciais?, apontando-me para o papel onde estava PCP.
Como estava dentro de uma esquadra da polícia, respondi, inocentemente: Polícia de Censura Pública. Aí não me enganei muito porque estava frente a um PIDE, cujas iniciais eu já conhecia. Era a Polícia Internacional e Defesa do Estado, mais tarde DGS, Direcção Geral de Segurança.
O homem viu que eu era uma criança inocente e sem conhecimentos da matéria e disse-me: “Mósca-te daqui p´ra fora e não apanhes mais papéis no Metro!”.
Ainda fiz um gesto para trazer aquela papelada toda, mas aí o homem ficou furioso e deu-me um atazanão e um aviso: “Vê lá se queres ir parar ao “calhabouço!”
Saí da esquadra a bater com os calcanhares no cu..., percorrendo a Rua de Entrecampos sem olhar para trás e sem saber quem espalhou os prospectos que diziam: “Juventude Universitária Comunista”. Foi o que consegui ler, porque o homem de má carácter não me deixou concentrar.
Vinte e tal anos depois deu-se o 25 de Abril, onde os emblemas ou logos dos papéis do Metro vieram-me à memória, pois figuravam em todas as paredes e monumentos de vilas e cidades.
Agora, 45 anos depois, apercebi-me que as linhas paralelas do comboio que nos levam ao destino, podem ser comparadas com os partidos políticos, pois, por muito que se prolonguem nunca se encontram. Foi assim que eu aprendi na escola e é o que nós vimos no dia a dia, da boca destes “prometedores” que só querem o poleiro, apregoando o mel para depois venderem o vinagre.
Eu ainda tinha mais coisas para contar, talvez fique para a próxima oportunidade, confiante de que Portugal não tem petróleo, mas tem ideias, esperando que o comboio da esperança chegue, um dia, ao seu destino.
Deixo-vos com um forte abraço para todos.
António Conixa in "Jornal de Nisa" - Out.2007

Nisa festejou o Santo António - 2009

Marchas populares foram ponto alto da festa
A vila de Nisa celebrou uma vez mais, de 12 a 14 de Junho, as festas populares em honra de Santo António, uma organização que teve os apoios da Câmara Municipal e das juntas de freguesia do Espírito Santo e de Nossa Senhora da Graça.
Além do serviço de bar e quermesse, no recinto de festas, junto à Cruz das Almas, não faltou espaço para a animação musical, a cargo no primeiro dia dos Bombos de Nisa e do organista Nuno José, de Fortios, que abrilhantou o baile noite dentro.
No dia consagrado a Santo António, dia 13, houve uma procissão em louvor do santo, desde a Igreja do Espírito Santo até à capela que lhe é dedicada, seguindo-se a missa. Neste dia o baile teve a música do duo Mário & Companhia, de Proença-a-Nova.
No domingo, último dia de festa actuou o Rancho Típico das Cantarinhas de Nisa e houve marchas populares de Santo António, acompanhadas por Domingos & Dias Santos.
Para além das manifestações próprias associadas a este santo popular e devidamente programadas, não faltaram por toda a vila, as iniciativas em cada rua. Música, bailaricos, fogueiras acesas para assar as sardinhas e saltar com prazer, lembrando outros tempos, a boa pinga, a festa no seu esplendor.
Noutras localidades do concelho, a população também não deixou de festejar estas tradições, reunindo-se à volta das fogueiras, comendo e bebendo, numa atitude de convívio que não deixa de se assinalar e onde a música popular não deixou de marcar presença e ritmo.

