domingo, 3 de abril de 2016

AUGUSTO PINHEIRO: Um "naif" do sonho e da fantasia

A luz desce
sobre as asas
de uma árvore.

As rosas são bordados luxuriantes
rodeando a morte e a vida
de um vulcão.
O interior, aceso, espreita as margens.
Há canções de desgaste em toda a extensão.
E o dia ficou naquela aura longínqua
com que os dedos estremecem.

A luz desce no emaranhado das viagens
coloridas e entregues
à sofreguidão do visitante.
Poema de João Clemente sobre um quadro de Augusto Pinheiro
*******************
Artista que pintava com o coração
Passam hoje, dia 18 de Outubro, dezassete anos sobre a morte de Augusto Dinis Pinheiro, pintor naif, nascido a 22 de Agosto de 1905 na vila de Nisa.
Era comerciante de profissão e começou a pintar aos 66 anos. Participou em 40 exposições colectivas em Portugal e no estrangeiro e realizou 17 individuais.
Aqui e agora, evocamos o homem e o artista – um dos mais consagrados, a nível nacional, na arte naif – lembrando o seu sonho maior, ainda por concretizar: a instalação de um Museu em Nisa, sob o patrocínio da Santa Casa da Misericórdia, instituição onde faleceu e a que doou parte considerável do seu espólio artístico.
O nisense, Carlos Tomás Cebola, lembrou, em 2005, a propósito do centenário do nascimento do pintor, que “Augusto Pinheiro chegou tarde ao fascinante mundo das Artes: ao reino deslumbrante das Formas, das Cores, do Claro-Escuro, da Fantasia: ao fabuloso reino da Pintura.
Só muito tarde (como é triste dizê-lo) o Augusto começou a pintar telas com todas as tonalidades do azul (em fundo), para sobre ele (azul) lançar deuses, homens, aves, insectos, árvores e flores. Muitas flores.
 Todas as flores de um mundo só seu e que guardara, durante dezenas de anos, bem fundo, no mais íntimo de si mesmo, envoltas numa atávica evocação das rendas, dos bordados e das cantarinhas pedradas, que a Cultura e a Arte da sua Vila natal haviam arrecadado nele, desde a primeira hora. "
Seria difícil encontrar mais bela e profunda definição sobre a arte naif, uma arte sobre a qual ainda hoje se tecem muitas teorias e se lançam algumas desconfianças.

Arte do encanto e da magia
Na abertura do XXXI Salão Internacional de Pintura Naif, o director da Galeria de Arte do Casino Estoril, dr. Lima Carvalho, diria, a esse propósito:
“ Há por aí quem afirme que a pintura naïf é a pintura dos que não sabem pintar. Nada mais falso. É a pintura de todos quanto pintam como sabem, com ou sem técnica. Vem desde os primórdios da arte rupestre, com carta de alforria, apenas na última década do século XIX, por iniciativa de Henry Rousseau, que Picasso, alguns anos mais tarde apoiaria com entusiasmo.”
Lima de Carvalho, grande amigo e admirador de Augusto Pinheiro, vai mais longe, na caracterização da arte naif.
"As características desta pintura são o encanto e a magia que se aproxima da singeleza e graça da pintura infantil, saída muitas vezes das mãos de rudes artesãos ou de pessoas cultas, que se apaixonaram pela prática desta modalidade pictórica.”
Sobre o pintor nisense, o director da Galeria de Arte do Casino Estoril afirma:

“Quando se iniciou na pintura, Augusto Pinheiro não escolheu escolas ou correntes, linguagens ou formas de expressão. Deu rédeas soltas à sua imaginação e começou a pintar como o seu instinto lhe ditava, com total liberdade e desprendimento das regras da perspectiva ou da composição de que nunca ouvira falar. Com cores primárias e fortes, pondo em destaque os elementos que mais lhe diziam ao gosto e ao coração.
Augusto Pinheiro é um dos mais puros e autênticos "naifs" portugueses, pelo ingenuismo quase infantil dos seus trabalhos, a poesia lírica que ressalta de cada um dos seus quadros, a falta total de perspectiva, a pureza das cores, a originalidade dos temas e soluções. O carinho. O amor.”
Uma referência da pintura naif
Está feito o retrato do pintor, do mundo de sonho e fantasia que o rodeava. Um artista que chegou tarde ao mundo das artes e das formas, mas ainda a tempo de nos legar um notável acervo pictórico, revelador de toda a sua sensibilidade e de um universo de infância, o seu, que no retiro do estúdio ou do quarto passava para as telas.
A sua força criadora e a notável qualidade de cada um dos seus quadros, levaram-no a ser conhecido e admirado através das exposições que realizou em Lisboa (1974/ 77/ 78/ 79 e 81), Madrid (1976), Badajoz (1977), Estoril (1979/ 80/ 81 e 85), Funchal (1979), Viena de Áustria (1979), Castelo Branco (1981), Faro (1981), entre tantas outras, fizeram de Augusto Pinheiro um nome que, hoje, é referência obrigatória, sempre que se fala da Pintura Naif, em Portugal