Para futuro registo etnográfico, aqui respigamos o tema das Marchas populares de Nisa (2009)
Aqui vem Nisa
Com arquinho e balão
Com as saias encarnadas
Jaquetinha e calção

Aqui vem Nisa
Das alegres cantarinhas
Dos lençóis de alinhavados
E delicadas rendinhas

Gente nova gente velha
Cá de Nisa
Em casa ninguém fica
Vem na marcha todo o povo
Desta terra
Da Fonte da Cruz à da Pipa

Ruas novas ruas velhas
Cá de Nisa
Anda tudo em alvoroço
Do Palácio à Devesa
De Santo António ao Poço

Gente nova gente velha
Desta terra
Vai tudo à Senhora da Graça
Padroeira desta Corte das Areias
Abençoai a quem passa

E á noite estouram
Foguetes no ar
E o balão sobe iluminado
É festa de Santo António
Sai gente de todo o lado.
Mário Mendes in "O Distrito de Portalegre"

NISA: A Igreja da Misericórdia descrita pelo Dr. Motta e Moura:

Depois das igrejas das duas freguesias, a mais notável é a da Misericórdia, com seu magnífico hospital ao lado, sita na Praça da Vila e junto dos Paços Municipais do concelho.
É de uma só nave, mas a capela-mor é separada do resto por uma grade de madeira, com suas pinturas. O tecto é de abóbada e tem bastante elevação. O arco da capela-mor, assim como a porta de entrada, é de cantaria da terra e de forma e arquitectura gótica, tem um belo altar na frente, com retábulo dourado e e duas imagens de Nossa Senhora, simbolizando o mistério da Visitação. No centro está a Virgem da Piedade com o filho querido nos braços, naquele lastimoso estado em que o tiraram da cruz para O sepultar.
E, por cima, está arvorado este precioso lenho, com o sagrado depósito que lhe foi confiado. Por de traz está o trono e a tribuna, que iluminados e compostos, são os mais lindos e formosos da vila.Do lado do Evangelho está a bancada, onde a Mesa Administrativa da casa assiste às funções divinas que manda celebrar. E, no fundo, por cima do pórtico de saída, o coro, com as suas grades onde os doentes e convalescentes ouvem missa. Tem também dois campanários, mas só um conserva sino; e esse é de sobejo, porque o seu tanger fúnebre quase sempre anuncia alguma desgraça. Tem uma espaçosa sacristia onde se reveste o clero e ajunta a Irmandade para sair aos enterros, com vários armários, onde estão as imagens de Cristo e as bandeiras da casa e outros misteres do serviço divino.



Há nesta igreja missa quotidiana, por alma de diversos de instituidores de capelas; e duas festividades: a da Semana Santa, com duas procissões e sermões nocturnos; e a da Visitação, no dia 2 de Julho a que assiste a Irmandade e a Câmara Municipal do concelho.
Havia sermões, também, nas tardes dos domingos da Quaresma, pagos pelo Concelho; e ainda alguns anos os houve, satisfeitos pelas rendas da Casa, mas, desde o ano de 1842 que acabaram, porque, crescendo as despesas do hospital, pelo aumento da população, não chegava o rendimento para tanto. E tem uma rica e numerosa Irmandade com seu provedor, escrivão e tesoureiro e dez mesários de primeira e segunda condição, eleitos anualmente segundo o Compromisso Geral destas santas casas.
É a ela que cumpre o religioso dever de sepultar os mortos e acompanhar os enterros, havendo por isso a pequena esmola de 400 réis das pessoas humildes, e de 4 mil réis das ricas, que são depositadas na tumba nova, que foi manada fazer para os Irmãos e suas famílias."
Motta e Moura - Memória Histórica da Notável Vila de Nisa