Augusto Pinheiro está representado nos Museus de Pintura "Naif" de Jaén e Figueras, em Espanha e no Museu de Arte Primitiva Moderna de Guimarães.
Entre os prémios que recebeu referem-se: Menção Honrosa no Salão de Outono 1981; Menção Honrosa no IV Salão Nacional de Pintura "Naif" e Prémio Câmara Municipal de Guimarães no XIV Salão de Pintura "Naif", todos da Galeria de Arte do Casino Estoril.
A atribuição do prémio "Câmara Municipal de Guimarães", a mais alta distinção do "Salão Ibérico de Arte Naif", em Agosto de 1993, representa o reconhecimento por toda uma obra pictórica ao longo de 23 anos, que o levou aos mais distintos salões e galerias de arte, um pouco por toda a Europa.
Recolhido a Nisa, sua terra natal, aqui passou os últimos anos da sua vida, continuando a pintar, já sem o fulgor e clarividência dos tempos áureos da sua obra.
Apesar disso, manteve sempre, até morrer, a lucidez de um desejo, um sonho, um projecto, de que falava com alguma insistência e que não viu concretizado: a instalação de um museu, de uma sala de exposições onde as suas obras e de outros pintores "naifs" pudessem mostrar aos vindouros, a beleza e a perenidade da arte e da cultura.
É este um desejo por cumprir e que às instituições (Misericórdia e Câmara de Nisa) se impõe como um dever indeclinável: o de transmitir para a posteridade, a obra do artista, ajudando a criar um espaço onde os quadros de Augusto Pinheiro, possam ver a luz do dia e passar a mensagem do amor que dedicou à arte, à natureza e, por ela, à vida.
É o mínimo que podemos fazer pela sua memória.
Augusto Pinheiro – Artista e cidadão de Nisa
(Extracto do discurso na Sessão Solene de Homenagem, no dia 20 de Abril de 1987 - Feriado Municipal.)
Em 20 de Abril de 1987, a Câmara Municipal de Nisa atribuiu ao artista nisense a Medalha de Mérito Municipal (prata), em sessão solene realizada no salão nobre dos Paços do Concelho.
É dessa sessão evocativa e de homenagem a um dos vultos da cultura nisense, que extraímos as palavras que seguem.

“Augusto Pinheiro, comerciante de profissão, viveu até aos 66 anos afastado das tintas e pincéis.
Fazia muitos desenhos para bordados, actividade a que se dedicava sua esposa.
Publicou dois números da revista de bordados "Ponto Real", com muitas flores e ramagens.
Ficava bastante impressionado quando visitava uma exposição de pintura, e com o desejo enorme de começar também a pintar.
Um dia pegou num lápis de cor e papel e fez um lindo desenho. Do papel passou ao pano e começou a fazer um pequeno quadro. Daí em diante nunca mais parou. Em 1970/71 passou pela casa Ferreira a comprar as primeira tintas a óleo, os secantes, e aprendeu a isolar as telas de linho, as quais também são preparados por si.
Dois anos mais tarde, já com os quadros prontos, escreveu ao senhor arquitecto, crítico e pintor Mário de Oliveira, pedindo o favor de passar pelo seu escritório para lhe mostrar umas simples pinturas. Viu, gostou, e o pintor nem queria acreditar, parecia uma criança, pois julgava que tudo aquilo era uma brincadeira sem valor.
Foi o arquitecto Mário de Oliveira que o encaminhou e encorajou para continuar a pintar, pois logo que tivesse duas ou três dezenas de quadros, voltaria a aparecer para seleccionar algumas das suas obras para um dia fazer uma exposição.
E assim foi, esta em Janeiro de 1974, na Galeria de Arte do Diário de Notícias.
Foi o seu primeiro êxito, pois a crítica a considerou como a mais coerente e inventiva. E pela mão daquele conceituado crítico, nesse mesmo ano, foi seleccionado para a exposição da A.I.C.A. (Associação Internacional dos Críticos de Arte), na Sociedade Nacional das Belas Artes, uma das exposições mais exigentes, porquanto é organizada por aquela associação.
A partir desta importante e significativa exposição a carreira artística de Augusto Pinheiro, teve sempre os maiores êxitos.”
(...)”A arte é, sem dúvida, a forma mais positiva de comunicação. O artista erudito comunica uma mensagem; o artista que pratica o Naif não nos oferece essa mensagem, antes pinta como quem conta uma história ou relato emocional da sua personalidade.
É, isto, afinal, que nos tem oferecido Augusto Pinheiro: contar histórias da sua imaginação, cheia de encanto, de pureza e de lirismo.”
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 2/11/2011

sábado, 2 de abril de 2016

O TRAJE DE NISA na descrição do Prof. José Francisco Figueiredo (I)

Trajes do Alentejo - Evolução do trajo e do penteado (camponeses, lavradores e artífices e suas famílias)
Em remotos tempos, as mulheres usavam saia de catimbé (au), fazenda espessa de lã, geralmente em azul escuro ou castanho, com barra amarela, cor de rosa ou encarnada. Estas saias tinham, de ordinário, três panos e eram demasiadamente compridas, passando mais tarde a usar-se por abaixo do joelho. Por baixo da saia de catimbé, faziam uma de estamenha, tecido de lã e linho; mas esta, em vez de barra, terminava por uma orla formada a pontos de trança de lã em espiral, distanciados de um centímetro pouco mais ou menos.
Usavam ainda, sob a estamenha, saias de beata de seda, uma espécie de flanela de algodão felpuda.
As camisas eram sempre de linho, sendo frequente encontrarem-se algumas em que a parte correspondente ao tronco era de linho e a inferior de estopa ou estopinha. Nas mangas, que quase todas tinham e nos ombros eram bordados com linha caseira, isto é, com fios de linha adrede preparados.
No peito, sobre a camisa, vestiam um colete de pano encarnado, enfeitado com fitas de cor diferente e sobre a roupinha, uma espécie de corpete muito justo e que, conforme se destinava ou não para dias festivos, era confeccionada em seda de várias cores, ou em pano azul de lã.
As mangas desta interessante peça de vestuário eram também muito apertadas por meio de pregas longitudinais no braço e antebraço, notando-se apenas uma parte mais larga na região do cotovelo que deu a tais mangas a denominação de mangas de balão.
Sobre a roupinha usavam ainda a capa de bombonete, que era uma capa pequena de tule ou renda bordada de branco com que cobriam apenas os ombros e cujas pontas iam prender-se sobre o seio com um alfinete ou uma fita de seda branca. Nos dias de maior solenidade, como casamentos, festa de S. Pedro, etc., as lavradoras vestiam saias de seda chamadas saias de rua que, com o desuso, têm sido transformadas nestes últimos tempos em lindíssimas colchas.
Com o decorrer dos tempos, as saias de catimbau (bé) cederam o lugar às de castorina fina; a roupinha apertada, a outra de mangas largas feitas dos mais variados tecidos, e a capa de bambonete com lindíssimos lenços de pescoço, em lã ou seda, na maior parte das vezes bordados pelas portadoras.
As saias de castorina ainda hoje se usam, embora arrebicadas de pregas e plissados, e foram elas que, com os lenços de pescoço e a tradicional roupinha, constituíram, por largos anos, o trajo característico e interessantíssimo das donzelas nisenses.
Houve uma época em que o luxo e a ostentação se aferiam pelo número de saias usadas, sendo frequente aparecerem nos bailes raparigas cuja cintura tinha de suportar o peso de doze daquelas incómodas peças de vestuário! Era um martírio, principalmente de Verão! E, como se este peso não fosse bastante para cruciar as pobres moças, ainda o peito e o pescoço tinham de suportar a pressão de várias gargantilhas, cordões, grilhões, cadeias, etc., que algumas ostentavam, como ourivesarias ambulantes, vaidosamente. Servia-lhes de agasalho – e nem de outra forma saíam à rua – numa mantilha roxa, forrada de beata encarnada, na parte que colocavam sobre a cabeça. Mais tarde a mantilha roxa foi substituída por outra de pano preto, com que assistiam às cerimónias religiosas e ocultavam o rosto à indiscrição dos curiosos.
Hoje a mantilha apenas é usada por algumas viúvas mais aferradas à tradição e ainda assim só nos primeiros tempos de viuvez. (continua)