domingo, 5 de junho de 2016

OS BARROS DE NISA - No olhar de João Diniz Fragoso

O Alto Alentejo é um retalho de cor viva deste tapete multicolor de Portugal.
Nesta interessante faixa que se desdobra ao sol com as suas casas muito brancas e de grandes chaminés, só quem sofra de anestesia estética não encontra motivos de encanto para os olhos mais ávidos de notas coloridas.
O povo deste torrão alentejano além de trabalhar e com “apego à terra” peculiar em todo o alentejano, é de boa índole e não sei se alguma influência possa ter nele o predomínio da cor branca, reflectida por toda a parte, visto que o branco – como diz Mantegazza quando estuda a alma desta cor – não excita os sentidos, não exalta como o vermelho, não nos repousa como o verde, nem nos eleva como o azul...
Neste retalho de Portugal que tem lá ao longe como sentinela vigilante a fortaleza de Marvão, tiveram os Templários, em tempos que já vão longe, um papel importante, principalmente acentuado no distrito de Portalegre.
Não se limitou a acção dos Templários apenas à conquista e defesa dos pontos mais investidos pelos mouros: dela vieram também bastantes benefícios para a lavoura local e pequenas indústrias derivadas, que embora confusas a princípio e sem valor próprio, se nos apresentam hoje em dia com algo de aproveitar.
Assim, a cultura do linho que nesta região foi extensa, originou a indústria de tecelagem em alguns pontos do distrito de Portalegre, dando em Nisa uma especialização – os alinhavados – lavor característico, inconfundível.
Aponto aqui uma outra pequena indústria alentejana que é no entanto uma das mais interessantes e com maior sabor regionalista – a olaria.
A indústria dos oleiros, além de ser uma das mais antigas do Alto Alentejo, é aquela onde a gente do povo manifesta a sua sensibilidade artística, imprimindo aos barros uma originalidade que é de apreciar.
Quem não conhece os barros de Flor da Rosa, Amieira, Estremoz e Nisa? Quantos pintores de arte não se têm prendido com a nota colorida e tão alentejana que dão os barros quando espalhados pelo chão nos mercados e feiras, expostos ao sol do Alentejo?
Pelo lado artístico – entre os oleiros do Alto Alentejo – são os de Nisa os que mais cativam, pela graça com que trabalham o barro, dando-lhe não só uma linha de modelação muito sua e elegante, mas enriquecendo ainda essa modelação com incrustações de pequeninas pedras brancas, formando diversos volumes e flores, que fazem das cantarinhas, alegres e decorativas peças para o lar mais exigente.
Na ornamentação destas cantarinhas, única no género, observa-se sobretudo uma facilidade enorme de trabalho e qualidades belíssimas de assimilação desse género de trabalho, sabendo-se que são geralmente as crianças e mulheres do povo, sem conhecimento algum do desenho, que fazem essas incrustações ornamentais no barro. É curioso ver a rapidez com que estes artistas ignorados do povo riscam no barro ainda mole, as graciosas curvas e ingénuas flores que depois geralmente as raparigas contornam com pedrinhas brancas.
No entanto, esses desenhos, devemos confessá-lo, não têm concepção alguma regional e nem o encanto da ingenuidade possuem, visto que são desenhos tirados aqui e além, alterados cada vez mais em cada reprodução feita. Em todo o trabalho de decoração a base é sempre a mesma – a ideia ornamental. Neste caso da nossa olaria alentejana e, mais particularmente ainda, da olaria nisense, os melhores elementos decorativos, a meu ver, devem procurar-se na própria Natureza.Sob este ponto de vista não faltam no Alto Alentejo valores decorativos a extrair da própria flora, por si mesma abundante de motivos ornamentais – a espiga do trigo, a folha do carvalho, o ouriço do castanheiro, a bolota, etc – elementos esses susceptíveis de darem lindas estilizações do mais rico efeito de composição. É interessante ver como a silhueta da cantarinha tem a sua semelhança com a linha de contorno da rapariga da região, vestindo as saias rodadas.
Li já impressão idêntica com referência à cantarinha de Coimbra, muito semelhante, também, na linha de contorno, com a silhueta estilizada da tricana.
Decerto, influência de uma imagem que está gravada nos olhos do oleiro, cujas mãos, modelando o barro, reproduzem nele, em estilização, uma figura que lhe baila nos sentidos...
Dinis Fragoso in “Revista Alentejana” – nº 242 – Junho de 1957