José Francisco Figueiredo - década de 1940 - Texto publicado na Etnografia Portuguesa de Leite de Vasconcelos

AMBIENTE: O centenário dos plátanos da Alameda

Numa época em que o administrador do concelho, vulgo presidente do órgão Câmara Municipal, a pretexto de obras de requalificação, manda abater árvores com algumas dezenas de anos (Boqueirão, Cevadeira e Devesa) urge lembrar aqui aqueles que há 100 anos e em plena Monarquia, tiveram vistas largas e mandaram plantar os plátanos do Rossio. Lembrança e homenagem ao Dr. Mário Augusto de Miranda Monteiro, presidente da Câmara e deputado da Nação, com o nome perpetuado numa das ruas da vila, o antigo Canto do Adrião.
Os plátanos do Rossio (actual Praça da República) foram plantados há 100 anos e para que não restem dúvidas, os documentos aqui se transcrevem. Para que conste e se lembre o inalienável dever de preservar o património que é de todos. (Será?)
ARBORIZAÇÃO DO ROSSIO (I)
- Carta ao Director das Obras Públicas deste Distrito
Pretendendo esta Camara proceder à arborização de parte do Rossio desta villa, rogo a Vª Exª se digne dizer-me se nos viveiros, a cargo da direcção das Obras Públicas deste distrito, existem plantas que possam ser fornecidas para tal fim. No caso afirmativo, peço a Vª Exª se digne indicar-me as especies de arvores disponiveis, seus preços e locaes onde ellas se acham.
Deus guarde a Vª Exª. / Niza,10 de Dezembro de 1909
O presidente da Camara: Mário Miranda Monteiro
ARBORIZAÇÃO DO ROSSIO (II)
- Ao Director das Obras Públicas do distrito de Portalegre
Esta Camara está procedendo à plantação de arvores no Rocio desta villa, junto da estrada que, do Tejo conduz a Alpalhão na qual se acham arvores caducas, que convém serem substituidas por outras eguaes às que no terreno municipal se estão plantando do que resultará o aformoseamento não só do largo como da estrada. Neste intuito pois, peço a Vª.Exª em nome desta Camara a precisa auctorização para a substituição das arvores a que alludo, com a maxima brevidade possivel, visto que as arvores a plantar vieram de fora, ha já alguns dias e podem inutilizar-se com a demora da plantação. É este um melhoramento local inadiavel e para a realização do mesmo de muito servirá o apoio que esta municipalidade espera encontrar em Vª Exª.
Deus guarde Vª Exª. / Niza, 7 de Março de 1910
O presidente da Camara: Mário Miranda Monteiro

terça-feira, 29 de março de 2016

Evocação de um nisense ilustre: Cruz Malpique (I)

A verdadeira arte de Malpiquizar ( Biografia)
Manuel da Cruz Malpique nasceu na freguesia do Espírito Santo, em Nisa, a 28 de Setembro de 1902. Filho de gente humilde que arrancava à rudeza dos campos, os magros meios de subsistência, cedo Cruz Malpique começou a sentir as agruras da vida.
Em 1918, a pneumónica leva-lhe a mãe e, nesse mesmo ano, no próprio dia em que seguia para Portalegre para frequentar, como externo, o liceu, morre seu tio paterno, o padre António da Piedade Marques, que se tinha revelado como seu protector.
Antes, já Cruz Malpique, para além na vida na lavoura, havia trabalhado nos correios e telégrafos e nas oficinas da Escola Prática de Engenharia, em Tancos.
Graças ao apoio do benfeitor Carlos Moreira da Costa Pinto e após ter concluído o curso liceal, matricula-se, em 1923, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e mais tarde, em 1924, na Faculdade de Letras. Completa ambos os cursos, Direito e Filosofia, em 1928 e depois de frequentar a Escola Normal Supeior, inicia a carreira de professor do Ensino Secundário que o vai levar, sucessivamente, aos Liceus de Gil Vicente e Pedro Nunes, em Lisboa, Faro, Angra do Heroísmo e Luanda.
Esteve em Angola até 1947, leccionando como professor e além das funções docentes, colaborou em vários jornais e revistas, escrevendo grande parte da sua obra literária.
Foi reitor do Liceu Salvador Correia, durante três anos, chefe dos Serviços de Instrução daquela ex-colónia, presidente da Sociedade Cultural de Angola.
De regresso ao país foi professor durante muitos anos ( de 1948 a 1984) no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, cidade que considerou como sua terra adoptiva e na qual viria a falecer em 6 de Setembro de 1992.
Cruz Malpique deixou mais de 200 títulos de uma vastíssima obra literária que integra, ainda, " uma enorme catreva de inéditos" por publicar, guardados na Biblioteca Municipal do Porto.
A sua obra percorre campos tão diversos como a filosofia ( o seu grande "amor"), a pedagogia, a análise biográfica, ou a psicologia, revelando uma grande craveira intelectual e mostrando o perfil de um homem humanista. De entre as obras dadas à estampa, num trabalho contínuo e profícuo dedicado às letras, merecem destaque:
"Introdução à vida intelectual" - 1934 - a sua tese de licenciatura, foi dedicada ao Dr. Joaquim de Carvalho, "sábio professor da Universidade de Coimbra", a António Sérgio, com quem conviveu , "à sua inteligência clara e carácter íntegro" e a Carlos Moreira da Costa Pinto; "O Homem, centro do mundo (1936), "Como se faz um escritor" (1939), "O homem de ciência" (1940), "Arte de conversar" (1950), "Psicopedagogia da Curiosidade"( 1952), "Leonardo da Vinci, operário de inteligência" (1952), "O homem, glória e refugo do Universo" (1953), "Filosofia do Plágio" (1955), "Pão para a boca do homem" (1957), "Chávenas de café quase amargo" (1957), "Psicologia literária do homem do Porto" (1958), Cervantes, cidadão do mundo" (1964), "Perspectivas, dificuldades e heresias da Filosofia" (1965), "Sebastião da Gama, poeta de primeira água" (1965), "Miguel de Unamuno e Portugal" (1967), "Linguagem falada e escrita" (1969), "José Régio, alguns aspectos da sua biografia interior" (1971), "Alguns aspectos do perfil psicológico do português" (1974), "Perfil humanístico de Abel Salazar" (1977).
Em 1987, por ocasião do feriado municipal, a Câmara de Nisa homenageou o homem de letras e ilustre filho desta terra, atribuindo-lhe a medalha de mérito municipal e dando o seu nome à rua onde se situa o quartel dos Bombeiros Voluntários.
A Câmara do Porto, por seu turno, aprovou, em Dezembro de 1992, a atribuição do nome de Cruz Malpique a uma rua da freguesia de Ramalde, na cidade invicta.

VIDAS: Isabel Carita - 47 anos a vender pão

 “As grandes superfícies mataram o comércio tradicional”- Isabel Maria Carita
É uma história de vida dedicada ao comércio que merece ser realçada, a da senhora Isabel Maria Carita, 79 anos, viúva, nada e criada em Nisa.
“Comecei com 20 anos a vender na praça (mercado), ao pé dos Correios. Vendia frutos, batatas, hortaliças, melancias, tudo produtos dos terrenos do Dr. Garcia (Veterinário). Ainda vendi no lugar do senhor João Mendes, no Rossio e quando abriu a Praça (Mercado Municipal) fomos para lá.
Tínhamos uma casinha alugada e nas quintas-feiras e domingos, além das frutas e dos legumes, vendíamos também frangos, coelhos, animais criados na horta e abatidos no Matadouro Municipal. Foi um crime, terem deixado acabar o Matadouro, cá em Nisa.
Quando nasceu a minha filha, a minha mãe, coitada, pouco podia ajudar e então abri aqui a venda com os produtos hortícolas do Dr. Veterinário, umas mercearias e pão, que nessa altura foi autorizado a ser vendido nos comércios.
Parece que foi ontem e já passaram 47 anos, todos os dias a levantar-me às seis da manhã.
Comecei a vender pão do senhor Branco, mais tarde do senhor Virgílio, do senhor Andrade (Fábrica) e do Monte Claro.”
Ganhou a sua própria clientela, uma clientela fiel, desde há muitos anos, a par de outras pessoas que passam na estrada e ali se detém, pela simplicidade da venda e pela simpatia da vendedora, não falando da fama do pão do Monte Claro.
Isabel Carita, como comerciante experiente, não aponta preferências, apenas vai dizendo que o pão do Monte Claro é, talvez, mais procurado, por ser feito (cozido) em forno de lenha.
Discrição, amabilidade e simpatia têm sido as “armas” de Isabel Maria Carita. Nos seus 79 anos de vida e de quase meio século, a contactar com o público, diz nunca ter tido o mais pequeno problema.
A sua casa, loja, venda, na Estrada da Fonte da Pipa é um exemplo de estabelecimento onde o asseio e a arrumação saltam à vista.
Os senhores da UE valorizam pouco, quase nada, estas vendas e locais de convívio, onde o atendimento é pessoal e quase familiar.
O pão do dia ou os bolos que a senhora Isabel vende, são, sempre, um primeiro passo para uma conversa, que ajuda a manter as relações de sã convivência entre uma comunidade.
Aos 79 anos, para a maioria das pessoas, já seria tempo suficiente para “embarcar” na reforma e no descanso. Não pensa assim, Isabel Carita, para quem a sua venda não é, apenas um lugar de negócio, mas um espaço de motivação e de ajuda para se sentir válida no dia a dia, não permitindo que a rotina e o abandono, progressivo, da vida, se instale.
A vontade de manter o seu posto, servindo os seus clientes e amigos, parece ter chegado ao fim, face às exigências da lei. Continuar, significaria a transformação da loja, um vultoso investimento em obras e mobiliário que a sua idade já não aconselha.
“Fico muito triste. São muitos anos nesta vida, a vender pão, a conversar com as pessoas. Levanto-me de manhãzinha bem cedo e começo logo a conversar, a girar para aqui e ali. E agora?”
E, agora, senhora Isabel? O que dirão centenas, talvez, milhares de pessoas com situação semelhante à sua?
A CEE, a UE ou lá o raio que é, parece importar-se pouco com a destruição do frágil tecido comercial e industrial das aldeias e vilas.
Importante, mesmo, são as “normas”, as imposições, o pão, o queijo, os produtos “bacteriologicamente puros”, sabendo a coisa nenhuma.
Importante para os tecnocratas que nos (des)governam é o invólucro, a embalagem.
Mário Mendes in "Jornal de Nisa" - nº 245 - 19 Dez.07

FIGURAS POPULARES DE NISA: O Senhor Alberto

Gosto de fazer viagens à minha infância.
Redescobrir mundos e lugares, pessoas e tradições que o tempo corroeu. Gosto de me embrenhar no tempo, de reinventar sensações, de correr célere pelos caminhos da minha meninice.
Como era diferente essa época...
Percorríamos ruas e becos, chãos e tapadas, azinhagas, brincávamos aqui e ali, onde calhava, com um prazer sempre renovado.
Havia também as pessoas que entravam na nossa vida e que ajudavam a transformar esse mundo infantil, povoado de sonhos e fantasia.
O Senhor Alberto era uma dessas figuras.
Era um velho carpinteiro que tinha a sua oficina numa das ruelas da vila, ali a dois passos da “Praça”.
Vivia só e mal, como quase todos os artistas daqueles negros tempos, mas nunca lhe ouvi um queixume, uma frase mais azeda ou a despropósito.
De resto, falava pouco, sempre metido consigo próprio, abrindo excepção quando contactava com as crianças que amiúde o visitavam.
O sorriso espontâneo com que nos recebia denotava uma grande afeição e ternura. Via-se, claramente, que gostava de crianças...
De outro modo não permitiria a “invasão” da sua modesta e acanhada oficina nem a desarrumação em que a deixávamos. Tive sempre a sensação que representávamos para ele, sei lá, um mundo, uma parte importante da sua vida, abruptamente cortada.
A sua fabriqueta, na pequena casa da rua da Cadeia, dispunha de um torno e uma bancada, num espaço bastante reduzido.

Ali se encontravam, no mais completo desalinho – que nós ajudávamos a tornar pior – os mais diversos objectos: partes de cadeiras, de móveis, janelas, madeiras por trabalhar, ferramentas. Um “caos”.
O torno era o seu principal instrumento de labor, onde vagarosa mas habilmente ia dando forma aos mais (para nós) complicados trabalhos de carpintaria fina.
Ali passei, com outros companheiros de escola e de brinca, muitas tardes observando aquele velho e paciente artífice, que nos dirigia – qual avô universal – palavras de afecto e carinho.
Tinha uns olhos encovados, o Senhor Alberto. Neles se vislumbrava, bem no fundo, uma grande melancolia.
O sofrimento não deve ter poupado aquele homem bondoso.
O cabelo, já um tanto descomposto e gasto, descia-lhe pela cabeça em pequenas falripas. Um bigodinho branco da cor do cabelo, ajudavam-lhe o sorriso com que corajosamente nos enfrentava.
As suas mãos pequenas, de artista, faziam prodígios nos trabalhos que lhe pedíamos:
- Senhor Alberto, faça-me daqui uma bitôrra! (1).
E estendíamos-lhe um pedaço de azinho, a que ele sucessivamente ia dando formas até o transformar num objecto de brincadeira.
Doze, quinze tostões, às vezes apenas um sorriso, bastavam para o seu apreciado trabalho.
E lá íamos, contentes, para a “Praça”, para os “Postigos ou para a Porta de Montalvão, fazer uso público daquele brinquedo.
O Senhor Alberto e a casa onde morava há muito que deixaram de existir. O camartelo destruiu aquele velho edifício e no seu lugar surgiu outro mais moderno e mais feio também.
Mas, quando ali passo, recordo sempre, num misto de alegria e saudade, o Senhor Alberto, artista de bitôrras e piões, construtor de sonhos da minha infância.
(1) – Bitôrra: pião mais redondo e mais aperfeiçoado.

Mário Mendes

sexta-feira, 25 de março de 2016

CONTOS DO CHÃO DA VELHA: A História da Navalha

A jusante da foz do Rio Nisa, na margem esquerda do Tejo, uma linha de oliveiras mais frondosas servem de paragens aos pastores daquela área. Isto no decorrer de muitos anos.
Ali se faziam as permutas entre pescadores e pastores. Os pastores ofereciam leite aos pescadores. Estes pescavam peixe para os pastores e ambos se consolavam variando o prato do dia a dia.
Sob essas oliveiras durante o acaro*, numa tarde de Verão, dois jovens pastores trocavam impressões e merendavam.
Um deles, ao tirar o pão, o queijo, o canivete – a navalha, melhor dizendo – do sarrão, disse para o companheiro que estava farto daquela navalha. Há tantos anos, já tão velha, um podão autêntico.
Pega nela e atira-a para o fundo da ribanceira.
Conversaram, comeram, e à tarde, quando o gado regressava ao Chão da Velha, o outro troca as voltas, procura a navalha e próximo da povoação encontram-se. Sem que o primeiro desse por ela, o outro coloca-lhe a navalha no sarrão.

Em casa, à ceia, quando aquele que se queria desfazer da navalha tira o resto pão para comer e depara com a respectiva navalha, fica espantado, como que aturdido, não acreditando ser a mesma navalha da qual ele se queria desfazer.
No dia seguinte, encontra-se com o companheiro, conta-lhe o sucedido, o outro faz-se descrente, e chama a atenção se não se lembra de ele a ter arremessado lá pró fundo da barreira. E ele diz que sim e que isso seria impossível, que haveria bruxedo, etc.
Bem, nesse segundo dia, o mesmo protagonista atira a navalha muito para além e cai já no leito do rio, em seco, evidentemente, no meio de cascalhos rolados.
O segundo repete a mesma façanha e o outro mais espantado fica, à noite, quando volta a encontrar a maldita navalha da qual não se conseguia desfazer.
Mais espantado ainda lhe conta. O outro faz-se descrente, incrédulo e, pela terceira vez, atira-a para a água. Nesse local, em frente das oliveiras, havia um cachão, portanto com ligeiro declive, água pouco profunda e ambos vêem que a navalha cai dentro de água.
O mesmo parodiante, volta a trocar as voltas ao primeiro, regressa ao Tejo, pesquisa, encontra a navalha e volta a colocá-la no sarrão do primeiro.
Então, no último dia, o outro dá-se por vencido e desiste de se desfazer da navalha, porque já tentou tudo sem que conseguisse os seus objectivos.
E é esta a história da navalha, entre os dois pastores do Chão da Velha.
* Acaro – Sítio para resguardar o gado do sol.
F. Henriques e J. Caninhas – “Contos populares do Cortelhões e Pilingacheiros”